Caros membros da expedição O Meu Everest
Se no post anterior falamos sobre as inevitáveis mortes na montanha, hoje vamos para o lado oposto da questão: os voluntários que salvam vidas no Everest.
A Himalayan Rescue Association é uma organização não governamental que oferece apoio médico a expedições e trekkings nas trilhas da região. É uma tábua de salvação para os primeiros-socorros de alpinistas, e conta com médicos voluntários especializados em doenças provocadas pela altitude e por traumas.
A HRA é responsável pela clínica localizada em Periche – o último assentamento importante e habitado antes do Campo Base – que funciona nas duas temporadas ao Everest (em maio e em outubro). O hospital mais alto do mundo está montado em uma cabana simples, mas com todo o equipamento necessário para o auxílio de alpinistas e trekkers em apuros.
Este posto foi construído em 1976 pelo Tokyo Medical College e desde então já recebeu cerca de 280 médicos de todas as partes do mundo. A clínica é muito procurada por especialistas que querem estudar, in loco, os efeitos da altitude no organismo humano. Nesta temporada estavam atendendo na clínica os médicos Neil Edmund Waldman, Noralma Garcia, Tracy Alexandra Cussing, David Weber e Madeleine Rebecca Martindale (todos dos Estados Unidos) e o doutor Lara Azzopardi , de Malta.
A vila de Periche, último assentamento habitado antes do Campo Base, e onde se localiza o posto médico da HRA
Um dos voluntários diante da clínica... .... e no trekking rumo ao lugar onde ficarão por dois meses
Mais de 90% das consultas realizadas ali se referem aos males da altitude (edemas pulmonar e cerebral, hipoxia, hipotermia), seguidos por fraturas e congelamentos. O custo elevado para manter a clínica da HRA aberta é compensado pelas vidas que esses médicos salvam a cada temporada – e pelo tratamento que oferecem à população da região que, enquanto o posto funciona, também recebe auxílio dos médicos voluntários.
Além disso, o trabalho realizado e o estudo proveniente do tratamento aplicado estão sendo decisivos para se conhecer um pouco mais sobre o mal de altitude – o que será de grande valia na prevenção e na cura emergencial desta patologia que atinge uma boa parte de quem se aventura nas grandes montanhas himalaias. E que ainda é um tanto desconhecida: já se conhece os muitos sintomas que dão o aviso do mal, como a doença evolui e quais são as primeiras providências a serem tomadas. Mas as causas exatas ainda são ignoradas.
Por exemplo: por que há quem se adapte em muito pouco tempo, enquanto outros nunca se aclimatizam? Por que há reações diferentes na evolução do mal de altitude? Por que há os que nunca se adaptam? E, principalmente: por que alguns alpinistas experientes em altitude se aclimatizam bem em uma temporada e, no ano seguinte, sofrem com a altitude em um acampamento bem mais baixo do que o do ano anterior? Houve um caso, há alguns anos, em que um experiente alpinista que morreu subitamente no Campo Base do mal da montanha, após ter chegado ao cume (e aos 8.848 metros) por diversas vezes. São questões que os voluntários da HRA em Periche estão tentando resolver.
À esquerda, mais um grupo chega a Periche para a temporada. E à direita, a câmara hiperbárica, um dos recuros utilizados para diminuir a sensação de altitude e reverter casos do mal da montanha
O que se está buscando – e já está em curso, por conta dos estudos – é que, em pouco tempo, através de uma simples amostra de saliva, se possa ter noção da adaptação do organismo da pessoa testada à altitude. Cientistas como Paul Richalet, médico especializado nestes casos, estão relacionando essa capacidade de aclimatação aos níveis de um hormônio chamado angiotensina, que é responsável por problemas cardiovasculares como hipertensão e vaso-constricção, que são severamente atingidos pela altitude. Pessoas que têm níveis baixos deste hormônio demonstram melhor funcionamento do organismo em grandes alturas.
Só um pequeno resumo do que é o mal de altitude: o edema (cerebral, pulmonar ou subcutâneo) é a conseqüência mais grave, e fatal, da drástica altura do Everest. A retenção de líquidos e sódio é a causa da disfunção e os primeiros sinais denunciadores é o inchaço do rosto e dos membros superiores e inferiores (por isso a ingestão de muito líquido e de diuréticos é recomendada mesmo para os trekkers).
Não sendo diagnosticada, a doença avança para um grave edema cerebral , processo que é desencadeado quanto mais o ar fica rarefeito, o que obriga o coração a realizar um esforço muito maior para satisfazer a necessidade de oxigênio do cérebro. Isso, claro, é apenas um resumo da história, que é muito ampla e grave. Depois faremos um post sobre como o organismo humano reage à altitude, em todas as suas vertentes...
A tomografia de um alpinista que sofreu edema cerebral na temporada de 1997
Uma das maneiras de se evitar a patologia é de conhecimento comum de todos os alpinistas e líderes de expedições, e segue a máxima: “suba alto e durma baixo”. Ou seja: para uma aclimatação satisfatória (fora os imprevistos) o plano de escalada prevê subir a um acampamento mais alto e descer para dormir em outro, imediatamente inferior. Descansa-se ali e retomando a escalada, segue-se ao campo seguinte, e ao próximo, para pernoite no campo intermediário. E assim se vai subindo as encostas do Everest...
Suba alto e durma baixo: esta é a máxima da escalada em grande altitude. No caso do Everest, requer pelo menos oito viagens subindo e descendo a montanha até o dia do cume
O interessante é que este método não foi “descoberto” pelas expedições modernas. Ele remonta ao século XVI (!) e quem o utilizou, por intuição, pela primeira vez, foi o conquistador espanhol Francisco Pizarro, quando liderou uma longa caminhada desde Lima (a 150 metros do nível do mar) até Cuzco, a 3.399m. Ele percebeu que seus homens mais fortes – e que faziam o percurso rapidamente – sofriam com diversas moléstias, enquanto os mais lentos, não. Sua perspicácia fez com que montasse um posto intermediário, a 2.752 metros de altitude, em San Juan de la Frontera, facilitando, assim, a aclimatação (embora eles não chamassem assim...) de sua tropa...
A Everest Base Camp Clinic, montada no Acampamento Base do Everest e desde 2003 salvando vidas na montanha
Voltando aos bons serviços da Himalayan Rescue Association quando o assunto é salvar vidas, além do posto de Periche, em 2003 foi inaugurada a Everest Base Camp Clinic, um posto avançado instalado no Campo Base do Everest. Dali, os médicos prestam os socorros emergenciais em casos mais graves, como o envenenamento do sherpa por uísque falsificado este ano. A atuação dos médicos foi fundamental para que ele sobrevivesse.
O resgate feito pelos voluntários nas encostas frias do Everest
Helicóptero para a retirada dos feridos mais graves da montanha, que são levados imediatamente para o hospital em Kathmandu
E os voluntários em ação, na barraca-médica
Uma última curiosidade sobre o posto da HRA: o lendário guia e alpinista neozelandês Rob Hall (um dos protagonistas da tragédia de 1996) conheceu sua mulher, a alpinista e médica especializada em males da altitude Jan Arnold, na clínica de Periche, onde ela prestava serviços como voluntária. Foi com ela que Hall trocou suas últimas palavras, escolhendo o nome da filha Sara pouco antes de morrer, por hipotermia, em maio de 1996. O gerente de seu Campo Base fez uma ligação via satélite, ligando Hall à Nova Zelândia, para se despedir de Jan... E ela, com conhecimento técnico do estado do marido, sabia mais do que ninguém que ele não retornaria.
Um pequeno voluntário? Quem sabe um futuro médico da Base Camp Clinic – ou um futuro montanhista... E o símbolo da Everest Base Camp Medical Clinic
Este é um trabalho lindo dos muitos médicos que vão, todos os anos, e sem receber nada por isso, para a gelada vila de Periche, a 4.240m, e permanecem por lá cerca de dois ou três meses. E que desde então salvaram muitas vidas. Se, como vimos antes, muitos morrem tentando escalar a montanha mais alta do mundo, certamente outros sobreviveram graças a Himalayan Rescue Association.
Namastê!