Última subida antes do cume

by Patricia Paladino 29. abril 2009 17:23

O paredão inclinado do Lhotse, quarta montanha mais alta do mundo e vizinha ao Everest. Ele é o caminho para o Campo 3, para onde se dirigem as expedições esta semana, na última etapa de aclimatação

 Todas as expedições presentes no Everest estão seguindo para a última escalada de aclimatação antes do descanso pré-cume. Hoje, 29 de abril, segundo o último dispatch de Morey, o time da Jagged Globe (ou os que estão fortes e sem problemas de saúde) está fazendo a primeira incursão ao Campo 3, a 7.400m.

O programa de aclimatação (como tudo na montanha) é definido pela natureza. A "janela" de bom tempo existente no Everest antes da monção de verão - que torna impossível a subida - geralmente acontece entre a segunda e a última semana de maio. E é assim, de trás para a frente, que os times executam seu processo de aclimatação e o fortalecimento físico e técnico dos alpinistas para a subida final.

Por isso todos seguem o percurso ao mesmo tempo. É claro que, como nos contou Morey sobre sua equipe, há os imprevistos físicos que assaltam alguns membros. Este é o "processo de seleção natural" do Everest. A altitude vai debilitando e causando problemas. A estes não resta outra alternativa a não ser: melhorar ou desistir. E a melhora deve ser rápida, para que o processo individual de aclimatação acompanhe o do grupo que se mantém forte. Portanto, daqui a poucos dias já saberemos quem vai e quem não vai continuar a jornada.

Relembrando o cronograma de Morey para esta semana:

hoje, 29 de abril, ele está fazendo o reconhecimento do Campo 3; na quinta e na sexta, descansa no Campo 2 (Campo Base Avançado); no sábado, ele sobe novamente ao Campo 3 e pela primeira vez passa uma noite lá; no domingo, descida e descanso no Campo 2; e na segunda-feira, volta ao Campo Base. Neste dia esperamos um dispatch de Morey, contando como foi seu encontro com os 7.400 metros.

 

Este é o percurso de Morey (e das demais expedições) esta semana

Muitos se perguntam por que esse sobe e desce. Já falamos sobre a aclimatação - a adaptação gradual do organismo humano ao ar rarefeito (não esquecemos que, no Campo Base, há apenas 50% do oxigênio disponível ao nível do mar para os pulmões dos alpinistas. No topo, a mísera porção de 30%!). Mas uma parte importante do processo se refere às incursões para pernoite. A máxima do alpinismo de altitude é: "suba alto e durma abaixo". Ou seja: se a equipe está dormindo no Campo 2, faz uma subida ao 3, desce e dorme no 2. Só após a primeira ida a uma altitude maior (e pernoite abaixo) é que se dorme mais acima. É isso o que Carlos Morey estará fazendo até domingo. Ele subiu hoje ao Campo 3. Desce, descansa dois dias e sobe de novo - dessa vez para dormir acima do 7 mil metros.

Depois disso, é preparar-se para a janela de bom tempo - quando os times partem para um descanso a uma altitude bem mais baixa do que a última alcançada. No caso da expedição da Jagged Globe, eles irão, no início da semana que vem (e por cinco dias), para Dingboche ou Periche, vilas da trilha para o Campo Base, coladinhas uma à outra, a 4.200 metros - quase 3 mil metros de desnível em relação ao último acampamento. Pelo cronograma inicial da expedição, e que nos foi passado, o descanso seria em Dingboche. Entretanto, Morey disse em seu último dispatch que está prevista a ida para Periche. Quando ele voltar ao Campo Base saberemos para onde eles irão.

Muitas expedições preferem não descer tanto. Primeiro porque não acham que isso seja absolutamente necessário - a altitude do Campo Base já é o suficiente, nesta visão. E segundo porque querem evitar o desgaste físico desta caminhada. Outras estratégias defendem que descer a uma vila é necessário não apenas física, mas também psicologicamente. É muito bom para levantar o ânimo da equipe.

 

A vila de Dingboche, para onde irão os alpinistas da Jagged Globe após a descida para o Campo Base. Eles permanecerão ali por cinco dias, recuperando-se física e psicologicamente. E preparando-se para a arrancada final ao cume. Notem, na foto, a linda montanha nevada à direita. É o Ama Dablam, que muitos himalaístas consideram a mais bela da região. Com 6.856 metros, seu nome significa "Colar da noiva", uma referência aos adornos de turquesa e coral que as sherpanis usam. A montanha tem uma característica que evidencia ainda mais sua beleza: tem uma geografia perfeita, do cume ao solo, em um imenso paredão.

A vila de Periche. Na verdade, como Dingboche, Periche pode ser considerada mais como um "assentamento", já que só permanece ocupada durante o verão, com uns poucos lodges (hospedarias) e pequenas cabanas que servem de refúgio para os pastores de iaques. Periche fica um pouco mais próxima do Campo Base do Everest 

A escalada dos gigantes himalaios é, antes de tudo, um exercício de paciência. Ali, nunca se pode esquecer, a montanha e a natureza determinam quem chega ou não ao final do sonho. Estes homens e mulheres estarão, daqui a duas semanas, em um local para o qual o corpo humano absolutamente não foi desenhado (falaremos sobre isso mais próximo do dia do cume). Resta tentar adaptar-se a essa magnitude...

Namastê!

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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