Foto Carlos Morey
Queridos membros da Expedição O Meu Everest,
temos notícias fresquinhas de nosso alpinista, Carlos Morey, que retornou de sua última escalada de aclimatação. Ele nos conta em detalhes como está sendo sua adaptação à comida, à altitude, à máscara de oxigênio... e sempre com um ótimo humor. Isso é sinal de que ele está forte, tranqüilo, confiante, seguro e bem-humorado. Tudo o que um alpinista precisa para alcançar o Topo do Mundo. Aliás, ele nos adianta que a data do cume está marcada: 16 de maio. Se não mudarem as condições climáticas, se segurem nas poltronas porque este será O Dia!
Ele também descreve alguns detalhes do caminho que nós, da Expedição O Meu Everest, estamos fazendo junto com ele. Quem é membro assíduo já conhece as paragens as quais Morey se refere. A quem não lê todos os posts, convido que dê uma olhadinha em nosso arquivo. Todo o persurso descrito por Morey neste dispatch está postado no blog, com lindas fotos, altitudes, curiosidades e descrições.
Vamos ao que interessa. Com a palavra, o nosso alpinista brasileiro:
"Acampamentos
Faço uma analogia do Acampamento Base do Everest com um sorvete coberto por aquela farofa. E, em cima da farofa, colocamos as barracas. Durante a noite, frio, não há problema. Mas durante o dia, com o calor, o sorvete vai derretendo e a farofa começa a se movimentar. O terreno vai mudando ao longo dos dias...
Acima do Acampamento Base temos quatro campos. Eles ficam todos acima do Ice Fall. Assim como o Acampamento Base parece uma arena gigantesca, quando se chega acima do Ice Fall, chegamos ao Western Cwn, ou Vale do Silêncio. Ele também parece uma arena, mas bem menor. Quando digo uma arena, quero dizer que ele se parece com uma ferradura, ou a letra U ou o estádio do Pacaembu, sem o Tobogã.
O Vale do Silêncio deve ter uns 3 a 4 km de comprimento por 1 km de largura. Se você olha da entrada do U para o fundo, à esquerda está o Everest (8.850m), à direita o Nuptse (7.800m) e ao fundo o Lhotse (8.550m, quarta mais alta do mundo).
O Campo 1 (6.000m) fica logo na entrada do Vale do Silêncio e não é muito usado. Só é usado na fase de aclimatação. Outro problema dele é que ele fica muito exposto aos ventos. Vi muitas barracas destruídas. Não devemos mais usar o Campo 1. Vamos direto do Base para o Campo 2 (cansativo).
O Campo 2 (6.400m) fica a 3/4 do final do Vale do Silêncio. Ele fica na encosta do Everest. Ele tambem é conhecido como Campo Base Avançado, pois lá temos sherpas que o usam como suporte para alimentar os campos 3 e 4. Um sherpa está levando 50kg (!!!) do Campo 2 ao Campo 4 por US$ 400.
Do Campo 1 ao 2 devem ter 2 a 3 km. Nós estamos levando duas horas... Passo de tartaruga morta... Quem pediu pedrinha do Campo Base vai levar do Campo 2, pois com certeza é do Everest. Quem pediu nevinha... vai levar água.
O Campo 3 (7.400m) fica na encosta do Lhotse. Os sherpas fazem terraços como em Macchu Pichu e lá colocamos as barracas. Do Campo 2 ao 3 levamos 2 horas até o final do Vale do Silêncio, mais umas 4 horas para subir uma parede gelo de uns 500m com inclinações de 45 a 70 graus. Terrível... Aqui parecemos umas lesmas mortas. Além de perigoso... É como se tivéssemos três torres como o CENU ou o Rio Sul, inclinadas... Ja passei por lá duas vezes... Só falta no ataque ao cume.
O Campo 4 ainda não conheço... Mas fica na junção da lateral esquerda do U (Everest) com o fundo (Lhotse). Ele fica a 8.000m e é conhecido como Colo Sul.
Aclimatação
Hoje voltamos do período de aclimatação. Com isso concluímos essa fase. Digo isso de mim, Doug, Nick e Bill. O Ian e o Kevin voltam amanhã para o Campo Base. E a Amanda e o Neil_A depois de amanhã.
Nós quatro fomos super bem. Concluímos a aclimatação ao Campo 3 (7.400m) um dia antes do previsto. O Chris, que já esteve no Everest, não dormiu no Campo 3, mas está pronto para o ataque.
Só não completaram a aclimatação o Peter, o Dave e o Neil com problemas nas costelas. Pelo menos estamos com um time de nove que fizeram a aclimatação e estão prontos para o ataque final.
Alimentação
Antes de iniciar a aclimatação tivemos a oportunidade de selecionar as comidas de cada um para os acampamentos superiores. Parecia um supermercado sem caixa. Mas eu sofri um pouco e estou pagando o preço. A grande maioria eram produtos ingleses. Não conhecia as marcas, os conteúdos e os sabores.
Por exemplo, as sopas só tinham duas cores, verde e vermelho. Peguei algumas. Agora descobri que existe um pequeno carimbo que identifica o sabor. Só peguei sopas de tomate e de cogumelos. Poderia ter outras variedades. Dancei... Pois os sherpas já levaram as comidas escolhidas para os campos destinados.
Outro exemplo, barra de cereais. Peguei umas tal de Alpen... Horríveis... Poderia ter pego umas conhecidas como FlapJack (350kCal)...
Queria ver se fosse o oposto. Um inglês ter que escolher as comidas brasileiras. Eu iria dar umas comidas típicas liofilizadas nossas, como por exemplo feijoada, vatapá, sarapatéu, buchada de bode etc. Pode ser que eles não gostem, mas que iriam deixar um belo rastro na neve...
Oxigênio suplementar
Outro item que fizemos antes de aclimatar e já usamos no Campo 3 foi o oxigênio suplementar. A 7.500m não existe uma densidade suficiente para a vida humana. O Campo 3 (7.400m) já está próximo dessa altitude. Sem O2 nós nos sentimos um nada...
Então, quando dormi lá, aproveitei para testar a nossa máscara, não comum aos demais escaladores, Top Out (http://www.topout.co.uk). Até que não senti muito problema. Vamos ver como é andar com ela. E carregar os cilindros de O2, que pesam uns 6kg cada... E, dependendo da regulagem, podem durar de 16 horas a 4 horas.
Programação
Com a chegada de todos ao Campo Base amanhã, iremos passar por um período de descanso. A nossa expectativa de cume é no dia 16/05. Com isso devemos sair do Campo Base para cima no dia 12/05. Ate lá, descanso. Provavelmente iremos descer até 4.300m, em Pheriche, para um lodge bem confortável antes de partir para cima de novo.
Depois vou trabalhar melhor as fotos. Os lugares são muito lindos para não poder compartilhar esse momento agora com vocês.
Abraços,
Morey”
Que dispatch bacanérrimo, não? Cheio de detalhes e de curiosidades que só quem está lá pode sentir. Só temos que ficar na torcida e aguardar com a mesma expectativa das expedições reais o dia do assalto ao cume! Mas antes disso, claro, ainda vamos conhecer o percurso do Campo 3 ao Campo 4, o Colo Sul, a rota de escalada até o cume, os marcos do caminho... Nossa expedição ainda tem muito chão - e novidades - pela frente.
Queria só dar um pitaquinho pessoal: quando o Luciano Pires (nosso mentor e líder desta expedição!) me chamou para escrever sobre o Everest, eu pulei de alegria. É uma forma de estar lá, e de compartilhar com quem também ama essa montanha um pouquinho do que eu aprendi em 12 anos de estudos e pesquisas...
Mas nem em meus sonhos mais malucos imaginei que iria curtir tanto como estou curtindo. Reler os livros e rever os documentários pra relembrar fatos, datas, marcos. Pesquisar as fotos mais legais para ilustrar o que estou querendo mostrar quando escrevo. Ler os dispatches de Morey, e esperar por eles atualizando trocentas vezes a caixa de entrada do e-mail... Saber que "um de nós" está lá (e que, de certa maneira, estamos indo junto)... tudo isso está sendo muito bacana.
Eu espero que todos os membros dessa nossa expedição estejam curtindo pelo menos 10% do que eu quando escrevo os posts e acompanho os relatos do Morey.
Valeu, Luciano, por ter me incluído no "seu Everest".
E a todo mundo, adiante! Rumo ao cume!
Namastê.