Respirando ar puro!

by Patricia Paladino 3. junho 2009 07:37

  

Depois de nosso ótimo debate sobre a ética na montanha, precisamos respirar bons ares! Porque esse ar do anti-ético é, definitivamente, rarefeito demais pra gente!!

Então publico a segunda parte de uma série que bolei para o blog: os Heróis do Everest. Chamo de heróis porque são pessoas que, de um jeito ou de outro, fazem ou fizeram a diferença na montanha – seja por suas habilidades técnicas, seja por suas qualidades humanas.

Com o gancho de nosso debate, vou falar de uma dupla que leva a ética e a compaixão acima de qualquer cume: os Benegas Brothers. Um deles nós conhecemos durante a escalada do Morey: é Willie Benegas, que foi guia da Jagged Globe este ano.

Heróis do Everest – Parte 2: Benegas Brothers

Quem é quem? Eles são idênticos! Tanto no rosto como no caráter...

Guillermo (Willie) e Damian Benegas são gêmeos de 41 anos, com mais de 20 anos de experiência em montanhismo. Juntos, eles têm a empresa Patagonian Brothers – por terem nascido no “coração selvagem” da Patagônia.

Filhos de uma família abastada, eles tinham uma vida boa em Buenos Aires durante a infância. Entretanto, por problemas políticos, seu pai teve tudo o que tinha confiscado pelo governo. E a família voltou à Patagônia, onde passou a dividir (pai, mãe e os gêmeos) um pequeno trailer. Na dificuldade, o contato com a natureza despertou nos meninos o amor pela aventura. E eles começaram a escalar. Sempre juntos.

Aos 21 anos, se mudam para os Estados Unidos e passam a escalar as enormes paredes de Yosemite – chegaram a fazer mais de 40 cumes no El Capitan. Embora continuassem a escalar juntos, cada um seguiu para seus próprios cumes, na América do Sul, América do Norte, Alpes, África e, claro, Himalaia. Passaram a trabalhar como guias para grandes expedições e abriram sua Patagonian Brothers Expeditions (Willie tem oito cumes do Everest nas costas e mais de 50 ascensões ao Aconcágua).

A habilidade desta dupla é lendária. Mas outra faceta dos gêmeos está à frente de qualquer recorde: a capacidade que os dois têm de colocar uma vida humana – qualquer que seja, mesmo desconhecida – acima de qualquer objetivo pessoal.

Portanto, vou contar três histórias sobre esses dois.

Damian (esquerda) e Willie com dois clientes da Patagonian Brothers Expeditions

Uma delas a gente ouviu de quem presenciou: em um de seus posts, Carlos Morey mostrou-se muito bem impressionado com a atitude de Willie Benegas quando do episódio do sherpa envenenado por uísque com metanol. Morey disse: 

“O que surpreendeu de verdade foi o comportamento do nosso guia argentino, Willie Benegas. Desde a notícia do envenamento pelo whisky dos sherpas, ele não sai da tenda do hospital. Passou a noite ao lado do sherpa. A sua preocupação com o local (segurança, poluição etc) e com os sherpas é impressionante. Ele vê um sherpa sem crampom ou sem cadeirinha num lugar perigoso, e logo chama a atenção. E depois chama o chefe dele para conversar. Parabéns... Não é à tôa que tem sete cumes do Everest...” Nota: quando Morey escreveu isso, Willie ainda não tinha atingido o cume pela oitava vez... 

Esta é a “vida normal” de Willie Benegas na montanha. Por sua grande experiência no Everest, e pela preocupação constante com expedições ou montanhistas mal preparados, ele sempre está de olho no que está acontecendo. E sempre auxilia quem ele vê que precisa. Foi assim em 2004, quando reconheceu o guia argentino Gustavo Lisi, que levava, de forma negligente, seu cliente Nills Antezana montanha acima. Por várias vezes ele chamou o guia em um canto, e colocou-se à disposição para qualquer eventualidade – que a vaidade de Lisi fez questão de ignorar.

Willie Benegas

                

À direita, Willie Benegas comemora seu quarto cume no Everest

                 

Willie no Campo Base e com seu amiguinho Tony 

Pois bem: a segunda história é sobre esta mesma temporada, e sobre estes mesmos personagens – só que com o outro Benegas, Damian. Essa história é contada em High crimes. Em 2004, este guia argentino, Gustavo Lisi, guiava o médico boliviano Nills Antezana ao cume. Na descida, os dois sherpas e o guia abandonaram Nills na Plataforma Balcony e desceram ao Campo 4. O corpo de Antezana nunca foi encontrado.

Na agonia de saber notícias de seu pai, Fabiola Antezana enviou e-mails desesperados a todas as expedições presentes no Everest naquele ano. E também para os sites EverestNews e para o MountEverest.net, que faz parte do portal ExploresWeb. Através deste último, um escalador em Salt Lake City, Estados Unidos, soube do caso. E ligou para Fabiola Antezana. Era Damian Benegas.

Ele se apresentou e disse que seu irmão estava no Everest. Que ia saber o que afinal estava acontecendo. Após falar com Willie, e saber que o guia era o famigerado Gustavo Lisi, Damian (que não havia seguido para o Everest porque estava preparando a próxima expedição dele e de Willie ao Paquistão), ligou novamente para Fabiola.

O diálogo foi mais ou menos assim:

- Seu pai realmente não desceu com o guia. Alguma coisa muito grave aconteceu – disse Damian.

- Eu vou para Kathmandu. O que eu devo fazer, a quem devo procurar? – perguntou Fabiola.

- Você deve me esperar no aeroporto em Kathmandu. Eu vou com você – respondeu Damian.

Estes são os Benegas. Damian deixou de lado a organização da expedição, catou uns dólares, colocou duas cuecas e uma meia numa mochila e cruzou meio mundo para ajudar uma pessoa que nunca havia visto na vida.

Chegando a Kathmandu, ficou o tempo todo junto a Fabiola e seu marido, entrevistando quem voltava do Everest, investigando o que havia acontecido, e até mesmo (por conhecer a fama do tal guia e por sua própria experiência em altas montanhas) desmentindo os argumentos fajutos de Lisi ao encontrar a família na capital nepalesa. Ao descer da montanha, Willie juntou-se ao grupo na investigação.

Damian Benegas

    

Damian "pilota" um dos helicópteros da expedição, para o aparente desespero do passageiro do meio...

      

Damian subindo a Face do Lhotse, no Everest, e liderando uma escalada em rocha

A terceira história:

Em 2003, quando se comemorou os 50 anos da primeira ascensão ao Everest de Hillary e Tenzing, a montanha estava uma balbúrdia. E os Benegas Brothers estavam lá. Mas para escalar o Nuptse, o primo-pobre do Everest.

O Nuptse (7.855 metros) é uma linda e difícil montanha, mas, por estar ao lado de dois gigantes de 8.000 metros (o Lhotse e o Everest), passa despercebida. Willie e Damian dividiram o Campo Base com as expedições ao Everest, mas tomaram seu rumo ao cume do Nuptse enquanto os outros buscavam os holofotes do Jubileu na montanha mais alta do mundo.

Por sua difícil escalada ao Nuptse – eles abriram a rota conhecida como Crystal Snake, tecnicamente muito difícil –, os irmãos Benegas receberam o Climbing Accomplishments of The Year, o Golden Piton Award e o título de The Most Significant Climbs de 2003 do Alpine Journal. Enquanto isso, mais de mil alpinistas brigavam por um pedacinho do Everest.

Neste ano, os helicópteros iam e vinham trazer e buscar alpinistas no Campo Base – afinal, as maiores expedições e seus ilustres clientes não estariam de fora neste ano de comemoração. Um desses helicópteros bateu em algumas pedras e despedaçou-se muito próximo ao Campo Base. Dois nepaleses morreram na hora e outros passageiros ficaram seriamente feridos. Os irmãos Benegas foram os primeiros a correr em direção ao helicóptero – ignorando o perigo que eles mesmos corriam. Retiraram os feridos de dentro do helicóptero, e os colocaram em um outro, em direção a Kathmandu.

Ao retornar à sua barraca, Willie não pensou duas vezes: pegou sua mochila e seu passaporte e saiu daquele cenário o mais depressa que pôde – era demais para ele aquela confusão que custava cada vez mais vidas. Damian só permaneceu porque sua namorada ainda estava na montanha. Mas calou-se, e ficou dentro de sua barraca esperando o retorno da namorada.

Dá para ter um pouco de esperança com essas histórias, não?

Namastê!

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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