Não podia deixar de publicar este post hoje.
Há algum tempo, gravei o filme Más alla de la cumbre, sobre a trágica ascensão do montanhista venezuelano José Antonio Delgado ao Nanga Parbat. Eu já conhecia a história e sabia que havia sido feito um belo documentário sobre a escalada. Qual não foi minha surpresa quando a HBO passou o filme, sem legendas. Gravei na hora. Mas não tive tempo de vê-lo – até ontem à tarde, quando arrumei um tempinho pra tirar um espacinho de folga. Comecei como sempre: esperando um documentário sobre uma tragédia em uma alta montanha.
Mas foi uma linda surpresa. Ninguém que ama montanhas deve deixar de ver. Um dos mais sensíveis documentários sobre escalada que eu já vi – e olha que eu já vi muitos. Estamos tão acostumados àquele formato comum de filmes de alpinismo: preparação da expedição, chegada ao Nepal, Tibet ou Paquistão, o caminho pela trilha, a chagada ao Campo Base, os perrengues, algumas perdas (raramente o personagem principal do documentário...), e finalmente o sucesso do cume. O roteiro quase não muda.
Meu irmão – que não é nem um pouco aficcionado por montanhismo – sempre diz que parece estar vendo o mesmo documentário. E ele não deixa de ter um pouco de razão... São poucos os que fogem da mesmice em relação ao roteiro, fotografia, direção de arte e condução da narrativa. Lembro que o filme de David Breashears para a IMAX é uma exceção, tem um pouco desse espírito. Mas não como Más alla de la cumbre.
Vou resumir um pouquinho da história de José Antonio Delgado, para quem por acaso não o conheça. Ele era um dos mais bem-sucedidos – senão o mais – escalador venezuelano de altas montanhas. Tinha 15 anos de experiência e já havia chegado ao cume de quatro dos gigantes OitoMil: o Cho Oyu (8.153m), em 1994; o Shishapangma Central (8.008m), em 1998; o Gasherbrum II (8.035m), em 2000; o Everest (8.848m), em 2001; e, em 12 de julho de 2006, chegou ao cume do Nanga Parbat (8.126m). À exceção do Everest, foi o primeiro venezuelano a fazer o cume dos outros picos e o único a ter cinco OitoMil. Era casado com Frida Ayala e tinha dois filhos, Sofía e Tomás.
O alpinista venezuelano José Antonio Delgado
Ele escalava o Nanga Parbat pela Cara Diamir (rota Kinshofer) com seu companheiro Edgar Guariguata, de 23 anos. Os dois permaneceram por vários dias entre os campos 2 e 3, à espera da janela de bom tempo. Mas Guariguata, acometido por fortes problemas estomacais, desistiu do cume e voltou ao Campo Base, para dar suporte à escalada de Delgado, que continuou subindo.
José Antonio Delgado chegou ao cume do Nanga Parbat em 12 de julho. Entretanto, uma repentina tempestade o forçou a um bivaque (pernoite sem barraca) entre o cume e o Campo 4. No dia seguinte, conseguiu chegar ao Campo 4, e relatou a situação ao Campo Base pelo rádio, que o acompanhava através do telescópio. Mostrava-se muito preocupado com o clima terrível e seu estado, após uma noite exposto próximo aos oito mil metros. Guariguata, então, começou a preparar a logística para trazer Delgado para baixo.
As condições climáticas não permitiam a chegada de uma equipe de resgate à montanha por helicóptero e – como sabemos – do Campo Base, Guariguata levaria muito tempo para chegar até ele. E não conseguiria fazer isso sozinho. No dia 16 de julho, Delgado avisou ao Base que estava há dois dias sem comida e sem água, já com alguns congelamentos, e que iria tentar descer até o Campo 3. Foi a última vez que ele entrou em contato por rádio.
Finalmente, em 17 de julho, um helicóptero trazendo seis montanhistas de elite da Pakistan Adventour Tours consegue pousar no Campo Base do Nanga Parbat. Neste meio tempo, Frida, a mulher de Delgado, já estava em Islamabad, coordenando toda a logística. O time de resgate imediatamente começou a subida ao Campo 3, na esperança de que, se tivesse conseguido chegar até ele, Delgado estaria alimentado e hidratado, e poderia ter sobrevivido.
Em 18 de julho o resgate chega ao Campo 2, mas é impedido de ir além por conta do clima – o que só consegue fazer no dia seguinte. Em 20 de julho, o tempo melhora e o helicóptero sobrevoa o Campo 3, localizando a barraca de Delgado.
Mas, mais uma vez por conta do clima, o resgate só consegue encontrar José Antonio Delgado no dia 22 de julho de 2006. Após 10 dias sob frio intenso, tempestade inclemente, com diversos congelamentos e sem comida ou água, ele não resistiu. Seu corpo foi encontrado entre os campos 4 e 3, a cerca de 400 metros da barraca e a 7.100m de altitude.
Uma linda montanha: este é o Nanga Parbat, um dos 14 gigantes da Cordilheira do Himalaia, com 8.126m. Localizada no Paquistão, é a nona montanha mais alta do mundo
Esta é a história de José Antonio Delgado. Mas não é essa a história de Más alla de la cumbre. O filme não mostra a operação de resgate. Durante todo o documentário, sua narrativa é centrada no que Delgado diz, pensa e sente sobre montanhas e montanhismo. E vamos aprendendo a admirar sua sensível (e sensata) visão. Mostra, claro, algumas de suas ascensões – e é focado na expedição ao Nanga Parbat. Mas o que torna o filme imperdível é a forma como isso é contado. A tragédia é mostrada através de uma transmissão (tocante) de Delgado após o bivaque e no desespero de seu companheiro no Campo Base a partir daquele momento. Uma visão humana, simplesmente. Sem heroísmo.
A direção é impecável; o roteiro, como já disse, foge totalmente dos clichês dos filmes de montanha. A fotografia é deslumbrante e a música, pontua de forma exata toda a emoção da narrativa (o tema final, Un lugar tranquilo, de Alberto Arvelo, é emocionante).
Eu gravei o filme sem legendas e o sotaque da Venezuela é um pouquinho mais complicado de entender do que o argentino e o espanhol, aos quais estamos mais acostumados. Mas não importa. Se perdi uma ou duas frases, apreendi o sentido do sentimento que Delgado tinha em relação às montanhas, ao montanhismo, à família, à vida e à morte. O depoimento de sua mulher, Frida, é comovente. A compreensão que ela tinha da paixão do marido é incrível.
Ao final, quando o companheiro de escalada Edgar Guariguata vê-se impotente no Campo Base, tendo certeza que seu amigo morria lá em cima – e sem nada a fazer a não ser esperar pelo resgate ou que Delgado conseguisse descer sozinho –, ele mesmo grava alguns depoimentos registrando a angústia. E nos leva junto. Seu choro – primeiro contido, depois de raiva pela impotência – é um dos momentos mais emocionantes que eu já vi em filmes deste tipo.
O mais tocante no filme: ele começa e é pontuado, em todo o tempo, por desenhos de uma história infantil. A história de um elefante que sonha com uma montanha alta e decide escalá-la. O elefante forma uma equipe (um camelo, um canguru e um iaque) e todos partem em busca de sua montanha. A história é contada por duas crianças ao longo de todo o filme, complementando de forma lúdica os depoimentos de Delgado e suas escaladas.
Ao final entendemos que o conto é La gran montaña, escrito por José Antonio Delgado, com ilustrações de Carmem Salvador. E narrado por Sofía e Tomás, filhos de Delgado.
É tão lindo, tão sincero, tão sutil, tão sensível como nenhum outro que eu já tenha visto.
Não percam. Fiz uma pesquisa no site da HBO e ele será reapresentado – com o título em português, Além do topo – pelo canal Cinemax nos dias 2 de julho, 9 de julho e 31 de julho. E deve ser com legendas.
Encerro este post com o texto de Delgado ao final do filme:
“… y quién dice que no están destinadas para la vida humana [las montañas]?... Si alguien fue y volvió no se puede decir que no están destinadas para la vida... Soy afortunado, tal vez demasiado. Las cumbres me han conquistado.”
Caracas, 1965 – Nanga Parbat, 2006
Namastê.