Caros membros da expedição O Meu Everest,
Chegou o nosso dia do cume. Hoje vamos partir do Campo 4, no Colo Sul, em direção ao Topo do Mundo – e conhecer cada etapa desta escalada de cerca de 10 ou 12 horas.
Antes de mais nada, cabe uma explicação a respeito do que estamos prestes a encarar. Este é um post beeem longo (como é a escalada final...) e espero que todo mundo tenha paciência de ler até o fim! E não é um post, digamos, “florido”... nem poderia ser, já que os riscos não podem ser ignorados. Portanto, que ninguém se impressione! Quem tem consciência de seu próprio organismo, uma boa equipe e lucidez na hora de tomar decisões importantes (como desistir do cume, por exemplo), faz dela uma escalada segura.
A maioria dos alpinistas que sobem o Everest faz uso do cilindro de oxigênio – uns poucos o dispensam, por sua própria constituição física. O uso de O2 engarrafado, entretanto, é apenas uma atenuante bastante limitada para o esforço sobrehumano que vem pela frente. A 8.840 metros, por exemplo, usar O2 siginifica ter a sensação de estar a 7.900 metros – o que não reduz em quase nada o esforço. O ar continua chegando de forma escassa. Mas o uso do oxigênio engarrafado traz outros benefícios, estes mais proveitosos: provoca, por exemplo, aquecimento ao corpo, dificultando um pouco mais o congelamento das extremidades. O que já é um grande ganho.
De qualquer maneira, estes homens e mulheres estão a uma altitude inimaginável. A exposição prolongada ao frio extremo e a carência de oxigênio – que tornam o corpo muito lento e a mente, mais ainda – são, mais do que os abismos e a dificuldade técnica (não muito exigente), os maiores inimigos para o sucesso.
Feitas as observações necessárias a toda equipe que pretende alcançar o Teto do Mundo, vamos subir.
CUME DO EVEREST
Altitude: 8.848m
Tempo de escalada (C4-CUME):
C4-Plataforma Balcony: entre 5 a 6 horas
Plataforma Balcony-Cume Sul (ou “falso cume”, a 8.690m): entre 1 e 2 horas
Cume Sul-Escalão Hillary: cerca de 1 hora
Escalão Hillary ao Cume do Everest (8.848m): cerca de 1 hora
Tempo total (C4-CUME): cerca de 10 horas
A PARTIDA
As expedições partem do Campo 4, no Colo Sul, no meio da noite. Isso significa que a primeira parte da escalada é feita no escuro – apenas com a iluminação, limitada, da lanterna presa ao capacete.
Araceli Segarra, a primeira espanhola a atingir o cume do Everest, em 1996 (junto com Jamling Norgay, filho de Tenzing, e Ed Viesturs), foi quem deu a melhor descrição que já li sobre esta primeira etapa. Ela disse algo como: “Escalamos no escuro, com pouco mais de um metro de luz à frente, e ouvimos apenas o som de nossa própria respiração ofegante sob a máscara. Estamos sozinhos. É como se estivéssemos escalando na Lua!”.
O cume do Everest encontra-se a uma distância de 2,5 km, em linha reta, do Colo Sul. Mas a velocidade média é de 4 metros por minuto – um bebê na sala de casa engatinha mais rápido...
Esta é a rota da escalada ao cume do Everest: a parte sobre a montanha, e até a virada para a direita (até chegar à primeira protuberância na crista da montanha, a Plataforma Balcony), é feita durante a noite
Mapa: First Ascent expedition
Os marcos do caminho assinalados. No mapa faltou nominar a Plataforma Balcony, logo acima do South Col, onde a linha vermelha forma um pequeno triângulo
A primeira etapa da subida é uma escalada de mais ou menos 300 metros verticais da Face Triangular do Everest – uma rampa de neve com 50º de inclinação. Este trecho é todo feito à noite e passa por diversos coloirs (termo francês que significa “corredor” e que são passagens ou linhas de ascensão ao longo de uma montanha).
Como todas as expedições marcaram seus cumes ou para o dia 18 ou para 19, em ambos teremos um grande fluxo de alpinistas utilizando a mesma rota. Eles sobem em fila indiana – e é muito difícil, principalmente em determinados trechos, a ultapassagem de alguém que esteja mais lento à sua frente. Este é um fator que pode atrasar, e muito, alpinistas mais bem preparados fisicamente, mas que ficam presos ao “tráfego” da subida.
Como, segundo Morey, a data de saída do time Yellow está marcada para 21h (enquanto normalmente se sai por volta das 23h), esta estratégia deve ter sido montada justamente para não haver ninguém à frente. Esperamos que outros times não saiam também neste horário.
Este caminho, já próximo ao primeiro marco da rota, a Plataforma Balcony, vai se tornando mais delicado por conta de inúmeras pedras soltas.
PLATAFORMA BALCONY
O caminho para a Balcony, primeira etapa da escalada. Na foto à direita, aproximada, dá para ver sua localização: a plataforma fica onde começa a crista da montanha, no solo nevado
Em expedições que saem por volta da meia-noite, ao amanhecer os times atingem o primeiro marco do caminho: a Plataforma Balcony, localizada a 8.412 metros de altitude e que assinala o início da Aresta Sudeste. É onde as expedições marcam para se reagruparem (já que todas se misturam no caminho até aqui). Portanto, a Balcony pode ser considerada o ponto de encontro mais alto do mundo!
O ponto de encontro das expedições após uma noite inteira de escalada, em um pequeno espaço de neve
Entretanto, a Plataforma não é maior do que um cômodo de uma casa. Simplesmente não cabe todo mundo – e este reagrupamento pode não ser concluído.
A Balcony é um local de descanso, onde os alpinistas aproveitam para se reidratar e trocar, pela primeira vez, seus clindros de oxigênio – que, utilizados em um fluxo conservador de 2 litros por minuto, dura de cinco a seis horas. Mais ou menos o tempo previsto entre o Campo 4 e este marco.
É também o primeiro visual deslumbrante da escalada final. Havendo energia e coordenação, muitos páram por algum tempo para admirar a beleza e tirar fotos.
Uma curiosidade deste trecho: foi aqui que a expedição pioneira ao Everest (em 1953, quando Edmund Hillary e Tenzing Norgay desbravaram a montanha) montou seu último acampamento (o de número 9!), a 8.382 metros de altura. Como não havia nenhuma experiência anterior, eles consideraram que seria melhor partir daqui para o cume (mesmo pernoitando a esta altitude).
ARESTA (OU CRISTA) SUDESTE
A Aresta Sudeste, que começa na Balcony e segue, estreita e perigosa, até o Escalão Hillary
A partir da Plataforma Balcony começa a Aresta (ou Crista) Sudeste. Uma aresta é uma linha estreita que divide uma montanha em duas vertendes, ou em duas faces – no caso do Everest, a Aresta Sudeste liga a Balcony ao Cume Sul, e dali ao Escalão Hilary, tendo de um lado a Face Leste e do outro, a Face Oeste da montanha.
É coberta de uma neve compacta, um caminho traiçoeiro, que se torna mais estreita após o Cume Sul. Toda a crista, porém, é provida de cordas fixas.
CUME SUL
Aqui, os alpinistas estão no Cume Sul, observando a continuação da rota de escalada
Ou “falso cume”, está localizado a 8.690 metros de altitude – ainda a uma distância de, pelo menos, duas horas do cume. Já dá para ver a Aresta Sudeste afilada à frente, o Escalão Hillary e toda a rampa final.
Chegando ao Cume Sul
Vista da continuação da rota, a partir do Cume Sul: a Aresta Sudeste, que se torna mais afilada (com abismos dois dois lados), o Escalão Hillary (a protuberância de rocha e neve elevando-se após a Aresta) e a rampa final
A visão oposta: do Cume Sul e olhando para trás, para o percurso já realizado
Não podemos esquecer as condições dos alpinistas nesta parte alta da montanha: aqui é um pé na frente do outro – literalmente. O pensamento não deve estar voltado para o cume, mas simplesmente para os dois metros seguintes.
À direita na foto, uma cornija sobre o enorme abismo de 3 mil metros sobre a geleira de Kangshung
Do Cume Sul ao Escalão Hillary, a Aresta Sudeste tem aproximadamente 100 metros de extensão, e torna-se estreita como a lâmina de uma faca, com precipícios dos dois lados.
A Leste, cornijas de neve (lindas formações de imensos blocos de neve que estão precariamente presas à montanha mas podem se desprender até com o peso de um homem) pendem sobre um despenhadeiro de 3 mil metros, em cujo fundo fica a geleria de Kangshung. A Sudoeste a montanha se precipita sobre o Circo Oeste, 2.400m abaixo. A única rota possível é por esta estreita e sinuosa trilha.
Mas, como em todo o trecho desde o início da parte alta da montanha, cordas fixas bem ancoradas formam um “corrimão de segurança”, onde os alpinistas atam seus mosquetões e têm segurança garantida.
ESCALÃO (OU DEGRAU) HILLARY
Um obstáculo como este não poderia estar em pior lugar: a cerca de 100 metros de desnível do cume, onde o ar já é tão rarefeito que o mundo anda em câmera lenta.
O Escalão Hillary (ou Hillary Step) é um dos trechos mais famosos do alpinismo mundial, e foi batizado por ter sido Sir Edmund Hillary o primeiro homem a escalá-lo. E também é um dos mais tecnicamente exigentes de toda a rota, não apenas por ser um degrau de rocha e neve com 12 metros de altura, mas por sua localização.
É um desafio físico e psicológico: a visão deste paredão entre o alpinista e o cume é intimidadora diante da exaustão física. Se para a travessia horizontal foi necessário dar três ou quatro inspirações profundas após cada passo, deve ser bem desestimulante pensar em subir nessas condições.
Nas duas fotos, engarrafamento no Topo do Mundo: a fila de alpinistas "esperando a vez" para subir o Escalão (a parede de rocha, mais visível na foto à esquerda). Alguns já se encontram acima dele
Para as expedições modernas, também há cordas fixas (instaladas previamente pelos sherpas) no Escalão. Mas até mesmo apenas subir pela corda, de acordo com o estado de exuastão, pode ser muito penoso. (Alguns alpinistas de elite, como o russo Anatoli Boukreev (já falecido), já subiram o Escalão em solitário, sem cordas fixadas e sem oxigênio artificial. Mas escalar o Hillary nessas condições é uma raríssima exceção hoje em dia).
Um dos grandes problemas deste trecho da escalada não tem a ver com as condições da geografia. É o engarrafamento formado na base do Escalão para subi-lo. Como chegar ao cume do Everest, de uns tempos para cá, tornou-se um belo negócio e uma porta de entrada para a fama, o número de alpinistas rumo ao cume de uma só vez tornou-se absurdo.
Por isso, na maioria das temporadas, há que se esperar muito tempo até conseguir atar-se à corda e subir o Escalão. Ou pior: para o alpinista que está descendo, já com oxigênio no limite, exausto e com a mente em câmera lenta, ver uma enorme fila esperando para subir – e ele esperando para descer – pode ser exasperador.
O emaranhado de cordas (novas e antigas) usadas para escalar a parede de 12 metros de altura
A visão oposta. A foto foi feita do alto do Escalão Hillary, mostrando o alpinista no meio do Degrau, outros esperando para subir e uma cornija da Aresta Sudeste abaixo
Esta foto foi feita durante a subida do Escalão Hillary. É esta a visão que os alpinistas têm ao escalá-lo: mais de dois mil metros abaixo, o abismo leva ao Vale do Silêncio
O Escalão Hillary é tão pronunciado que dá para vê-lo de Tengboche, vila na trilha do caminho para o Campo Base, com uma potente teleobjetiva.
CRISTA OU RAMPA DO CUME
Cinco alpinistas já transpassaram o Escalão Hillary e partem para a última etapa: a rampa do cume
Transposto o Escalão, o cume está bem próximo. Do alto do Escalão Hillary ao cume, o tempo de escalada varia (em média) de 30 minutos a uma hora, dependendo das condições físicas.
Mas são os 60 minutos mais penosos da vida... Não são poucos os relatos de alpinistas que dizem ter “a sensação de estar embaixo d’água. A vida se move a ¼ da velocidade normal, o mundo fica em câmera lenta, um passo é um sacrifício gigantesco e, mesmo com oxigênio, é preciso parar a cada dois passos, apoiar-se sobre os joelhos e tentar respirar. A máscara congela pela condensação, os óculos embaçam com a respiração. É como estar no espaço”.
A visão do ângulo oposto: a rampa que leva ao cume (com as cordas fixas de segurança), o topo do Escalão Hillary, a Aresta Sudeste e, ao fundo, o Cume Sul
A rampa de neve levemente ondulada tem uma menor inclinação e o negócio é ir como dá: devagar, buscando o ar, parando a cada passo e olhando para o fim do caminho, cada vez mais próximo.
Então, de repente, uma surrada vara de medição, feita de alumínio, chama a atenção. Bandeiras de oração budistas tremulam ao vento. Oferendas e fotografias amontoam-se umas nas outras.
Não há mais o que subir. Este é o cume do Everest.
O vasto e seco platô tibetano perde-se no horizonte de um lado.
Todo o árduo caminho realizado para chegar até aqui, pelo Nepal, de outro.
E a Cordilheira do Himalaia descortina-se até onde a vista pode alcançar. São 360 graus de visão límpida, imensa, inimaginável e indescritível.
Quem consegue chegar até aqui foi acolhido e abraçado por Miyolansangma, a deusa do Everest.
Foto Waldemar Niclevicz
Acima dele, apenas as nuvens. Abaixo, todo o resto do mundo.
Namastê.