Morey: impressões do Ice Fall

by Patricia Paladino 18. abril 2009 13:37

                                                                                                                                                                                                                                                               Fotos de Alan Arnette

 

 Caros membros da Expedição O Meu Everest: estamos tendo notícias diárias de Morey! Com tempo de descanso no Campo Base, após ter feito sua segunda escalada de aclimatação pela Cascata de Gelo, ele tem conseguido nos enviar e-mails com mais freqüência. Então vamos aproveitar, porque ele nos conta suas impressões da travessia do Ice fall e outras novidades do Everest: 

 

“No processo de aclimatação, ontem fomos a 5.900m, ou seja, no topo do Ice Fall. Acordamos às 1h45 da madrugada com uma camada de 5 centímetros de neve. Nos vestimos (parece noiva indo para o casamento). Às 2h15 estávamos tomando café numa fria noite no Himalaia. Saímos às 3h.

Posso dividir o Ice Fall em duas partes. Na primeira, na minha opinião a mais chata, é formada por ondas congeladas. Talvez umas 10 a 15 delas, com alturas variando de 5 metros a 10 metros. E temos que subir e descê-las para chegar à segunda parte. Nesse primeiro trecho não é necessário segurança.

No segundo trecho, aí sim comecamos a subir a encosta. E como existe um risco de escorregar por dezenas de metros. Sabe-se lá aonde... Nós usamos a proteção de um mosquetão preso à cadeirinha,  preso a cordas fixas. As cordas fixas são colocadas nesse ponto pelos "Doctors". 

Essas cordas fixas são presas por segmentos de até 25 metros. No pior caso, é esse o tamanho da queda. O lugar onde as cordas são presas é conhecido por ancoragem. As ancoragens são feitas por parafusos de gelo ou estacas.

Além das cordas fixas, existe o auxilío das escadas. Quando existem fendas nos gelos (gretas) ou paredões para serem superados, os "Doctors" instalam as escadas. Elas são de alumínio e têm 4 metros. Acreditamos que existam umas 30 em todo Ice Fall (vou contar da próxima vez). Elas podem ser horizontais para cruzar uma greta ou verticais para subir os paredões.

Felizmente, este ano as horizontais são simples (uma só escada). Ou seja, por mais que as gretas tenham dezenas de metros de queda, a travessia é curta. Houve anos em que tiveram quatro escadas amarradas por cordas para cruzar esses abismos. Isso daria uns 12 a 15 metros de travessia. Nas escadas verticais existe uma de dupla e uma tripla. 

Levei 5h30 para chegar ao objetivo e 3h para descer. Como sou muito crítico, acho que poderia ser melhor, mas esse tem sido o meu desempenho acima dos 5 mil metros. Antes dessa altitude eu parecia um cabrito ensandecido, subia e descia todos os caminhos com um bom desempenho. Agora eu estou parecendo um velho doente. Mas o nível de oxigenação está bom (85) e o batimento cardíaco está em 105, isso porque quando medi estávamos falando das mulheres de Copacabana. O médico daqui precisa conhecer o Rio...

Outra celebridade que está aqui é o sr. Chris Bonnington. Ele foi o primeiro a subir o Everest pela Face Oeste, nos anos 60 e está acompanhando seu filho, que abriu uma empresa de turismo de aventura na Austrália.

Hoje e amanhã serão dias de descanso. Na segunda-feira voltaremos ao Ice Fall. O objetivo será dormirmos no Campo 1 (5.900m) e na terça ir ao Campo 2 (6.400m) para a aclimatação a essa altitude. Voltamos ao Campo 1 para dormir. E na quarta-feira voltamos para o Campo Base. Durante esse período ficaremos sem comunicação.

Aqui temos apenas um notebook (Panasonic velho resistente a quedas) com Windows 2000 Pro. Ele não tem o driver para as câmeras Sony. E não temos outro acesso à Internet senão este e-mail. Por isso estamos tendo dificuldades de "baixar" as fotos.

As grandes expedições - Jagged Globe, Mountain Madness, Adventure Consultants, IMG (de Eric Simonson), Himex (de Russel Bryce), RMI (de Ed Viesturs) etc - têm tido reuniões freqüentes para definir alguns parâmetros de segurança na montanha. Por exemplo:

Posicionamento das cordas fixas / Datas de escaladas / Posição dos acampamentos / Cordas e barracas reflexivas no Campo 4 e acima para facilitar os montanhistas na localização em caso de o tempo fechar / Datas de ataques ao cume / Previsão do tempo

Acho interessante essas iniciativas, principalmente se comparadas com os fatos ocorridos em 1996.  

Abraços,

Morey”

 

Vamos dar uma olhada ao que Morey se refere no dispatch:

                                                                                                                                                                                                                                   Fotos do site do alpinista Alan Arnette

 

A Cascata de Gelo do Khumbu (Ice Fall) é, literalmente, um labirinto de 700 metros de extensão...

... que sobe do Campo Base ao Campo 1. Portanto, é rota em todo o período de aclimatação, nas várias subidas e descidas que o time faz entre os acampamentos superiores...

... e, claro, é a rota final, quando as expedições já estão aclimatadas, há a janela de tempo bom e os times saem do Campo Base para o ataque ao Cume, passando pelos Campos 1, 2 e 3 e dirgindo-se, finalmente, ao Campo 4

   

Estas são as gretas a que se refere Morey. Fendas entre os blocos de gelo com centenas de metros de profundidade, e que precisam ser atravessadas pelas escadas de alumínio

                                                                                    Foto Waldemar Niclevicz

            

Este ano, pelo que disse Morey, as distâncias entre as gretas não são tão grandes, e podem ser transpostas sem precisar amarrar uma escada na outra, o que dá ainda mais instabilidade (ainda mais se você pensar que a travessia é feita com botas de escalada, com os afiados crampões na sola...)

                                                                       Foto de Waldemar Niclevicz

       

Olha a profundidade disso... Na maioria das vezes, não dá pra ver o fundo... É por essas e outras que a Cascata é um dos pontos mais perigosos de toda a escalada!

                                                                                                                                                                                                                                                                           Foto de Waldemar Niclevicz

Este é um exemplo dos "paredões" mencionados por Morey. Eles são conhecidos por séracs e alguns chegam à altura de um prédio de 10 andares!

                                          Foto Waldemar Niclevicz

   

Numa das vezes em que o alpinista brasileiro Waldemar Niclevicz atravessou a Cascata, se deparou com isso (na foto à esquerda): um paredão que, para ser transposto, foi necessário emendar cinco escadas! No centro, a subida dos alpinistas. E, à direita, a "ancoragem" a que o Carlos Morey se referiu

 

Morey mencionou, no final de seu dispatch, a "temporada de 1996". Abaixo temos um post que conta, para quem não sabe do que se trata, o que foi aquela que ficou conhecida como "a pior temporada da montanha". E inauguramos a série de "Histórias do Everest".

Continuamos na cola do Morey, à espera de mais updates.

Namastê!

 

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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