Isso é fácil, não? Mais ou menos... Ok, o Monte Everest é a montanha mais alta do planeta. São 8.848 metros de uma grandeza que não é apenas física. Mas será que é isso mesmo?
A medição mais rigorosa foi realizada em 1999 pela National Geographic Society, e dirigida pelo geógrafo e cartógrafo Bradford Washburn. O trabalho levou quatro temporadas de escalada coletando dados – as expedições que faziam parte do estudo instalavam balizas de posicionamento na montanha e realizaram medições prévias.
Mas foi com a Millenium Expedition, da qual fez parte um dos montanhistas mais gente boa do circuito, Pete Athans ( um veterano do Everest, que ama a montanha, sua região, a cultura e a religiosidade dos sherpas e até fala nepalês) que a mais precisa medição da altitude desta montanha foi realizada. Com a ajuda de cinco sherpas, Athans e outros alpinistas levaram ao cume um complexo equipamento de GPS – e de lá, em 5 de maio de 1999, estabeleceram comunicação com quatro satélites que orbitavam sobre o pico durante 50 minutos.
Pete Athans, um dos mais respeitados montanhistas do Everest - inclusive pelos sherpas, pela proximidade que mantém com a cultura e a religião nepalesa
O equipamento de GPS continua instalado em vários pontos da montanha, como as "agulhas" no Colo Sul
Enquanto Athans transmitia os dados do topo, um outro GPS, instalado no Colo Sul, utilizou-se destes mesmos sinais para confirmar os dados.
Pelos cálculos desta medição, constatou-se que o Everest é dois metros mais alto do que se pensava até então: 8.850 metros de altitude.
Mas muitos contestam e outros não aceitam este número. O Governo do Nepal, por exemplo, ainda utiliza os dois metros a menos como a altitude oficial. Os que contestam a medição apontam para a capa de neve que se acumula nas montanhas himalaias, segundo o clima de cada temporada, que pode elevar ou diminuir em alguns metros até determinados pontos das montanhas.
O que é incrível é a precisão dos cálculos realizados de forma bastante rudimentar há mais de dois séculos. Sem a tecnologia de que dispomos hoje e, pior, sem nunca ter chegado próximo da montanha – muitas das medições foram realizadas da Índia, a centenas de quilômetros de distância!
Uma história sobre esse período é emocionante. O bengali Radhanath Shikhar era um mero auxiliar do Great Trogonometrical Survey, o Serviço Topográfico Britânico na Índia. Um belo dia, estava no escritório do Serviço quando cálculos realizados a partir das medições tomadas pelas estações topográficas instaladas pelo Norte da Índia começaram a saltar aos seus olhos. Ele refez os cálculos. E de novo. E mais uma vez. E em todas as vezes os resultados eram idênticos.
Radnanath Shikhar, auxiliar do Great Trogonometrical Survey, foi quem "descobriu a montanha mais alta do mundo". Ao lado, um dos aparelhos usados na medição das montanhas himalaias no século 19
Imediatamente correu ao seu chefe, Andrew Waugh, cartógrafo geral em Dehra Dun, Andrew Waugh: “Senhor, acabo de descobrir a montanha mais alta da Terra!”, disse Radhanath. Ele acabara de realizar a maior descoberta da geografia moderna. Isso em 1852. Os estudos dirigidos por Waugh já duravam dois anos – e o comunicado para seus superiores em Calcutá garantiam que “temos os dados finais da montanha designada Pico XV (como era designado o Everest nesta época). (...) podemos outorgá-la uma altura de 29.002 pés, ou um pouco mais de 8.839 metros. Provavelmente a montanha mais alta do mundo.”
Durante um século esta foi a altitude oficial do Pico XV, mais tarde batizada Everest em homenagem ao topógrafo geral da Índia George Everest. Por vezes, outras medições apontavam números próximos, como 8.882m ou 8.888m. Em 1856 o topógrafo Schlaigintweit fez outros cálculos de maneira trigonométrica e chegou a uma altitude de 8.871,50m. Entre 1881 e 1902, o Serviço Cartográfico da Índia elevou um pouco mais: 8.882,20m.
Em 1952 – um ano antes do desbravamento – a altitude oficial era de 8.840m, depois corrigida para 8.848,60m. Em 1975, medições chinesas pelo lado tibetano do Everest apontaram sua altura em 8.848,30.
Ardito Desio (no centro, de chapéu) fez medições com GPS quando o aparelho ainda era uma novidade, em 1987. Aqui, ele está presente na inauguração da pirâmide da Estação Italiana de Pesquisas, no Glaciar do Khumbu, já próximo ao Campo Base
Em 1987, o cientista italiano Ardito Desio (que liderou a expedição italiana que desbravou o K2, em 1954) fez medições com base no GPS, que estava sendo lançado na época. Os dados obtidos marcaram 8.872m. EM 1992, novas medições de Desio apontaram para 8.846m.
Até chegar a definitiva – pelo menos até agora – Millenium Expedition, que pode ter marcado a altitude mais precisa, mas gerou muita polêmica.
A parte mais curiosa de toda essa controvérsia sobre os dois metros a mais ou a menos do Everest – o que na verdade não interfere em sua posição no ranking dos gigantes com mais de 8 mil metros de altura, uma vez que o segundo lugar, o K2, tem 8.611m, bem abaixo do Everest – é que:
se medido do centro da Terra – o que foi realizado, em teoria, pelo cientista Lars Sjöberg, em 1977 – o Everest não é a montanha mais alta do mundo. Sjöeberg fez a descoberta cruzando a medida desde o centro da Terra com o cálculo da curvatura da superíficie do planeta... e chegou à conclusão de que do centro ao cume, o Everest tem 6.382.213 metros (seis milhões, trezentos e oitenta e dois mil e duzentos e treze metros!!!). Mas que o vulcão andino Chimborazo o supera: tem 6.384.422 metros do centro ao cume.
O vulcão Chimborazo, no Equadro, o ponto do planeta mais afastado do centro da Terra, o que lhe confere um título extra-oficial de montanha mais alta do planeta. Mas da superfície terrestre para cima, ele tem "apenas" 6.267m de altitude. Portanto, não é mais alto do que o Everest...
A razão para isso é que a Terra não é uma esfera perfeita e é mais “achatada” nos pólos. Portanto, por estar mais perto do Equador, o vulcão está mais “fundo” no centro da Terra do que o nosso Everest – e portanto é o ponto do planeta mais afastado de seu centro.
Mas isso é só uma viagem científica que em nada muda a majestade do Everest. Até porque, acima do solo, o Chimborazo tem, apenas 6.267 metros de altitude...
É isso. Após a nevasca, estamos de volta com algumas curiosidades sobre a história da montanha mais alta e mais majestosa do mundo.
Namastê.