Caros membros,
Fechando a resenha sobre o livro High crimes, de Michael Kodas, hoje queria colocar uma questão que vem sendo debatida mil vezes neste esporte, principalmente em relação às grandes montanhas: a ética no alpinismo.
Alguém já disse que "você é no Everest o que você é fora do Everest" - não me lembro quem disse a frase, mas acho perfeita. É claro que é o que todos pretendem: levar para a montanha o caráter, a personalidade, a bondade e a compaixão que se tem ao nível do mar. Só que alguns não conseguem - pelos mais variados motivos. E então temos o primeiro impulso de colocar todos no mesmo saco. Julgar este ou aquele ato, esta ou aquela pessoa como herói ou vilão de uma história. Como se fossem, todos - mortos e quem sobrevive -, simplesmente isso: personagens dos livros de aventuras no Everest que lemos.
Digo isso pelo seguinte: o livro de Kodas aborda três fatos, um ocorrido na temporada de 2004 e outros dois, na temporada de 2006 no Everest. Muitos já devem saber do que se trata: o primeiro é a morte do alpinista americano Michael Matthews, de 22 anos - que morreu, aparentemente, por falha de seu equipamento de oxigênio na descida do cume pelo lado Sul nepalês. O segundo caso é o de David Sharp, em 2006. Subindo sozinho (ele apenas estava ligado a uma expedição internacional para conseguir a permissão), sem sherpas ou companheiros de escalada, e pretendendo fazer o cume sem oxigenio artificial, David sucumbiu a 250 metros acima do Campo 4 (pelo lado Norte) e a 450 metros do cume.
O terceiro caso é o resgate de Lincoln Hall, alguns dias após a morte de Sharp. Ele ficou para trás de sua expedição, os dois sherpas que o acompanhavam desceram (imaginando que Hall já estivesse morto). Mas ele atravessou a noite sentado abaixo do Segundo Escalão - já bem próximo ao topo - até ser encontrado pela expedição de Dan Mazur, no dia seguinte.
Michael Matthews (esquerda na foto) David Sharp Lincoln Hall
São fatos que mostram um pouco como o conceito de "ética" é um pouco diferente do que costumamos ter aqui embaixo. Os três casos tiveram uma repercussão enorme na mídia quando aconteceram. E perspectivas bem diferentes.
No caso de Michael Matthews, o livro mostra, com bastante clareza, que o problema de travamento do equipamento de oxigênio se deveu, basicamente, a uma fraude absurda provocada pelo fornecedor Henry Todd - alguns o chamam de "The Toodfather" do Everest, numa alusão ao Poderoso Chefão. Pois ele era fornecedor exclusivo de cilindros de oxigênio para todas as expedições ao Everest. Tinha o monopólio do fornecimento há muitos anos. Todos os seus cilindros, segundo ele, eram da marca russa Poisk, considerada a melhor do mercado (e que não tinha conhecimento dessa "exclusividade"). O que não se sabia - até então - é que, na verdade, ele apenas utilizava as garrafas Poisk. O conteúdo - o oxigênio que irá salvar ou tirar a vida dos alpinistas lá em cima - era um "refil", de oxigênio processado (de forma inadequada) na Índia.
Não há como me alongar neste assunto senão o post fica gigantesco. Mas quem quiser saber mais, é só procurar no Google pelo nome. A história dele não é escondida de ninguém (inclusive seu envolvimento com tráfico de drogas na Europa e seus anos na prisão). O site www.mounteverest.net foi implacável para desmascarar quem eles chamam de "a pessoa mais perigosa das altas montanhas". O que é significativo aqui é: o caso de Michael Matthews foi assassinato - e premeditado... Tanto que Todd, mesmo nunca tendo subido muito alto no Everest, fez questão de "tentar o resgate" de Matthews - ou apagar qualquer prova de sua culpa.
O segundo caso, o de David Sharp, tornou-se um debate acirrado nos Estados Unidos: sozinho, sem acompanhante algum, ele caiu próximo ao que se costumava chamar de "a caverna do Botas Verdes" - uma referência ao cadáver de um alpinista indiano que morreu no mesmo lugar e que, calçando um par de botas verdes, tornou-se uma espécie de "marco" no caminho para o cume durante anos. O Green Boots. Uma referência, apenas.
Pois dezenas de alpinistas passaram por Sharp em seu caminho para o topo - calcula-se 40. Todos, de uma forma ou de outra, por um motivo ou outro, o ignoraram e seguiram em frente. Mais tarde, na descida, alguns tentaram administrar oxigênio, dar alguma bebida quente ou colocá-lo de pé. Mas ele estava inconsciente, com os membros e o rosto já totalmente congelados e não conseguiu reagir a nenhuma tentativa. Já era tarde demais, e ele morreu pouco depois.
A "Green Boots Cave", onde Sharp abrigou-se por exaustão e por onde 40 alpinistas passaram rumo ao topo, ignorando sua presença. O cadáver do alpinista indiano conhecido como Green Boots foi retirado em 2007, durante o resgate do corpo de Sharp
O terceiro caso é o de um "resgate heróico". Lincoln Hall foi deixado inconsciente no pé do Segundo Escalão, alguns dias após a morte de David Sharp. Conseguiu suportar uma noite sob o frio e o vento e, no dia seguinte, foi encontrado pelo guia Dan Mazur e seus dois clientes, que rumavam ao cume. A descrição do diálogo quando Mazur o encontrou chega a ser surreal. É algo como:
- O que você está fazendo aqui? - perguntou Mazur.
- É o que eu gostaria de saber... - respondeu Hall, delirante e afetado pela hipoxia.
- Você sabe me dizer seu nome?
- Oh, isso eu posso dizer: meu nome é Lincoln Hall. E você pode me dizer como é que eu faço para sair daqui?
Mazur imediatamente abortou sua subida (para contrariedade dos clientes), chamou pelo rádio os sherpas que se encontravam no último acampamento de altitude e conseguiu levar Hall em segurança até o Campo 4. Foi aclamado pela imprensa internacional como herói.
Hall e suas ulcerações devido ao congelamento, no Campo 4 do lado Norte, após o resgate
O que eu queria refletir com os membros da expedição é: quem foi ético? Quem foi anti-ético? Quem foi algo muito pior? E há algum herói?
Acho que há unanimidade quanto à negligência de Todd na questão da falsificação de oxigênio. Mas não se pode dizer que ele tenha sido apenas "anti-ético". No caso de Sharp, o que podemos dizer dos 40 alpinistas que passaram por ele - na ida e na volta do cume -, vendo-o ainda vivo e subindo ou descendo sem efetuar um resgate?
Este é, na minha opinião, o caso que merece maior reflexão dos três. Uma coisa é abandonar alguém em uma montanha quando há possibilidade de resgate. Outra é ter de abandonar um alpinista que não consegue descer sozinho. Não sei se, na época, houve distinção entre essas pessoas que aparentemente viraram as costas para David Sharp. Me parece que não: todos foram acusados - inclusive Russel Brice, um dos guias de expedição que mais auxiliaram em resgates e se colocaram à disposição de alpinistas ou de expedições em apuros no Everest - de abandono, negligência, falta de ética, de compaixão e de muitas outras coisas.
O que significa descer com alguém inconsciente, incapaz de andar sozinho, por escarpas rodeadas de abismos e descidas íngremes, quando você mesmo está à beira da exaustão? Será que isso é possível? Será que muitos os que atravessaram o caminho de Sharp não têm até hoje a imagem do homem que deixaram morrer porque simplesmente não poderiam ou não conseguiriam salvar?
Muitos podem ter ignorado o homem moribundo respirando fracamente ao lado de um cadáver já "conhecido por todos" simplesmente porque pagaram muito dinheiro para atingir o cume e não iriam desistir naquele momento. Outros podem ter deixado o homem moribundo à própria sorte por estarem tomados pela chamada "febre do cume", um mal que acomete a muitos alpinistas que estão próximos ao objetivo. A estes, nada - nem mesmo a morte de outra pessoa ou a sua própria morte iminente, ignorando os riscos por conta da "febre" - os faz parar.
No caso de Lincoln Hall: Dan Mazur foi realmente um herói? Ou simplesmente fez o que qualquer pessoa faria ao ver alguém caído na calçada de sua rua, tendo um enfarte? Estando forte o suficiente, com auxiliares fortes o suficiente (como os sherpas) e em condições de organizar o resgate, simplesmente fazê-lo? Há heroísmo? Ou apenas um ato normal de um ser humano?
É difícil pensar nessas coisas. Fica um pouco mais fácil fazer qualquer julgamento daqui, diante do computador, com um copo de Coca Light ao lado e a 20º de temperatura. Muito mais difícil é decidir entre a vida e a morte (a sua e a de outros) a 8 mil metros de altura, com a mente afetada pela altitude, o corpo à beira do colapso.
Mesmo assim, o que eu penso, sempre que leio algum relato de uma morte ou de um resgate extraordinário no Everest, é: "o que isso quer dizer?". É isso o que eu gostaria que vocês me ajudassem a pensar...
Namastê.