Campo 4, a "Zona da Morte"

by Patricia Paladino 15. maio 2009 16:27

Foto Alan Arnette

Membros da expedição O Meu Everest:

Enfim, chegamos ao Campo 4. O último acampamento montado na montanha. Para chegar aqui, tivemos que percorrer um enorme caminho para o alto. Atravessar a Cascata de Gelo algumas vezes, e realizar várias escaladas de aclimatação aos três primeiros acampamentos de altitude.

Portanto, já devidamente aclimatados, vamos conhecer a “Zona da Morte”.

 

CAMPO 4  (C4)

Altitude: 8.016m
Localização: Colo Sul
Tempo de escalada (C3-C4):
até a Yellow Band: cerca de 3 horas
da Yellow Band ao Geneva Spur: cerca de 2 horas
do Geneva Spur ao Colo Cul (C4): 1 hora ou menos
Tempo total (C3-C4): cerca de 6 horas

Mapa Alan Arnette

O Campo 4, último acampamento antes do Cume, está localizado no Colo Sul, um platô de neve gigantesco para onde as equipes se dirigem apenas no dia do cume e para onde voltam após a extenuante escalada

  

À esquerda, a rota de subida do Campo 3 ao Campo 4. No mapa à direita, a localização dos dois acampamentos: o 3, na Face do Lhotse e o Campo 4, no Colo Sul, na interseção do Lhotse com o Everest

 

Antes de conhecermos o Campo 4 propriamente dito, vamos ver os dois marcos da rota entre o 3 e o 4: a Franja Amarela (Yellow Band) e o Esporão de Genebra (Geneva Spur), ambos localizados na inclinada parede do Lhotse. 

 

O time de alpinistas se aproxima da Franja Amarela, tendo ao fundo, no topo da parede do Lhotse, o Esporão de Genebra

A Yellow Band é uma parede de rocha, um "depósito de arenito", como chamam. E que ainda guarda resquícios de solo marinho: o Everest, antes da formação da Cordilheira do Himalaia, era, na verdade, uma montanha "subaquática" e ainda há rochas deste tempo (mais de 65 milhões de anos atrás...) próximo ao cume. Para transpor este degrau de rocha com cerca de 70 metros inclinados, são necessários 100 metros de cordas fixas. Uma das dificuldades está em atravessá-la com os crampons, próprios para neve, já que a base é rocha.

 

       

 A visão da crista que separa a Parede do Lhotse do Colo Sul e do Campo 4. À direita, em plena ação no Esporão de Genebra

Já o Esporão de Genebra (cujo nome, Geneva Spur, foi dado pela expedição suíça que quase chegou ao cume do Everest em 1952, um ano antes do desbravamento de Hillary e Tenzing) é uma crista do fim da face do Lhotse, o último obstáculo antes de chegar ao Colo Sul. Para atravessá-lo, é necessário escalar uma parede de rocha - não tecnicamente difícil, mas extenuante a esta altitude.

 

Enfim, o Campo 4. A 8.000 metros de altura. A "Zona da Morte", com pouco mais de 1/3 do oxigênio disponível ao nível do mar. Onde as expedições chegam para aguardar a subida ao cume, e para onde voltam após tocar o Teto do Mundo. Um porto seguro com pouco ar...

Este é um local para o qual o corpo humano decididamente não foi projetado para sobreviver e onde literalmente definha e começa a entrar em colapso. Por isso, os alpinistas chegam ao Campo 4 no dia do ataque ao cume, descansam, comem alguma coisa (os poucos que conseguem, na verdade) e hidratam-se com água, bebidas revigorantes e chá quente.

Morey, por exemplo, disse que o time Yellow deve chegar na tarde do dia 18 ao Campo 4 e partir rumo ao cume às 21h do mesmo dia. Depois da escalada, eles voltam a este acampamento e (uma decisão que a líder Adele Pennington irá tomar após todos voltarem), pernoitam ali e descem ao Campo 2 no dia seguinte.

O lixo acumulado nas temporadas anteriores, que desrespeita a montanha e torna o Campo 4 o mais alto lixão do mundo. As expedições são obrigadas a trazer seu lixo para baixo, mas poucas o fazem. Mas não há só lixo ali: há algumas temporadas havia o cadáver de um sherpa, conservado pelo frio, que jazia tranqüilamente entre farrapos de barracas, cilindros de oxigênio usados, restos de corda e de equipamentos. Não sei se já removeram o corpo, mas acho que não. Reparem, na foto, as duas "agulhas" fincadas na montanha (ai, ai...). São equipamentos para o monitoramento do clima...

Aqui não dá para relaxar. O organismo está sofrendo os efeitos da altitude (é impossível alguém se sentir “bem” a 8 mil metros), a ansiedade pelo ataque ao cume está a mil e o esforço para chegar aqui é grande.

Este acampamento é onde o lixo das expedições mais se acumula. É montado sobre um platô de neve e rocha, confluência entre a rota de subida do Everest e a do Lhotse. Como dissemos há alguns posts, se fosse uma estrada, haveria uma placa: “Para o cume do Everest, vire à esquerda”.

 

O Colo Sul é um platô trapezoidal, com 100 metros de comprimento por 50 metros de largura, que se estende da base da pirâmide do Lhotse até a do Everest. É formado por gelo e rochas (cuja neve é constantemente varrida pelo vento, por isso não acumula sobre o solo), com uma temperatura congelante e bastante exposto aos ventos. Ali, quando o jet stream (que são ventos fortíssimos) bate na parede final do Everest, desce "espremido" pela geografia do Colo Sul (como num vale, em V) e atinge velocidades imensas - muitas vezes mais altas do que os ventos no próprio cume.

Este platô tem como margem oriental um abismo de 2.133 metros, caindo até o Tibet (pela Face Kangshung do Everest), e de 1.219 metros até o Vale do Silêncio (que é por onde as expedições sobem pela rota nepalesa). O Campo 4 é montado na beira deste lado do abismo (com total segurança), voltado para o Vale do Silêncio e para os acampentos inferiores. 

Este é o último acampamento... De onde se avista com clareza a pirâmide do Everest já bem perto (quer dizer, perto nas dimensões himalaias!). A rota do cume também é claramente avistada. É olhar, mirar o objetivo... e aguardar o chamado.

Vamos dar uma olhada no que Carlos Morey verá quando chegar ao Campo 4:

   

               No Colo Sul, olhando para o Sul                                      No Colo Sul, olhando para o Leste

    

             No Colo Sul, olhando para o Sudeste                                  No Colo Sul, olhando para o Oeste

    

             No Colo Sul, olhando para Noroeste                                    No Colo Sul, olhando para o Nordeste 

 

Este é o lugar onde Carlos Morey estará daqui a três dias. Mas nós chegaremos ao cume antes dele: no domingo vamos conhecer a rota para o Topo do Mundo, com todos os marcos do caminho: a Plataforma Balcony, o Cume Sul, a Aresta Sudeste, o Escalão Hillary e a rampa final.

Namaste.

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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