O paredão inclinado do Lhotse, quarta montanha mais alta do mundo e vizinha ao Everest. Ele é o caminho para o Campo 3, para onde se dirigem as expedições esta semana, na última etapa de aclimatação
Todas as expedições presentes no Everest estão seguindo para a última escalada de aclimatação antes do descanso pré-cume. Hoje, 29 de abril, segundo o último dispatch de Morey, o time da Jagged Globe (ou os que estão fortes e sem problemas de saúde) está fazendo a primeira incursão ao Campo 3, a 7.400m.
O programa de aclimatação (como tudo na montanha) é definido pela natureza. A "janela" de bom tempo existente no Everest antes da monção de verão - que torna impossível a subida - geralmente acontece entre a segunda e a última semana de maio. E é assim, de trás para a frente, que os times executam seu processo de aclimatação e o fortalecimento físico e técnico dos alpinistas para a subida final.
Por isso todos seguem o percurso ao mesmo tempo. É claro que, como nos contou Morey sobre sua equipe, há os imprevistos físicos que assaltam alguns membros. Este é o "processo de seleção natural" do Everest. A altitude vai debilitando e causando problemas. A estes não resta outra alternativa a não ser: melhorar ou desistir. E a melhora deve ser rápida, para que o processo individual de aclimatação acompanhe o do grupo que se mantém forte. Portanto, daqui a poucos dias já saberemos quem vai e quem não vai continuar a jornada.
Relembrando o cronograma de Morey para esta semana:
hoje, 29 de abril, ele está fazendo o reconhecimento do Campo 3; na quinta e na sexta, descansa no Campo 2 (Campo Base Avançado); no sábado, ele sobe novamente ao Campo 3 e pela primeira vez passa uma noite lá; no domingo, descida e descanso no Campo 2; e na segunda-feira, volta ao Campo Base. Neste dia esperamos um dispatch de Morey, contando como foi seu encontro com os 7.400 metros.
Este é o percurso de Morey (e das demais expedições) esta semana
Muitos se perguntam por que esse sobe e desce. Já falamos sobre a aclimatação - a adaptação gradual do organismo humano ao ar rarefeito (não esquecemos que, no Campo Base, há apenas 50% do oxigênio disponível ao nível do mar para os pulmões dos alpinistas. No topo, a mísera porção de 30%!). Mas uma parte importante do processo se refere às incursões para pernoite. A máxima do alpinismo de altitude é: "suba alto e durma abaixo". Ou seja: se a equipe está dormindo no Campo 2, faz uma subida ao 3, desce e dorme no 2. Só após a primeira ida a uma altitude maior (e pernoite abaixo) é que se dorme mais acima. É isso o que Carlos Morey estará fazendo até domingo. Ele subiu hoje ao Campo 3. Desce, descansa dois dias e sobe de novo - dessa vez para dormir acima do 7 mil metros.
Depois disso, é preparar-se para a janela de bom tempo - quando os times partem para um descanso a uma altitude bem mais baixa do que a última alcançada. No caso da expedição da Jagged Globe, eles irão, no início da semana que vem (e por cinco dias), para Dingboche ou Periche, vilas da trilha para o Campo Base, coladinhas uma à outra, a 4.200 metros - quase 3 mil metros de desnível em relação ao último acampamento. Pelo cronograma inicial da expedição, e que nos foi passado, o descanso seria em Dingboche. Entretanto, Morey disse em seu último dispatch que está prevista a ida para Periche. Quando ele voltar ao Campo Base saberemos para onde eles irão.
Muitas expedições preferem não descer tanto. Primeiro porque não acham que isso seja absolutamente necessário - a altitude do Campo Base já é o suficiente, nesta visão. E segundo porque querem evitar o desgaste físico desta caminhada. Outras estratégias defendem que descer a uma vila é necessário não apenas física, mas também psicologicamente. É muito bom para levantar o ânimo da equipe.
A vila de Dingboche, para onde irão os alpinistas da Jagged Globe após a descida para o Campo Base. Eles permanecerão ali por cinco dias, recuperando-se física e psicologicamente. E preparando-se para a arrancada final ao cume. Notem, na foto, a linda montanha nevada à direita. É o Ama Dablam, que muitos himalaístas consideram a mais bela da região. Com 6.856 metros, seu nome significa "Colar da noiva", uma referência aos adornos de turquesa e coral que as sherpanis usam. A montanha tem uma característica que evidencia ainda mais sua beleza: tem uma geografia perfeita, do cume ao solo, em um imenso paredão.
A vila de Periche. Na verdade, como Dingboche, Periche pode ser considerada mais como um "assentamento", já que só permanece ocupada durante o verão, com uns poucos lodges (hospedarias) e pequenas cabanas que servem de refúgio para os pastores de iaques. Periche fica um pouco mais próxima do Campo Base do Everest
A escalada dos gigantes himalaios é, antes de tudo, um exercício de paciência. Ali, nunca se pode esquecer, a montanha e a natureza determinam quem chega ou não ao final do sonho. Estes homens e mulheres estarão, daqui a duas semanas, em um local para o qual o corpo humano absolutamente não foi desenhado (falaremos sobre isso mais próximo do dia do cume). Resta tentar adaptar-se a essa magnitude...
Namastê!