Morey já em Kathmandu

by Patricia Paladino 27. maio 2009 05:20
 

   Morey já está em Kathmandu. E envia notícias sobre sua caminhada de volta.

 

“Depois de caminhar os mais de 60km entre o Campo Base e Lukla, eu, o Ian e os pais do Chris ficamos presos por um temporal que durou dois dias. Pensávamos em ganhar tempo para tentar voar para Kathmandu, mas não deu certo. Ontem o resto da expedição chegou a Lukla. E todos ficamos presos devido ao mal tempo. 

Mas, felizmente, agora à tarde, 27 de maio, pudemos voar. Acabamos de chegar ao hotel em Kathmandu e vamos tentar adiantar os nossos vôos de volta para casa. Por enquanto nada de seguro.

Gostaria de comentar dois pontos sobre os sherpas que eu vi ou fiquei sabendo nesses últimos dias. Um deles, um carregador que estava com 100kg nas costas. Imagine uma pessoa carregando 100kg. E descendo a Icefall... teve que cruzar uma greta com uma escada. Foi tentar colocar o mosquetão na corda para ter a segurança necessária. O peso nas costas o desiquilibra... ele cai na greta... e se quebra inteiro.... Pode?

Outra cena: um dos nossos porters do Campo Base... Eu mal conseguia carregar a minha mochila... Ele pegava a minha mochila, a do Ian e fazia todo o caminho... Que vergonha... Só que esse porter deve ter uns 15 anos, bate na minha cintura e fez o caminho todo de havaiana. Sob nevasca e chuva... Parabéns, exceto que ele devia estar é na escola e não carregando esse peso nas costas com essa idade.

Amanhã mando mais notícias... Agora vou comemorar a chegada em Kathmandu, pois o vôo foi difícil de sair... Mas o trajeto até que foi tranqüilo...

Abraços,

Morey”

 

É, parece que Morey não conseguiu fugir do engarrafamento no aeroporto de Lukla! De qualquer maneira, agora são alguns dias em Kathmandu e depois... Brasil!

Um destaque de seu texto que merece um pouquinho da nossa atenção: o trabalho dos sherpas nas expedições ao Everest. O que já é público e reconhecido até por grandes alpinistas é que, desde a primeira ascensão ao Everest, em 1953, até hoje, a maior parte (senão a gigantesca parte) do sucesso desses mais de 2 mil cumes se deve ao trabalho dos sherpas alpinistas.

São eles os que se arriscam abrindo a rota da Ice Fall (instalando as cordas fixas e as escadas de alumínio), chegando à montanha antes mesmo da primeira expedição. São eles os responsáveis por fixar todas as cordas no longo caminho até o cume. São eles os responsáveis por abastecer todos os acampamentos superiories, com equipamentos, barracas e alimentos. São eles, por muitas vezes, os principais responsáveis por colocar (ou "rebocar") clientes com pouca experiência no cume. São eles que passam diariamente pela Cascata de Gelo, a despeito do perigo iminente desta parte da escalada. São eles os Ice Doctors, que recompõem a rota após acidentes e avalanches. E são eles os que mais morrem no Everest.

Das mais de 200 fatalidades ocorridas na montanha desde 1953, com certeza metade é de sherpas. Porque eles se arriscam mais do que todos e correm os maiores perigos durante toda a temporada.

A avalanche de ocidentais em busca de escalar a montanha ou fazer o trekking até o Campo Base (são cerca de 25 mil por temporada, entre abril e junho e após a monção de verão, mais pro fim do ano) abriu um novo campo de trabalho para este povo. Sherpa, ao contrário do que muitos possam pensar, não é sinônimo de "carregador". É uma designação de um povo que migrou do Tibet para o Nepal há séculos. E que se estabeleceu na região do Khumbu, onde está localizado o Everest. Sherpa significa "povo do Leste" - que é de onde eles vieram. 

Durante centenas de anos, o povo sherpa viveu basicamente da agricultura e de pastorear os iaques, que lhes fornecem carne, leite, combustível (através dos excrementos) e abrigo (com a confecção de casacos e mantas de seu espesso pelo). Estiveram muito distante de qualquer contato com hábitos e costumes ocidentais - mas também vivendo à margem de tudo o que um pouco mais de "civilização" pudesse oferecer.

Sir Edmund Hillary, após a primeira ascensão ao Everest, dedicou o resto de sua vida ao povo sherpa. Construiu escolas, hospitais, postos de saúde, pontes, implementou o reflorestamento de muitas partes da região (plantando 1 milhão de mudas no Parque Nacional de Sagarmatha). Depois, construiu o aeroporto de Lukla e levou luz elétrica a muitas vilas (principalmente Namche Bazaar). Estas suas duas últimas iniciativas, de certa forma, abriram caminho para tornar o Everest mais acessível aos ocidentais. Mas sem juízo de valor...

O contato com o "povo do Ocidente" transformou a vida dos sherpas. Eles saíram do século 18 e caíram direto nos séculos 20 e 21. E viram uma boa chance de ascensão social e financeira participando de expedições ao Everest. Assim começou a mais rentável carreira entre os sherpas: o de ser "sherpa de expedição". O que cada sherpa alpinista ganha em uma única expedição corresponde a mais de um ano de rendimentos da maioria da população da região (mesmo que seja o mínimo para os padrões ocidentais. Cerca de US$ 2.500, em média). Eles adquirem status em sua comunidade. Com o dinheiro, enviam seus filhos a Kathmandu, para estudar e seguir uma carreira. Eles mesmos, após juntar algum dinheiro, transferem toda a família para Kathmandu. Hoje há serpas médicos, advogados, engenheiros e até um piloto de aviação comercial. 

Paralelamente a isso, o comércio, principalmente em Namche, foi incrementado e ocidentalizado. Muitos sherpas abriram lodges (pousadas), restaurantes, lojas de material de montanhismo, cybercafés, bares. Hoje se encontra cerveja de qualquer lugar do mundo ali, vários tipos de cozinha internacional, e, claro, não falta Coca-Cola. Embora mantenham sua cultura e a religiosidade intactas, o povo sherpa hoje em dia transita entre os ocidentais com desenvoltura. Conseguiram fazer do Everest (eles também) um meio de sustento de suas famílias.

Entretanto, o início de toda carreira de alpinismo para um sherpa começa como carregador. E são a estes que Morey se refere em seu e-mail. São, muitas vezes, crianças frágeis, que, como ele disse, deveriam estar na escola. Sherpanis idosas que deveriam estar em casa, cuidando dos netos. Mas estão lá, carregando três vezes o seu próprio peso na difícil trilha entre Lukla e o Campo Base. Os adultos (homens e mulheres) são, literalmente, "burros de carga" para as expedições, que têm de levar toneladas de peso até o acampamento onde permanecerão por dois meses. Seguem em fila, junto com os iaques (que levam o equipamento mais pesado), sem calçados ou roupas adequadas. E que, como na escala hierárquica da expedição estão na base da pirâmide, são absolutamente ignorados pelos milhares de ocidentais que cruzam pelo caminho.

Como imagens valem mais que palavras:

 

               

 

                           

São a esses sherpas que Morey se refere em seu e-mail. Também ele bastante impressionado pela força demonstrada por esses carregadores, quando ele mesmo estava exausto para conseguir levar sua mochila sob a nevasca e a chuva. Mas a diferença de Morey para outros alpinistas é que ele dividiu com o rapaz seu esforço, reconhecendo seu auxílio - o que muitos ocidentais não fazem. Morey também percebeu uma coisa de maneira muito sensível (além do fato de que ele devia estar na escola): que mesmo um menino sherpa de 15 anos, franzino e sem qualquer vestimenta especial, é muito mais forte do que nós.

Esta é a força do povo sherpa. Que, pra mim, vem não apenas da necessidade de sobrevivência ou da compleição física (por viverem acima de 3 mil metros a vida toda, o que lhes dá, obviamente, mais resistência ao ar rarefeito). Vem, principalmente, de sua história, de sua rica cultura e de sua bela religiosidade.

Namastê. 

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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