Caros membros da expedição O Meu Everest
Tivemos um pequeno problema no servidor, e perdi este post. Portanto, estou republicando - não com as mesmas palavras, mas com o mesmo espírito. E já mais atualizado.
Mara Larson, gerente do Campo Base, comentou no site da Jagged Globe que todo o time Yellow - Morey inclusive - já está no Campo 2, o Campo Base Avançado. De acordo com o cronograma enviado por Morey antes da última subida, na quinta-feira ele estará de volta ao Campo Base. E então saberemos exatamente o que aconteceu lá em cima.
Ontem de madrugada, após saber da notícia de que Morey havia tido problemas com as lentes de contato e aguardava não apenas a confirmação desta notícia mas também como estava seu estado físico, escrevi um texto - que segurei para ser publicado só quando realmente tivesse certeza de que o cume, para nosso alpinista, estaria adiado para o ano que vem.
Me desculpem se ele soa um pouco emocional, mas é assim mesmo... A gente se envolve, torce como final de campeonato e acaba deixando escapar a emoção. Mas decidi postar o texto hoje sem mudar uma linha:
"Está confirmada a notícia: Carlos Morey chegou próximo à Balcony (saberemos a localização exata quando ele nos enviar seu relato), mas, por um problema em suas lentes de contato, decidiu retornar ao Campo 4, no Colo Sul. E, no Everest, é muito difícil haver uma segunda chance de subida.
Não deu certo? É claro que deu certo!!! Como dizer que não deu certo um percurso impecável de quase 60 dias, diversas subidas e descidas a acampamentos com até 7.400 metros, atravessar inúmeras vezes a Cascata de Gelo, ser um dos mais fortes física e psicologicamente de todo o time, chegar ao Colo Sul (8.000 metros de altitude) e estar em perfeito estado de aclimatação?
Não podemos nunca considerar que a escalada brasileira ao Everest em 2009 tenha dado errado. Não deu. Ao contrário. O cume, no montanhismo de grande altitude – principalmente em se tratando do maior dos 14 gigantes himalaios –, é conseqüência. É apenas o prêmio máximo. A escalada a uma montanha deste porte não se faz apenas no dia do cume. É a soma de todos os momentos desde que se chegou até ela.
Quando fizemos a escalada ao “nosso” cume, há dois posts, eu escrevi:
“Quem tem consciência de seu próprio organismo, uma boa equipe e lucidez na hora de tomar decisões importantes (como desistir do cume, por exemplo), faz dela uma escalada segura.”
O próprio Carlos Morey, na entrevista que fiz com ele antes do embarque para Kathmandu, disse:
“Você deve dosar as forças para chegar ao cume e conseguir voltar são e salvo para casa. Dar tudo só para chegar ao cume e morrer por lá não pode ser considerado um sucesso.”
E eu fiz questão de destacar isso na matéria de O Globo, sábado.
Um alpinista consciente sabe que o cume não é tudo. A montanha estará lá no ano que vem, e no outro, e no outro... Morrer em uma montanha pode ser muito romântico, mas, definitivamente, não integra os planos de nenhum alpinista. O objetivo de todo alpinista é o contato com a montanha – e manter este contato até onde seja seguro. E foi isso o que Morey fez.
Antes de sua subida final aos acampamentos superiores, eu enviei a ele um e-mail dizendo:
“(...) Então, muita serenidade, força e disposição! Veja o mundo do alto, desfrute o máximo que puder. É um momento pra ficar gravado na memória pra sempre. (...) No primeiro post do blog eu disse que mesmo um homem grande, com 2 metros de altura, é 8.846 metros menor do que o Everest – é apenas um floquinho de neve perto daquilo tudo. Portanto, não basta ser um homem grande pra chegar ao cume. Tem de ser um grande homem – com pureza no objetivo e grandeza de alma.”
Ao que ele me respondeu:
“(...) vou procurar fazer passo a passo, Campo 2, Campo 3, Campo 4 e tentar chegar até onde dá pé... Celebrar cada conquista e, como você escreveu, aproveitar o máximo a caminhada, pois é um momento único na nossa vida. E, quem sabe, ser esse Grande Homem.”
Pois bem. Este e-mail dá a real dimensão de como Morey está encarando toda essa jornada. Celebrando cada passo conquistado nas paredes do Everest.
Ele é, definitivamente, um destes Grandes Homens – e a grandiosidade desta montanha confirma isso. Pela pureza de objetivo e grandeza de alma de Morey, o Everest lhe deu duas opções:
deixar com que ele chegue ao seu cume
ou preservá-lo – com cuidado, carinho e admiração –, se não for a hora de ele abraçar o Topo do Mundo.
Temos que encarar a escalada de Morey como uma grande vitória – da consciência do alpinista em relação a si mesmo, em relação à natureza e, principalmente, em relação à montanha.
Aqueles que compreendem que somos apenas um floquinho de neve diante do Everest são os Grandes Homens.
Vamos aguardar com ansiedade o relato de Morey deste seu ataque ao cume, quando ele voltar ao Campo Base, dentro de alguns dias. E saudá-lo como um grande representante de nossa expedição e de nosso país, que soube adiar seu sonho, mas conseguiu fazer com que sonhássemos junto com ele!"
Namastê.