Caros membros da expedição O Meu Everest,
Enfim, consegui terminar o livro High crimes, de Michael Kodas. E quero aproveitar o gancho que o livro dá para propor algumas discussões aqui... Aliás, como são muitos os assuntos, vou dividir este post em dois. Hoje falo sobre uma parte e no fim de semana publico a segunda.
Antes de qualquer coisa, vou fazer um breve resumo do que se trata o livro (em inglês, que pode ser adquirido pela Amazon): muitos de nós já lemos vários livros e vimos muitos documentários sobre expedições ao Everest e a outras montanhas. Estamos habituados aos relatos de superação, dificuldades, heroísmo e algumas tragédias. Em todos eles, aprendemos a admirar a força dos montanhistas que se arriscam neste esporte.
High crimes mostra o outro lado. O que acontece na montanha e que nós nunca ficamos sabendo (ou apenas sabendo o que convém saber...). É o “lado negro” do Everest – pontuado por situações absolutamente inacreditáveis como roubo de equipamento (uma prática cada vez mais comum na montanha), negligência de guias mal preparados, a transformação da montanha em um negócio muitíssimo rentável e a “apropriação” do cume do Everest como uma catapulta para um sucesso pessoal posterior.
O livro conta, basicamente, duas histórias de expedições simultâneas – uma por cada lado da montanha (nepalês e tibetano). Pelo Colo Sul, a mais comum e mais tecnicamente fácil do Everest, e por isso mesmo a mais procurada por expedições comerciais. Por estes motivos, o governo do Nepal cobra uma taxa altíssima para dar a permissão de escalada (U$ 70 mil por sete membros de cada expedição). E as expedições, por outro lado, cobram preços altíssimos (entre U$ 40 mil e U$ 65 mil) de cada um dos membros para integrarem a equipe.
Já pelo lado tibetano, uma rota tecnicamente mais difícil, o custo, por montanhista, para integrar uma expedição fica em torno de U$ 10 mil.
As duas principais rotas de subida ao Everest: em vermelho, a rota do Colo Norte, pelo lado tibetano; em azul, a rota do Colo Sul, pelo lado nepalês
Pois bem: o livro relata, paralelamente, duas expedições ocorridas em 2004: a ascensão de um médico boliviano, radicado nos Estados Unidos, pelo lado nepalês (Colo Sul). Nils Antezana, 69 anos, já havia escalado montanhas menores (nunca acima de 7 mil metros) e tinha uma experiência limitada em altas montanhas. Para o Everest, contratou dois sherpas e um alpinista argentino, chamado Gustavo Lisi, para guiá-lo – ao contrário de outros clientes, que preferem integrar estas enormes expedições comerciais. Ele morreu após atingir o cume, aparentemente por hipoxia, na Plataforma Balcony, enquanto descia. E foi abandonado, ainda vivo, pelos dois sherpas e por seu guia, enquanto implorava por socorro.
À esquerda, Nills Antezana, médico boliviano que foi abandonado na Plataforma Balcony pelos sherpas contratados e por seu guia, o argentino Gustavo Lisi (à direita)
Ao mesmo tempo, o autor, Michael Kodas (alpinista também com pouca experiência, jornalista e fotógrafo), conta, passo a passo, a sua própria expedição. Realizada pelo lado tibetano (Colo Norte), e organizada por romeno George Dijmarescu e por sua mulher, a sherpani Lhakpa Sherpa (que tornou-se uma heroína em seu país após ser a primeira mulher nepalesa a chegar ao cume do Everest). O casal, radicado nos Estados Unidos, montou a tal expedição e angariou seus membros com as promessas de sempre: conforto, segurança, comida farta, sherpas auxiliando em todo o caminho, equipamento de primeira linha para o cume etc. Michael Kodas e sua mulher, a também jornalista Carolyn Moreau, integraram este time.
O autor, Michael Kodas, e sua mulher Carolyn, ambos integrantes da expedição organizada pelo casal George Dijmarescu, um romeno de personalidade conturbada, e Lhakpa Sherpa, a primeira mulher nepalesa a atingir o cume do Everest
Mas esta é apenas a história que faz fundo ao que realmente Kodas quis mostrar. O que o livro traz à tona é o que se é capaz de fazer para conseguir chegar ao cume do Everest. E isso em suas várias facetas: desde a vaidade de clientes-alpinistas inexperientes (que querem ter em sua sala uma foto de braços erguidos no ponto mais alto da Terra para mostrar aos amigos) até grandes fraudes realizadas por donos de empresas de aventuras para conseguir elevar ao máximo o lucro de seu negócio. Passando, é claro, por montanhistas com certa experiência que se anunciam como guias para, levando seu cliente ao cume, conseguir outros clientes e iniciar uma promissora carreira de consultor, escritor de livros de aventura ou palestrante.
Para todas estas intenções, há riscos e atitudes muito pouco louváveis. Ao nível do mar, essas atitudes podem ser consideradas “apenas” como um desvio de personalidade ou de caráter. A oito mil metros de altura, é assassinato.
O que Kordas relata ao longo do livro é uma sucessão de:
- adulteração do conteúdo das garrafas de oxigênio que os alpinistas usam em seu ataque ao cume;
- o destempero de líderes (?) de expedições;
- promessas que não são cumpridas (como até mesmo falta de comida para os alpinistas);
- prostituição e estupro pelo lado tibetano do Everest;
- desleixo, negligência e mentiras de guias (ou falsos guias) com clientes que eles deveriam guiar e zelar pela segurança;
- roubo de equipamentos de escalada e de suprimentos estocados nos acampamentos mais altos (e que são a tênue divisão entre a vida e a morte acima dos 7.500 metros);
- a adulteração de fatos e a destruição de provas que comprovariam a culpa direta das expedições na morte de um alpinista;
- o profundo descaso com o fato de, literalmente, ter de se pular sobre um alpinista agonizante para não ter de abortar seu próprio ataque ao cume;
- a exploração da mídia especializada, tomando partido em situações-limite, para este ou aquele grande nome do montanhismo. E o sensacionalismo advindo disso, transformando em heróis ou vilões pessoas que não são, necessariamente, nem heróis nem vilões.
Tá bom ou quer mais? Este é o lado do Everest que não conhecemos. Como bem disse o Luciano Pires em um dos comentários (foi ele quem me deu o livro e me avisou que eu iria pirar com ele...), há um certo sensacionalismo também no relato de Michael Kodas. Concordo. A narrativa é um pouco maniqueísta e, vez ou outra, parcial. Por estar, ele mesmo, envolvido em uma das situações descritas, sua imparcialidade jornalística fica prejudicada pela proximidade com a notícia (regra básica do jornalismo: se tem algum envolvimento emocional com a notícia, passe a matéria para outro).
De qualquer forma, e separando o que é fato e o que pode estar exagerado ou romanceado, High crimes comprovou a minha tese de que o Everest virou o Wal-Mart dos gigantes himalaios. Sua importância como símbolo (por ser a maior montanha da Terra) foi a sua maior desgraça. A montanha vem sendo, a cada temporada, mais vilipendiada do que qualquer outra. Eu, particularmente, sofro com isso.
Não vou contar em detalhes todos esses fatos listados acima porque senão teria que escrever outro livro... No segundo post sobre este tema, vou resumir alguns casos contados em High crimes, para colocar questões pra gente debater nos comentários.
Agora lanço uma questão geral, para reflexão e a opinião dos membros da expedição:
- o que é, afinal, o Everest hoje?
- o que ele simboliza e o que representa no mundo do alpinismo de grandes montanhas?
Estas são as questões iniciais que eu proponho hoje. Quem quiser deixar sua opinião nos comentários, vai ser ótimo! No próximo post, falaremos da ética sobre a morte na montanha mais alta do mundo.
Namastê!