Caros membros da expedição O Meu Everest:
Mais notícias de Morey! Não vamos esquecer que lá no Nepal já é amanhã (8h45 de diferença, para mais). Portanto, com a espera da janela de bom tempo, vamos torcer para que Morey nos envie muitos dispatches por estes dias. Neste agora ele comenta a morte do sherpa por envenenamento provocado pelo uísque clandestino, sobre o qual falamos ontem. E anuncia prováveis baixas para o cume em sua expedição. Muitos estão jogando a toalha, infelizmente. Vamos lá:
“Depois de 36 horas de muita neve, finalmente o tempo melhorou um pouco, mas até o próximo sábado, creio que não teremos nada a fazer do que esperar. Essa deve ser a tendência dos próximos dias.
Vou procurar manter a mente ocupada e se o tempo permitir farei algumas pequenas caminhadas pela região para manter os músculos quentes.
Infelizmente ontem morreu mais um sherpa e um outro está muito ruim. O motivo da morte não é incomum para nós brasileiros, mas tem sido muito comum aqui. Os dois sherpas tomaram um porre de whisky batizado. E tinha sido batizado com metanol. Parece que tem sido comum a importação ilegal de bebidas alcoólicas do Irã e Paquistão e não está sendo incomum pessoas passarem mal com a bebida.
Hoje tentamos um resgate do sherpa que está internado no HRA, mas o tempo ainda estava nublado e ventoso. Tomara que amanhã consigamos.
Felizmente, para mim, estou de Lei Seca. Até concluir a minha missão aqui não corro o risco de experimentar essas bebidas.
O que surpreendeu de verdade foi o comportamento do nosso guia argentino, Willie Benegas. Desde a notícia do envenamento pelo whisky dos sherpas, ele não sai da tenda do hospital. Passou a noite ao lado do sherpa. A sua preocupação com o local (segurança, poluição etc) e com os sherpas é impressionante. Ele vê um sherpa sem crampom ou sem cadeirinha num lugar perigoso, e logo chama a atenção. E depois chama o chefe dele para conversar. Parabéns... Não é à tôa que tem sete cumes do Everest...
Hoje o Peter veio conversar comigo. Tenho visto, ao longo dos dias, que o brilho saiu da sua face. Ele jogou a toalha. O tempo em Pheriche não foi suficiente para ganhar força e energia para continuar. Ele deve começar a voltar para casa amanhã. O próximo, creio, deve ser o David.
O Neil, mesmo com o problema nas costelas, se mostrou bem no retorno ao Campo Base. Pode ser o elemento que complete o time de 10 para o Summit Push.
O Charles Klein também tinha me perguntado sobre como é o caminho do Campo 3 ao 4. Ele começa pela Face do Lhotse, cruza a Faixa Amarela e vai acompanhando uma parte rochosa da Face, o Geneve Spurs, até chegar ao topo, aos 8.000m, local do Campo 4. Peguei uma foto e desenhei o caminho.
O caminho do Campo 3 ao Colo Sul, onde fica localizado o quarto e último acampamento antes do cume
Vou ficar devendo as fotos do local de onde saiu o gelo para a avalanche porque sumiu a expansão USB que usava para descarregar as fotos. Espero que achem... Pois senão... No Picts...
Abraços,
Morey”
Willie Benegas é velho conhecido de quem anda pelas bandas do Everest. Experiente alpinista, é reconhecido por este espírito "antigo" de relação com a montanha e o montanhismo - que, infelizmente, nem todos têm hoje em dia. Para alpinistas de elite, como ele, nada é mais importante do que uma vida em risco na montanha. Não importa cume, não importam os recordes. Importa é resgatar ou atender alguém em dificuldades. Dave Hahn, Ed Viesturs, Conrad Anker, David Breashears e Pete Athans também são alguns dos membros desta antiga (e bendita) confraria. Benegas já guiou alpinistas e clientes para várias expedições, ao longo dos anos, e nesta temporada está guiando na Jagged Globe - que bom para a equipe!
Benegas em "trajes civis" e em ação, em um de seus sete cumes no Everest
Morey manda a foto da rota entre o Campo 3 e o Campo 4, com os marcos do caminho entre eles (Yellow Band e Geneve Spur). Aliás, é para lá que nós vamos amanhã aqui na nossa expedição! Conhecer o caminho e o Campo 4 - a Zona da Morte, e o porto seguro da volta do cume.
Até lá.
Namastê.