Caros membros da expedição O Meu Everest
Continuando a série Mulheres nas Alturas, este capítulo é da austríaca Gerlinde Kaltenbrunner, uma das três montanhistas que rumam para completar o Circuito dos 14 OitoMil. Com um estilo diferente de Edurne Pasaban, a primeira perfilada da série, Gerlinde sempre busca a rota mais difícil - ou pelo menos a menos utilizada - para escalar. Para fechar o circuito, lhe faltam dois grandes desafios: o K2 e o Everest.
Ah, sim: esta série é dedicada a Gerusa Palhares, membro honorário da expedição O Meu Everest e montanhista de primeira.
Série Mulheres nas Alturas - Parte 2
GERLINDE KALTENBRUNNER
Seus Oito Mil:
1998 – Cho Oyu (8.201m)
2001 – Makalu (8.463m)
2002 – Manaslu (8.163m)
2003 – Nanga Parbat (8.126m)
2004 – Annapurna (8.091m)
2004 – Gasherbrum I (8.068m)
2005 – Shishapangma (8.027m)
2005 – Gasherbrum II (8.035m)
2006 – Kanchenjunga (8.586m)
2007 – Broad Peak (8.047m)
2008 – Dhaulagiri (8.167m)
2009 – Lhotse (8.516m)
Ainda lhe faltam o Everest e o K2.
Gerlinde Kaltenbrunner nasceu em uma pequena cidade da Áustria, Kirchdorf-an-der-Krems, em 13 de dezembro de 1970. É claro que sua carreira começou nos Alpes austríacos, ainda muito nova. Em 1994 tentou, pela primeira vez, um OitoMil (o Broad Peak), mas não chegou ao cume – o que conseguiria quatro anos depois, com o Cho Oyu.
Três anos de diferança estiveram entre este e o segundo OitoMil. Coincidentemente (ou não), quando outra montanhista, a espanhola Edurne, iniciava sua busca. A partir daí, ela não parou mais: pelo menos uma ascensão por ano – e em 2004 e 2005, duas (Annapurna e Gasherbrum I e Shishapangma e Gasherbrum II, respectivamente).
Gerlinde é low profile. Ela não se refere a si mesma como “a primeira mulher escaladora a fazer isso ou aquilo”. Para ela, não há diferença entre homens e mulheres nas montanhas. Escala sozinha, com outros homens ou com outras mulheres. Escalou todos os cumes sem oxigênio, e buscando sempre as rotas mais difíceis – ou pelo menos as menos utilizadas. E faz isso sem muito alarde: a publicidade em torno de seu nome é espontânea e ela lida de forma bem tranqüila com isso. Sua máxima é: “Se a montanha não quer você, você deve sair dela”.
Em 2005, Gerlinde conseguiu o respeito e a admiração da comunidade da montanha ao completar a travessia da Face Sul do Shisapangma em estilo alpino, uma escalada non stop de 12 horas, sem cordas, acampamentos, sherpas ou oxigênio artificial. Escalou com o marido Ralf Dujmovits (que este ano, com o cume do Lhotse, tornou-se o 16° montanhista a fechar o circuito dos OitoMil) e outro parceiro constante, o japonês Hirotaka Takeuchi – com quem também fez a Face Norte do Kangchenjunga.
Em 2005, Gerlinde, Ralf e Hirotaka seguiram para o Everest – que pretendiam escalar pela Face Norte – na difícil, perigosa e pouquísimo utilizada rota do Japanese Couloir/Hornbein Colouir, e mais uma vez em estilo alpino. Mas, aos 7.650 metros, na Aresta Norte, Hiro subitamente perdeu a capacidade de falar – típico sintoma do Mal da Montanha, que pode evoluir até a fatalidade. Gerlinde e Ralf o puseram em uma barraca, enquanto seu estado se deteriorava. A austríaca tentava aplicar as drogas de emergência para esses casos, mas o corpo de Hiro estava tão rígido pelo frio que ela não conseguia enconrar uma veia para aplicar a Dexamethasona. Pelo telefone via satélite, contactaram um médico na Áustria – enquanto Hiro apenas pedia: “Tire uma foto minha antes de morrer”, um pouco delirante. Pouco depois, Hiro aparentemente conseguia se mover. Sem cordas fixas ou sherpas, o casal tiveram que improvisar: amarraram Hiro a uma corda e o guiaram pela travessia até a rota normal do Colo Norte. Com o japonês recuperando as forças, conseguiram chegar ao Campo Base Avançado Norte, onde uma expedição comercial os abrigou. Gerlinde e Ralf olharam para o cume, sabendo que a escalada havia terminado. “Mas o que é um cume comparado à vida de um amigo?”, ela disse depois. E o Everest ficou para depois.
Nesta temporada de 2009, Gerlinde chegou ao cume do Lhotse, dividindo o Campo Base – e toda a rota até o Colo Sul – com as expedições que seguiam para o Everest. Com este cume, ela e Edurne estão com 12 OitoMil.
Com o parceiro Hirotaka Takeuchi, na caminhada de aproximação (local não identificado)
Com o marido e parceiro constante Ralf Dujmovits, em um de seus cumes (não identificado)
Escalando na difícil rota do Japanese Colouir, pela Face Norte do Everest: um cume adiado em prol da vida de Hiro.Um pouco antes da travessia com Hiro, um outro problema na escalada da Face Norte do Everest: o marido Ralf perde o crampom da bota direita, que o impossibilita de se mover. A superGerlinde entra em ação: desce até onde se encontra o marido, e depois até o último acampamento, trazendo de volta um crampon sobressalente
Na barraca em um dos campos altos do Shishapangma
E com Ralf fazendo o cume do Shishapangma: escalada em estilo alpino, um non stop de 12 horas sem oxigênio ou apoio
Acima e abaixo, na parede vertical do Annapurna
A ascensão do Gasherbrum I
O Gasherbrum II, pico do maciço de Gasherbum e 13ª mais alta montanha do planeta, situado na região do Karakoram paquistanês
Acima, no Campo Base do Kangchenjunga; abaixo, a escalada do terceiro gigante com mais de 8 mil metros de altitude
Amanhã, a italiana Nives Meroi, a terceira montanhista em busca dos 14 gigantes da Terra.
Namastê!