Balanção do Everest 2009

by Patricia Paladino 23. maio 2009 05:59

   Caros membros da expedição O Meu Everest,

Chegando ao fim de mais uma temporada de ascensões ao Everest, vamos a um balanção do que de mais importante, interessante ou curioso aconteceu entre o fim de abril e este finalzinho de maio.

Não precisamos nem inserir toda a jornada de Carlos Morey neste post! Afinal, o blog dedicou-se, entre 27 de março e até a volta de Morey ao Brasil (o que deve acontecer no início de junho) a acompanhar, passo a passo, seu caminho rumo ao cume. E, como já dissemos várias vezes, em uma escalada vitoriosa. Quem entrou para nossa expedição quando ela já estava em andamento pode acompanhar todo o percurso em nosso arquivo, para ter uma noção total de tudo o que aconteceu desde o início.

Três grandes avalanches aconteceram na Cascata de Gelo do Khumbu (Icefall) durante a temporada. Duas, em menos de uma semana. E, na última, um sherpa desapareceu, certamente jogado pela onda de neve em uma das muitas gretas (fendas com centenas de metros de profundidade) que estão por toda parte neste labirinto de blocos de gelo que é a Cascata. Esta avalanche, inclusive, segundo relatos de alpinistas que já estiveram inúmeras vezes no Everest, foi a mais gigantesca que eles já presenciaram em todas as temporadas. Isso muito se deve, além do deslocamento natural da geleira, às conseqüências do aquecimento global, que já chegou às grandes montanhas. Basta ver o que era o Kilimanjaro há vinte anos e o que é hoje. O Everest também é uma vítima.

Como em todas as altas motanhas, existe um espaço muito pequeno de bom tempo até que cheguem as monções - o que faz com que as expedições tenham uns poucos dias para subir. Então formam-se várias ondas de expedições subindo juntas, cerca de 100, 150 alpinistas por noite. Até hoje (e não acredito que haja mais), são mais de 300 cumes e seis mortes. Pode parecer mórbido, mas é a média de fatalidades para uma temporada no Everest. Foram dois sherpas (um na última avalanche na Cascata de Gelo, outro pela ingestão de uísque com metanol no Campo Base); o alpinista chinês Wu Wenhong, que morreu de exaustão a 8.750m; e o tcheco Veslav Chrzaszcz, há dois dias, ambos pelo lado tibetano da montanha.  

UPDATE: Infelizmente, mais uma morte foi confirmada nesta temporada, elevando para cinco o número de fatalidades em 2009. O alemão Frank Ziebarth, de 29 anos, alcançou o cume em 21 de maio pelo lado tibetano da montanha (Colo Norte), sem oxigênio suplementar, mas pereceu na descida, provavelmente por hipotermia, a 8.700m. Ele já havia atingido o cume de outros OitoMil: Shisha Panhma, Cho Oyu e Lhotse, todos sem o uso de O2.

UPDATE 1 (27 de maio): Hoje houve mais uma vítima no Everest. O alpinista Sergey Samoilov, integrante da expedição Everest-Lhotse 2009 Transverse, do Cazaquistão, morreu ontem ao tentar o cume do Lhotse. Embora a temporada do Everest pelo lado nepalês já esteja encerrada, ainda há alguns times remanescentes, como este, no Nepal. Com esta fatalidade, sobe para seis o números de mortos no Everest em 2009.  

Tivemos, como sempre, dezenas de expedições pelo lado sul nepalês e muitas centenas de alpinistas morando no Campo Base por dois meses. Entre as expedições houve equipes enormes, de empresas profissionais de alpinismo, que prometem levar seus clientes-alpinistas ao cume. E normalmente conseguem, pela infra-estrutura que carregam para a montanha. A maioria dessas empresas (Adventure Consultants, Mountain Madness, Himex, Alpine Ascents, Altitude Junkies, RMI - que este ano levou o "codinome" de First Ascent, relativo à marca de equipamentos de alta montanha que patrocinou -, Jagged Globe e IMG) conseguiram levar a maioria dos alpinistas ao cume. O problema é que algumas se sentem "donas" da montanha. E isso causa uma série de problemas extra-escalada...

Vale destacar o sistema de comunicação de uma delas, a da First Ascent, que foi inimaginável: Twitter, dispatches em áudio em tempo real, canal no YouTube com vídeos desde a chegada à Kathmandu (e com publicação minutos após as equipes chegarem ao cume). Sensacional para quem quer acompanhar à distância, mas um pouco hightech demais para os puristas...  

Duas expedições (Himex e IMG) dividiram uma equipe do Discovery Channel para documentar a escalada. A Himex - que já fez duas temporadas da série O preço da escalada, ambas pelo lado tibetano, desta vez estava no lado Sul, por conta de problemas com as autoridades tibetanas, que demoraram a liberar a permissão para as expedições. Portanto, mais dois documentários sobre o Everest serão lançados em breve.

Esta temporada teve algumas curiosidades bacanas. Fora o acompanhamento do Morey, houve alguns cumes sensacionais, expedições só de mulheres, um astronauta no cume, recordes sendo batidos. Só uma palavrinha sobre "recordes": em todas as altas montanhas (e, em especial, no Everest), há sempre quem quer ser o mais velho, o mais novo, o mais gordo, o primeiro de seu país a chegar ao cume. Já houve até o primeiro deficiente visual a chegar ao cume e o primeiro amputado (é, até isso já teve). Por achar que isso é nada mais do que uma promoção pessoal para se atingir a fama (e para, na volta, iniciar uma promissora carreira de motivacional speaker), deixamos isso de lado. Nada tem a ver com o montanhismo. Entretanto, recordes de quantidade de cumes, de formas de escalada e de tempo de subida – esses sim valem a pena destacar, porque estão no cerne competitivo do mundo do montanhismo.

Então vamos para o balanção do Everest 2009. Como todas as expedições na montanha conseguiram colocar muitos ou todos os membros no cume, vamos destacar o que de mais curioso ou interessante aconteceu com alpinistas – e não com equipes.

O 19º CUME DE APA SHERPA

   

A primeira coisa a destacar é o 19º cume de Apa Sherpa, da Asian Trekking, um alpinista de elite, uma lenda do montanhismo moderno, respeitado como um dos mais técnicos e fortes entre seus colegas. Do cume, ele enviou o seguinte rádio ao seu Campo Base: “Estou no topo e olhando todas estas bandeiras de oração... Sou o último de nosso grupo a chegar ao cume hoje por ter tido problemas de intenso tráfego para subir o Escalão Hillary. Cheguei ao cume às 8h e estou aqui há meia hora. Está muito frio e vou descer agora.” Ninguém chegou tantas vezes ao cume do Everest como ele. E vai ser muito difícil superá-lo.

 

 

 

O PRIMEIRO OCIDENTAL A FAZER O CUME ESTE ANO

 

 

   David Tait foi o primeiro ocidental a chegar ao cume este ano. Ele escalava em busca de fundos para a fundação Rebuilding Childhoods, que cuida de crianças que sofreram abusos.

 

OS CUMES DE VIESTURS E WHITTAKER E A "POLÊMICA" DO USO DE 02

   Ed Viesturs (à esquerda na foto), um dos alpinistas de elite atualmente, que subiu todos os 14 OitoMil sem oxigênio artificial, decidiu, desta vez, subir com O2. Foi a primeira vez que fez isso no Everest, e chegou ao seu 7º cume nesta montanha. Ele explicou que nunca usou oxigênio suplementar em todas as conquistas dos gigantes por uma questão de ética pessoal em relação ao montanhismo. Mas que desta vez usou O2 no trecho final por conta do muito tempo em que permaneceu no Colo Sul (8.000 metros) à espera do bom tempo – e também por conta do grande número de alpinistas que encontrou pelo caminho. Mais por conta de manter o corpo aquecido com O2 do que por necessitar dele, e para manter a dinâmica do grupo que subia junto. Por conta disso mesmo, seu tempo entre subida e descida foi impressionante: ele saiu às 23h, depois de todas as expedições. Chegou ao cume às 8h da manhã e às 13h já estava em sua barraca no Colo Sul. Quem sempre sobe sem oxigênio, quando vai com O2 vira uma máquina! O incrível é que alguém tenha que “dar satisfação” porque usou oxigênio! Principalmente um cara que é considerado um dos mais corretos montanhistas da atualidade e que completou o Circuito dos OitoMil seguindo esta ética de estar "parelho" com a montanha. Viesturs subiu com o líder da expedição, Peter Whittaker, que também alcançou o cume.

 

O 11° CUME DE DAVE HAHN

   Ele é chamado de "Mr. Everest", por ser o detentor do maior número de cumes, para um ocidental. E há dois dias chegou ao topo de novo, pela décima primeira vez. Hahn, que também integra o time da First Ascent, enfrentou um contratempo para sua subida: ele guiava uma americana de 17 anos, que queria ser (olha aí o recorde bobo de novo) a mais jovem americana a atingir o cume. Ele passou o tempo todo com ela subindo e descendo a montanha para aclimatação. Entretanto, no dia da subida final, a menina "amarelou". Não se achou preparada para encarar o desafio. Hahn, como um alpinista consciente (e talvez tenha sido ele quem vetou a subida da garota) desceu com ela ao Campo Base e retomou sua própria escalada ao cume dias depois, com outros dois guias da First Ascente, Melissa Arnot e Seth Waterfall. Todos chegaram ao cume ontem, dia 22 de maio - um dos últimos times a chegar ao topo.

 

MULHERES NO CUME

   Havia duas expedições formadas só por mulheres este ano no Everest: a Singapore’s Women (que integrava a expedição da IMG) e a da Croácia. Desta última, os primeiros cumes foram conquistados pelas irmãs Darija e Iris Bostjanèiã (na foto), em 19 de maio. Foram as primeiras mulheres a conseguir o cume este ano e a primeira dupla de irmãs a fazer isso. O interessante é que elas foram acompanhadas por dois sherpas, também irmãos (Lhakpa e Navang), que também chegaram ao topo. A expedição croata eu não consegui acompanhar com tanta assiduidade porque seu site é publicado em... croata. E esta língua, infelizmente, eu não falo...

   A outra expedição feminina, a Natas Singapore Women’s Everest, conseguiu colocar cinco das seis montanhistas (que sempre escalam juntas) no topo: Li Hui Lee (27 anos), Yin Xuan (Esther) Tan (26 anos) e Zhen Zhen (Jane) Lee (25 anos), no dia 20. E na quarta-feira, 21, mais duas meninas chegaram ao cume: Mei Ying (Joanne) Soo (39 anos) and Peh Gee Lee (32 anos.) Assim, apenas Yi Hui, a sexta integrante da equipe, não fez o cume nesta temporada. Esta foi uma equipe muito legal, embora nenhuma delas seja considerada como entre as maiores.

 

DA LUA AO TOPO DO MUNDO

   O astronauta americano Scott Edward Parazynski, que já viu a Terra do espaço, chegou este ano ao Topo do Mundo. Ele integrou o enorme time da International Mountain Guides (IMG).

 

O VETERANO RUSSO

   O lendário alpinista russo Nicholay Cherhy chegou ao Teto do Mundo. Ele liderou o segundo time que subiu pela expedição Seven Summits.

 

 

UM REGISTRO OFF-EVEREST

   Sei que nosso papo aqui é sobre o Everest. Mas como uma entusiasta da presença de mulheres montanhistas nas montanhas acima de 8.000 metros de altitude, acompanhei de perto a escalada da espanhola Edurne Pasaban este ano. Ela alcançou o difícil cume do Kangchenjunga (terceira montanha mais alta da Terra, com 8.598m), chegando ao seu 12° cume no Circuito dos OitoMil. Só faltam duas para completá-lo – e ser a primeira mulher a fazer isso. Edurne teve um descenso muito difícil até o Campo Base (mais de 10 horas de muito esforço e tempo ruim) e chegou à beira da exaustão e com um dedo da mão e dois dos pés congelados.

Há uma “disputa velada” entre Edurne e mais duas alpinistas: a austríaca Gerlinde Kaltenbrunner e a italiana Niver Meroi. Elas não admitem a competição, mas...

   Há dois dias, Gerlinde Kaltenbrunner chegou ao cume do Lhotse, empatando com Edurne a marca de 12 OitoMil. Nesta expedição (que segue a mesma rota para o cume do Everest, e só se separam no Colo Sul), Gerlinde esteve acompanhada por Ralf Dujmovits, que com este sucesso completou o Circuito dos 14 OitoMil, entrando para este seleto grupo.

   Nives Meroi também estava no Kangchenjunga mas abortou o cume, permanecendo com 11 OitoMil no currículo. Para quem gosta de montanhismo e torce muito pela presença de mulheres entre a elite, as próximas temporadas prometem muitas emoções com este trio!

 

Estes são os fatos relevantes desta temporada. É claro que há muitas histórias, muito mais o que contar. Mas aqui estão os mais interessantes, na minha opinião. Sabendo de mais detalhes bacanas, eu posto.

Morey continuará enviando dispatches de seu caminho de volta, e estaremos postando à medida que eles cheguem.

Uma última palavra: gostaria de agradecer a todo mundo pelas palavras de incentivo durante o acompanhamento da escalada do Morey. Em especial a Gerusa Palhares (que virou minha amigona!), Denis Andrade, Pablo Soboleff, Beto Joly, André Monteiro, Gilberto Thoen, Robert Adler, Henrique Leite, Eduardo Oliveira, Charles Klein, Spincc (cadê você, Spincc??), Marcelo Zeuli, Márcio Campos, Sizenando Aguiar e Patricia Perone. E, claro, ao Luciano Pires! Uma parceria que definitivamente deu certo! Se eu esqueci de alguém, me perdoe... Mas beijo a todos pelas lindas mensagens e pela vibração positiva durante toda a jornada!

Este blog está entrando em sua nova fase. A expedição O Meu Everest continua, a partir de agora, falando do Everest em suas mais variadas facetas. Teremos entrevistas com os principais alpinistas brasileiros de alta montanha (a começar, claro, por Carlos Morey, com quem bateremos um longo papo assim que ele estiver no Brasil. No post abaixo eu explico que quem quiser fazer perguntas ao Morey pode deixar nos comentários que eu faço durante a entrevista).

Vamos contar a história da formação do Everest (é muito interessante...), as primeiras tentativas de conquista com as expedições de George Mallory, o desbravamento por Edmund Hillary e Tenzing Norgay, fazer biografias dos grandes montanhistas da atualidade e do passado, contar casos de sucesso e alguns trágicos que aconteceram no Everest, indicar livros e documentários para quem quiser aprofundar o conhecimento - enfim, assunto é o que não vai faltar.

Também quero lançar alguns assuntos polêmicos para debate com os membros da expedição. Por exemplo: o que é a ética em uma montanha com mais de 8 mil metros? O que está acontecendo à montanha diante da invasão do Everest a cada temporada? Temas que estão sempre nas pautas dos livros que falam sobre esta montanha. 

Enfim, a expedição vai avançar. Gostaria muito que, mesmo os amigos do Morey, que chegaram ao blog para acompanhar sua jornada, permanecessem como membros de nossa expedição. Este será um espaço para descobrir o Everest - e desbravá-lo a partir de histórias muito instigantes.

Namastê!

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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