Morey responde - Parte 2

by Patricia Paladino 9. junho 2009 15:36

Foto Canadian Mt Everest 2008

   Caros membros,

Nesta segunda parte da entrevista de Carlos Morey, ele fala sobre a escalada propriamente dita. Mostra os aspectos técnicos, fala de sua condição física e psicológica e, claro, sobre o fatídico "tapinha do sherpa" que ocasionou a perda da lente de contato e a conseqüente desistência do cume.

Gerusa Palhares: Depois da Cascata de Gelo, que é o terror do Everest, que trecho você diria que foi mais tenso ou perigoso?

CM: Eu diria que, tirando o trecho entre o Campo 1 e o Campo 2, tudo é tenso e perigoso. A parede do Lhotse é bem inclinada e com muito gelo. Uma queda é fatal. No ataque ao cume, até o Balcony o trecho é inclinado e misto com rochas. Acima do Balcony fica pior, porque o caminho é numa estreita com quedas acentuadas dos dois lados. Subir o Aconcágua não dá base para subir o Everest. O Denali daria.

Patricia Paladino: Como disse a Gerusa, a Cascata de Gelo é o terror de quem tem de atravessá-la durante as escaladas de aclimatação. Como foi a sua reação a ela na primeira travessia? Você fez algum treinamento anterior (sei de muitos montanhistas que, em casa mesmo, colocam os crampons e atravessam uma escada de alumínio entre dois pontos, para treinar...)

CM: O maior problema que eu entendo da Cascata de Gelo é o fato que você a repete várias vezes. Dez, no nosso caso. Só tivemos um treinamento um dia antes de ir para lá. Numa região próxima ao Campo Base, a Jagged Globe montou uma academia para nós praticarmos. E a primeira vez que fomos para a Cascata de Gelo fomos para praticar esse conhecimento. Fomos todos juntos, com todos os guias e chegamos até a metade dele, antes do Football Field.

Patricia Paladino: Você disse que este ano as gretas estavam mais estreitas, e que não foi necessário emendar escadas para atravessá-las. Isso não é muito comum, não é mesmo? Toda a rota da Cascata com fendas próximas umas das outras...

CM: Este ano teve 30 escadas, sendo 20 horizontais e 10 verticais. Dessas, só tinha uma escada tripla e três escadas duplas. As demais eram simples. Isso era uma facilidade, pois escadas com 3 ou (emendadas) 4 devem ser muito complicadas para cruzar.

Patricia Paladino: Após as avalanches, houve uma mudança do percurso na Cascata, obviamente. Isso trouxe uma apreensão a mais? E com a possibilidade de outra avalanche, já que este ano ela parecia estar mais instável?

CM: O percurso na Cascata de Gelo mudava constantemente. Mas depois da avalanche houve uma mudança grande antes de entrar no Football Field. Essa mudança tornou o caminho mais perigoso. Mas a única mudança que tivemos em relação a isso foi que acordamos mais cedo pra enfrentar a cascata. Minimizar as chances de avalanches.

Foto Alan Arnette 

Patricia Paladino: Você considerou o Everest, como dizem, uma montanha tecnicamente fácil de escalar?

CM: Não. Não é das mais difíceis, mas é tão fácil.

Gerusa Palhares: De todas as montanhas ao redor do Everest qual a que te chamou mais a atenção?

CM: O Nuptse, pela complexidade de ascensão e pelas suas cristas. Fiquei imaginando se seria possível escalar as três ao mesmo tempo, Everest, Lhotse e Nuptse. Ninguém nunca fez isso. E uma outra, a Gyachung Kang. Poucas pessoas já subiram essa montanha. É a 15ª mais alta montanha do mundo. A primeira que não tem os 8mil, mas 7.952 metros.

As três irmãs: o Everest (esquerda), o Lhotse (ao fundo) e o Nuptse (à direita). Esta última foi considerada por Morey uma das mais fascinantes montanhas da região. Ela perde um pouco de seu impacto por estar localizada ao lado de dois OitoMil, tendo "apenas" 7.855 metros. Suas cristas espinhadas elevam-se acompanhando toda a rota dos acampamentos superiores, até a parede do Lhotse 

Patricia Paladino: Como você avalia sua performance acima dos 6 mil metros? Em alguns posts vc se dizia “na rabeira” da fila, muito lento, mas a impressão que eu sempre tive é que você era um dos mais fortes (física e psicologicamente) e mais bem aclimatados. Tanto que foi o primeiro grupo a completar a aclimatacão...

CM: Eu devo ter um metabolismo bom para a altitude. Me aclimato bem e rápido. Não tive nenhuma dor de cabeça esse tempo todo. Eu preferia sempre ficar em último. Tem as suas vantagens: o caminho já está mais assentado, não se precisa tanta velocidade e você conhecendo antecipadamente o caminho. Realmente estava bem, física e psicologicamente para o desafio.

Patricia Paladino: Um dos grandes desafios é a parede do Lhotse, pelo seu grau de inclinação. O esforço ali já é uma coisa fora do comum?

CM: É... com certeza. Pior indo no caminho para o Campo 4. Chegamos exaustos. Cruzar o Yellow Band e o Geneve Spur ninguém merece. Até mesmo para descer é cansativo. E se você deixa para mais tarde, o sol não perdoa. Tanto por cima como por baixo (reflexo).

Foto Carlos Morey

O emaranhado de cordas de segurança na parede do Lhotse, entre os campos 3 e 4. Acima, o Geneva Spur

Patricia Paladino: E o ar rarefeito? Tente descrever, se possível, o que é respirar (ou tentar) no Campo 4... E durante o esforço da subida do 3 pro 4 e dali pro cume.

CM: A partir do Campo 3 em diante já usamos constantemente a máscara. Fiquei uns 15 a 20 minutos sem a máscara uma vez. Tudo o que você faz cansa rapidamente. E, depois, comecei a ficar tonto. Coloquei novamente a máscara. Não é uma sensação agradável.

Gerusa Palhares: Tudo que falam do campo 4 e seu lixo é verdade? Pior? 

CM: É o campo mais sujo, mas não achei tanto. Existiam alguns restos das latas de combustível e mais algumas coisas miúdas. O tapete que forma de pedras e neve cobre muito do lixo. Garrafas de O2 existiam, até mais no caminho entre o Campo 3 e o 4. E ninguém sabe quem é o dono e se pode tirar ou não. O pior foram as cordas de outras temporadas. Além de ser lixo, elas também podem ser um grande risco, pois já estão gastas e as ancoragens podem estar comprometidas.

Foto Carlos Morey 

Embora Morey tenha achado que há menos lixo do que ele esperava no Campo 4, a foto mostra que o acampamento está cheio de lixo. E, como disse Morey, um lixo formado por objetos pequenos, que poderiam ser levados para baixo pelos sherpas das expedições, mais fortes do que os alpinistas que tentam o cume. Não sei, mas na minha opinião, o Campo 4 continua sendo um lixão a céu aberto...

Patricia Paladino: O engarrafamento é lendário... Mas sempre que acompanhei expedições, a data de partida do Campo 4 variava entre 22h e meia-noite. Foi uma surpresa pra mim a Jagged Globe sair tão cedo – e depois eu vi que todas saíram, com exceção da First Ascent. Esse horário de partida mudou? Desde quando?

CM: Não sei quando mudou, mas ano passado eles deram como exemplo, para sair às 21h. E isso porque tinham pessoas lentas no time. Mas quando saímos às 21h, já tinham pessoas começado às 20h. Passamos umas 30 a 40 pessoas até chegar no Balcony.

Patricia Paladino: Compreendo que seja uma vantagem sair mais cedo, por conta do horário do cume e da segurança na descida, mas muitas expedições chegaram ao cume por volta das 5h da manhã – imagino que ainda escuro. Vale a pena chegar ao Topo do Mundo e não conseguir ver nada?

CM: Não vale. Pelo menos te dá mais segurança que até meio-dia você chega. E aí tem mais condições, mesmo lentamente, de ir e voltar.

Patricia Paladino: A saída à noite pro cume faz com que uma bela parte da escalada seja noturna. Como é escalar no escuro? Eu li uma frase da Araceli Segarra que acho o máximo: “Só a luz da lanterna de cabeça dando um metro de luz e apenas o barulho de nossa respiração sob a máscara. A impressão é de estar escalando na Lua!”. É isso mesmo?

CM: Sim. Você não tem muito com o que se distrair. Está tudo escuro. Você controla os seus movimentos e as seguranças, mas, de certa forma se interioriza: ouve a sua respiração, monitora os pés e as mãos para que não se congelem e vai dosando as forças. Ao longe consegue ver os contornos do Lhotse e do Makalu. É muito lindo.

Gerusa Palhares: Pelos seus relatos, notava-se que você estava bem lúcido e sabendo o que estava fazendo a casa segundo. Lemos muitas coisas sobre hipoxia e falta total de controle de pensamentos e ações. Você sentiu algo? Viu alguém com estes sintomas?

CM: Realmente estava bem lúcido e ciente do que estava se passando. Não vi ninguém com hipoxia, mas fiquei sabendo de alguns casos de frostbite. Um inclusive no time da Adventure Consultants.

Spincc: Houve uma avaliação anterior, na fase de planejamento, se o uso de lentes de contato poderia representar um risco para a missão?

CM: Sim. Por isso que tinha levado mais 9 lentes e o óculos. O erro foi não tê-los na mão no dia do ataque. O que eu tinha no Campo 4 já tinha colocado na hora da janta. Poderia ter levado o estojo com as antigas. E os óculos: na correria para sair do acampamento me fez não levá-lo. Mas nunca tinha tido esse tipo de problema na minha vida e nem em nenhuma montanha antes.

Spincc: Não seria mais recomendável escalar o Everest de óculos?

CM: Não. Os óculos seriam um problema, pois ele ficaria com os googles (óculos de ski) ou com os óculos de sol (categoria 3 ou 4). O que o pessoal faz (raramente) são óculos especiais/googles com grau. Muito caro.

Spincc: Lentes podem ser utilizadas naquelas condições de alta montanha?

CM: Sim, sem problemas. Só atenção com as condições de higiene e com o ambiente seco que pode precisar de líquidos para hidratar, mas nunca tinha problema antes.

  

A rota que parte do Campo 4 em direção ao cume. A Plataforma Balcony (na foto à direita) fica no início da Crista Sudeste (quando a rota começa a percorrer a parte alta da pirâmide) e foi o local do incidente com a lente de contato 

Marcelo Zeuli: Mais do que o incidente com a lente, o que me preocupou foi a falha com o seu equipamento de oxigênio. Estas falhas são comuns? Se os cilindros de oxigênio são colocados previamente no caminho (Balcony e Cone Sul), não haveria a possibilidade de se colocar previamente máscaras "de back-up"?

CM: As máscaras são meio caras. Elas custam US$ 250. Mas antes vou comentar uma coisa: os cilindros não são colocados antes. O sherpa saiu com dois cilindros para ele (um usando) e dois para mim. E eu usando um. No Balcony, deixei o meu e peguei um dos cilindros do sherpa. O que deixei usaria na descida a partir do Balcony. No Cume Sul, repetiria o processo. Aí o sherpa fica mais leve.

Mas voltando à máscara: existem dois modelos que eu vi, a Poisk e a Top Out. Acreditava que a Top Out fosse melhor, mas me decepcionei. Ela apresentava problemas a cada hora. Teríamos que ter várias máscaras de backup. E isso iria dar o trabalho de conectar no regulador. A melhor solução seria estudar uma melhor máscara.

Patricia Paladino: Na verdade, também fiquei pensando muito sobre o problema com o oxigênio. Você tinha ciência dos problemas que as expedições vêm tendo, ao longo dos anos, com a adulteração do oxigênio dentro das garrafas? E dos equipamentos, não tão confiáveis, que algumas oferecem aos escaladores? Acha que pode ter havido algo similar com você?

CM: Não creio. O problema foi generalizado com outras pessoas da expedição. Eu prefiro apostar que se procure uma solução melhor de máscara. Apostava que a Top Out fosse melhor, mas me decepcionei.

Patricia Paladino: Você conhece Henry Todd, que se autointitula “fornecedor exclusivo da Poisk”? Sabe se ele ainda continua fornecendo oxigênio para as expedições?

CM: Continua. Acho que é o único fornecedor mesmo. Pelo menos foi o que me contaram. O vi passando pelo Campo Base. Inclusive deixou um notebook na nossa Comm Tent. Acho que para conectar a Internet.

Gerusa Palhares: O que te passou na cabeça após o "tapinha" do sherpa? Ou depois, sobre o tal "tapinha"?

CM: Não o culpo. Ele estava tentando me ajudar. O local também não ajudava. E mais: ele salvou a minha vida me ajudando a descer até o Campo 4.

Patricia Paladino: Você disse no dispatch que considerava essa atitude (o tapinha...) normal, dentro das circunstâncias. Mas o que levou o sherpa a isso? Qual era exatamente o problema e não daria para tirar a máscara por um momento e tentar outra manobra?

CM: Acho a atitude normal, pois várias pessoas já estavam saindo do Balcony e iriam nos passar, separando-nos dos demais da Jagged Globe. Se tivéssemos mais tempo, poderíamos tirar a máscara e tentar outros meios, mas vale lembrar que a máscara apresentou problemas para todos e várias vezes durante a subida. O Nick, por exemplo, tinha problemas de hora em hora. O Doug arrancou o protetor da saída de CO2. A equipe Orange teve mais sorte, pois passamos as nossas experiências para eles. 

Patricia Paladino: Você disse ter passado pelo corpo de Scott Fischer na subida pro cume. E a rota passa exatamente por ele ou um pouco distante? E deve haver outros corpos durante toda a rota, desde o Vale do Silêncio. Que tipo de impacto vê-los lhe causou?

CM: Na verdade eu não o vi. O Willie me disse no dia seguinte que existiam os corpos e onde eles estavam. Quando passei por lá, era de noite e eu estava mais preocupado com a minha escalada. E sobre outros corpos, não vi e não ouvi falar disso. O Willie só me disse desses corpos ali e o do Rob Hall. Acho difícil que se tenha. Abaixo do Campo 3 é fácil resgatar e trazer para baixo. Só acima do Campo 4 que as coisas pegam.

Eduardo Justo: Minha pergunta é muito simples. Aliás, é uma curiosidade: quando um alpinista chega ao topo de uma montanha superconcorrida como o Everest, quanto tempo ele pode ficar ali em cima? Porque se é verdade que as vezes sobem 100 pessoas de uma vez só, eu imagino que quando você chega ali em cima,  fica cinco minutos e tem de descer logo, porque deve ter uma fila enorme de gente esperando pra subir. É isso mesmo? Se for isso, deve ser muito frustrante, porque você não pode nem parar para curtir a chegada ao cume.

CM: Esse tempo é relativo. Por exemplo, o Thomaz e o Chris, do time Orange, chegaram às 4h30 e as condições climáticas eram boas. Eles ficaram até às 6h. Em compensação, o David Hahn e a Melissa Arnot (guia da First Ascent) pegaram, em outro dia, um terrível witheout (tempestade de vento e neve) e só puderam ficar dois minutos. Tudo depende do tempo e de suas condições.

Gerusa Palhares: E agora, meu amigo, você me deve uma montanha. Quanto tempo pretende ficar longe delas? 

CM: Espero já voltar no final do mês ou em julho. Não quero perder o preparo que adquiri lá. Serra Fina é a minha “praia” preferida.

Patricia Paladino: Você irá tentar o cume novamente no ano que vem? Ou em algum outro momento? Ou abandonou o Projeto Sete Cumes?

CM: Devo tentar novamente. A minha personalidade não me permite deixar algo incompleto ou mal feito.

Gerusa Palhares: Você pretende tentar o Everest novamente?

CM: Sim, mas não em breve. Daqui uns 5 ou 10 anos.

 

É isso, pessoal. Acho que Morey tirou todas as nossas dúvidas.

Namastê! 

3.7 ponto(s). Avaliado por 6 pessoas

  • Currently 3,666667/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Comentários

Comentar


(Vai mostrar seu Gravatar)  

  Country flag

biuquote
  • Comentário
  • Pré-visualização
Loading



Site desenvolvido por ELIAS LUIZ   -    Servidor Dedicado BABOO   -   BlogEngine.NET 1.4.5.0

Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

    RecentComments

    Comment RSS