Caros membros da expedição O Meu Everest
Hoje o assunto pode parecer um pouco tenebroso, mas não há como fugir dele. Em uma montanha como o Everest, fatalidades acontecem em número razoável em todas as temporadas. E as conseqüências disso – os corpos que permanecem na montanha e, muitas vezes, na rota de subida para os acampamentos mais altos – tornam inevitável que toquemos neste assunto.
De qualquer forma, não teremos imagens fáceis de se ver neste post. São fotos fortes, mas que fazem parte dessa triste estatística da alta montanha.
Todos sabemos que o montanhismo de grandes altitudes é um esporte de risco. Um risco calculado, pela estrutura de que as grandes expedições dispõem atualmente e pela ajuda da tecnologia – tanto no sistema de comunicação como nos equipamentos de segurança de escalada e vestimenta. Mas não há como fugir dos imprevistos. Sejam naturais, como avalanches, quedas em gretas ou desabamentos de séracs, sejam da própria natureza humana: mesmo quem já subiu vários OitoMil com ótima aclimatação não está livre de, em algum dia, sofrer com Hape e Hace (edemas pulmonares e cerebrais provocados pela altitude) e outros males. São circunstâncias inerentes ao próprio esporte – mas que deixam, pelo caminho, os corpos que não podem ser resgatados. E que acabam se tornando “marcos” para traçar a rota de subida.
O caso clássico pela rota tibetana, do Colo Norte e Aresta Nordeste, é o alpinista conhecido como Green Boots – um indiano que pereceu na descida por hipotermia, aconchegou-se em uma pequena reentrância na neve e morreu. Seu corpo era avistado por quem seguia a rota, na confluência do Colo Norte com o início da Aresta. Era inevitável passar por ele. E ao avistar sua caverna, os alpinistas tinham a noção do tempo de escalada até o cume.
Nas três fotos acima, o montanhista indiano conhecido como Green Boots, cujo corpo foi retirado da montanha em 2007
Foi ao lado dele que David Sharp – também sofrendo de hipotermia em 2006 – recolheu-se para, em um estado de quase-inconsciência provocado pelo Mal da Montanha, simplesmente morrer. E, sendo o caminho para o cume, dezenas de alpinistas passaram por ele na ida e finalmente o acudiram na volta. Mas aí já era tarde demais. Sharp morreu ao lado de Green Boots. Seu corpo – como o do indiano – foram resgatados no ano seguinte. A caverna agora está vazia.
A caverna do Green Boots, agora vazia
A maior historiadora do Himalaya e uma autoridade no assunto, Elizabeth Hawley – uma velhinha inglesa que mudou-se para Kathmandu há décadas e possui o maior banco de dados sobre as montanhas desta parte do mundo – compilou as causas e os locais de maior incidência de mortes desde que as primeiras expedições chegaram ao Everest. O levantamento disponível cobre o período de 1921 a 2006.
A historiadora Elizabeth Hawley tem o maior banco de dados sobre as montanhas himalaias. Além de prestar consultoria para expedições, ao final de cada temporada, através de entrevistas e relatórios, Hawley amplia sua pesquisa com depoimentos de montanhistas e guias
O resultado é um impressionamente levantamento. Coletando dados sobre 85 anos de expedições ao Everest, Hawley compilou (dados até 2006) 14.138 montanhistas ascendendo ao cume (sendo 8.030 ocidentais e 6.108 sherpas) – destes, 212 (dados até 2006) morreram em algum ponto da montanha, na subida ou na descida e de causas variadas. Ela classificou as causas das mortes como ocasionadas por traumas (desabamentos ou quedas), causas não-traumáticas (fadiga profunda, mudanças cognitivas, ataxia, hipotermia e morte súbita) ou desaparecimento (quando o corpo nunca é encontrado).
De 1982 a 2006, 82,3% das mortes ocorreram durante a ascensão ao cume. De 94 montanhistas que pereceram acima de 8 mil metros, 53 (ou 56%) morreram na descida; 16 (17%) após desistirem do cume e voltarem; 9 (10%) durante a descida do topo; 4 (5%) após deixarem o acampamento mais alto; e 12 (13%) de causas não conhecidas. Outro dado significativo do estudo revela que as mortes (também acima dos 8 mil metros) aconteceram por quedas (34%), desparecimento (29%), doenças provocadas pela altitude (11%), morte súbita (5%), hipotermia (2%). Quinze por cento das fatalidades na Zona da Morte não puderam ser classificadas por uma única causa.
As primeiras vítimas do Everest foram sete sherpas – até hoje, o número de fatalidades envolve, em sua maioria, montanhistas sherpas – que faziam parte da expedição britânica, a segunda de George Mallory, em 1922. Uma avalanche de proporções gigantescas se desprendeu da parte mais alta do paredão que leva ao Colo Norte (rota tibetana), sepultando os sherpas que subiam atrás de Mallory. Que escapou ileso mas nunca conseguiu superar o acontecimento.
O fato é que, mesmo sabendo que haverá corpos pelo caminho, avistá-los é sempre um obstáculo psicológico a mais para quem está na mesma empreitada de quem agora jaz na montanha para sempre. Ver um cadáver de um montanhista é como ter a consciência da impotência que pode atingir a qualquer um. Superar isso talvez seja até mais difícil do que chegar ao cume.
Muitos montanhistas, ao partirem para as altas montanhas, deixam sua vontade expressa de permanecer lá, caso algo aconteça. O guia americano e líder da Mountain Madness em 1996, Scott Fischer, ainda está lá, bem próximo ao Campo 4, no Colo Sul nepalês. Rob Hall, líder da Adventure Consultants na mesma temporada, também, em algum lugar próximo ao Cume Sul. Outros, como o corpo de Andy Harris, guia de Hall, que despareceu na tragédia de 1996, e o de Nills Antezana, médico abandonado pelo guia e os sherpas que o conduziam em 2004 na Plataforma Balcony, nunca foram encontrados – assim como tantos outros que permanecem em algum lugar desta montanha.
O visionário Maurice Wilson, que em 1934 tentou, sozinho, chegar ao cume do Everest. À direita, os restos de Wilson, que de vez em quando emergem da neve
Há casos que beiram o fantasmagórico. Em 1934, um visionário chamado Maurice Wilson – um soldado britânico, excêntrico e místico, sobre quem iremos falar mais detalhadamente em breve – resolveu, mesmo sem conhecimento de técnicas de escalada, chegar ao cume do Everest. Sozinho. Aventurando-se pelo desértico platô tibetano, Wilson desapareceu na rota seguida pelas expedições atuais do Glaciar de Rongbuk. Seu corpo foi descoberto por Eric Shipton aos pés do Colo Norte, em 1935. E hoje, de acordo com as condições climáticas e a quantidade de neve, os restos mortais de Maurice Wilson eventualmente emergem de sua tumba gelada, para fazer-se presente ao mundo dos vivos.