Histórias do Everest: parte 1

by Patricia Paladino 18. abril 2009 12:14

 

A mais trágica temporada na montanha mais alta do mundo

Carlos Morey se referiu à temporada de 1996. Quem gosta de alpinismo (ou do Everest) já deve ter ouvido falar dela – principalmente através do best-seller de Jon Krakauer, No ar rarefeito. Mesmo quem não gosta deve ter lido nos jornais à época. Estava pensando em fazer um post sobre segurança na montanha, e citar exatamente esta temporada como exemplo do que pode dar errado quando a logística de uma expedição é tumultuada ou confusa. O que, neste caso, causou uma série de problemas que, junto a uma mudança climática, desencadeou a mais trágica temporada do Monte Everest e resultou na morte de 15 pessoas entre ocidentais e sherpas – oito só no dia 10 de maio.

Em 1996 o fluxo de expedições comerciais ao Everest já era grande. Expedições comerciais são as promovidas por empresas especializadas em levar clientes às maiores montanhas do mundo – e o Everest é o objetivo maior. Estas agências, embora sejam presididas geralmente por grandes alpinistas e suas expedições lideradas por escaladores renomados, nem sempre selecionam seus clientes pela expertise. É claro que eu ou você – mesmo tendo os US$ 65 mil para integrar uma delas – não podemos simplesmente contratar uma dessas empresas e subir. Todos os clientes têm experiência em alpinismo, o que quero dizer é que nem todos têm a experiência necessária em grandes montanhas. O que pode ocasionar problemas sérios, quando centenas dessas pessoas se misturam, no meio de um ataque ao cume a 8 mil metros de altura.

 

                           

                        Rob Hall, líder da Adventure Consultants                 Scott Fischer, líder da Mountain Madness

 

Pois então: em 1996, Rob Hall, um alpinista neozelandês de 35 anos muito respeitado na época, com vários cumes acima de 8 mil metros no currículo, era dono da Adventure Consultants, uma dessas empresas que promovem expedições comerciais às altas montanhas. Entre 1990 e 1995, ele escalou o Everest quatro vezes e havia conseguido levar 39 clientes ao topo – 100% dos que guiou. Em 96, ele levava oito clientes (entre eles alguns nomes antes anônimos que ficariam bem conhecidos do grande público, além do jornalista Jon Krakauer: o patologista Beck Weathers, a executiva Yasuko Namba e Doug Hansen, que trabalhava nos Correios dos EUA) e dois guias (Mike Groom e Andy Harris).

 

Um outro alpinista – igualmente reconhecido por sua força, determinação e jovialidade na montanha – estava estreando como promotor de cumes para clientes no Everest. Scott Fischer, 40 anos, com sua empresa Mountain Madness, estava tentando entrar no rentável ramo de guiar clientes. E, pela primeira vez, organizava uma expedição à montanha mais alta do mundo, também com oito pessoas. 

 

Muitas outras expedições estavam na montanha naquele ano, incluindo uma totalmente despreparada: a expedição taiwanesa, liderada por Makalu Gau. Cito estes nomes porque eles estiveram entre os principais acontecimentos no Everest em 1996.

                           

             Jon Krakauer                    Beck Weathers                      Yasuko Namba                   Andy Harris

        

         Doug Hansen                        Neil Beidleman                           Makalu Gau                    Anatoli Boukreev

 

Mas o que aconteceu? Começamos pela conseqüência: clientes e guias chegaram ao cume tarde demais. Alguns ainda estavam ali às 17h – o que ultrapassa em cinco horas o horário-limite para alguém chegar ao topo do Everest e voltar ainda com luz do dia, com tanques ainda com oxigênio e sem contar com uma virada brusca do tempo ao cair da noite, não incomum nessa época do ano. 

O amerciano Ed Viesturs – o maior alpinista do mundo em atividade, que já escalou todas as 14 montanhas com mais de 8 mil metros sem oxigênio artificial e que está no Everest este ano para seu sétimo cume – tem uma máxima que diz: “Chegar ao topo é opcional; descer é obrigatório”. Pois em 1996 parece que ninguém sabia disso. Entre a série de problemas que culminaram na tragédia, estão:

  • Havia um número muito grande de alpinistas sem experiência em 8 mil metros subindo para o cume ao mesmo tempo

  • As expedições não tinham rádios com todos os guias, e alguns não funcionavam direito

  • As cordas fixas próximas ao cume não estavam instaladas, como havia sido combinado entre as duas expedições: um sherpa de cada equipe sairia na frente de todos, para fixar as cordas, e quando as expedições chegassem não teriam que esperar. Na realidade, próximo ao Cume Sul não havia nenhuma corda fixada e quem já havia chegado teve que esperar o russo Anatoli Boukreev (um dos guias da Mountain Madness), um dos guias da Adventure Consultants (Neil Beidleman) e até um dos clientes, Martin Adams, ancorar as cordas de segurança

  • Não havia, na expedição de Scott Fischer, uma ordem do líder apontando um horário-limite para o cume (após este horário, não importa onde você esteja, a ordem é: volte)

  • Na expedição de Rob Hall havia horário-limite (13h), mas ninguém, nem mesmo Hall, o cumpriu. Ele chegou ao cume em torno das 16h, amparando Doug Hansen, que havia voltado a 100 metros do cume no ano anterior. Especula-se que Hansen não atendeu à ordem de Hall para voltar novamente e então o neozelandês capitulou e o acompanhou ao topo

  • Alguns clientes-alpinistas (entre eles o próprio Krakauer) que tinham experiência em altitude e sentiam-se fortes na subida tiveram que parar na Plataforma Balcony por uma hora e meia, esperando os outros, mais lentos. Isso se deveu a uma ordem de Rob Hall para que, chegando à Balcony, o grupo se reunisse e quem estivesse à frente esperasse pelos outros. Gasto de oxigênio, frio e desperdício de energia

  • Alguns guias estavam tão exaustos quanto os clientes, por conta de fatores diversos

  • Não havia sobra de oxigênio – as garrafas levadas pelos alpinistas e pelos sherpas totalizavam 18 horas de oxigênio para cada um, o que, contando com situações inesperadas, faz com que o alpinista tenha de descer sem oxigênio artificial

  • Os dois líderes não estavam no fim da fila fazendo a “varredura” da equipe – verificando condições físicas e mandando voltar quem não estivesse apto a continuar. Muitos dos clientes queixaram-se posteriormente que se sentiram desamparados, e os que decidiram voltar, o fizeram por conta própria

Isso tudo resultou em um grande engarrafamento de alpinistas próximo ao cume na subida, o que atrasou tremendamente a descida. Quando os times finalmente se puseram em marcha para descer, muitos já estavam esgotados e a maioria com seu oxigênio no final. Para piorar, caiu sobre a parte alta da montanha uma gigantesca tempestade de neve, com ventos de 100 km/h e visibilidade zero. Isso, com a noite chegando.

                 

Estas são fotos reais de 1996: à esquerda, uma longa fila de alpinistas na Aresta Sudeste, esperando para subir o Escalão Hilllary, a cerca de 50m do cume. E, à direita, o resultado do engarrafamento: o topo do Everest tomado por alpinistas

Um grupo de alpinistas, formado por Sandy Hill-Pittman, Yasuko Namba, Beck Weathers, Charlotte Fox, Tim Madsen, Klev Shoening, Lene Gamelgaard, Neil Beidleman e Mike Groom (além dos sherpas Tashi Tshering e Ngawang Dorje) perdeu-se na tempestade e não encontrou o caminho para o Acampamento 4. No meio da noite, Shoening, Gammelgaard, Groom e Beidleman conseguiram chegar ao Campo 4 e deram as coordenadas de onde estava o resto do grupo ao guia russo Anatoli Boukreev (que teve sua atuação contestada no livro de Krakauer, por subir sem oxigênio e por voltar antes dos clientes ao Campo 4. Entretanto, no livro A escalada, Boukreev se defende afirmando que sentia-se melhor sem o oxigênio engarrafado e que o motivo de sua volta foi estar preparado, hidratado e descansado caso houvesse alguma emergência, como houve. Essa estratégia foi combinada e aprovada com o líder da expedição, Scott Fischer. Boukreev já havia feito várias tentativas de encontrar algum alpinista antes de os três chegarem ao acampamento. Sozinho, já que ninguém mais se dispôs ou tinha condições de ajudar).

Boukreev conseguiu encontrar e resgatar o grupo perdido – alguns não conseguiam andar e todos estavam esgotados e com hipotermia. Dois deles, a executiva japonesa Yasuko Namba e o patologista texano Beck Weathers, estavam aparentemente mortos. 

 

No alto da montanha, Rob Hall e seu cliente Doug Hansen estavam presos no Cume Sul, a 8.748m. Scott Fischer (que vinha sofrendo de dores no estômago durante toda a estada no Campo Base e estava esgotado com a logística e as diversas subidas e descidas tentando resolver as coisas) desfaleceu abaixo da Balcony, a cerca de 8.350m, junto ao taiwanês Makalu Gau e a seu amigo e sirdar da expedição, Lobsang Jangbu. 

 

Estas duas situações promoveram despedidas comoventes: ao ver que nada poderia fazer para ajudar o amigo, Lobsang resolve descer – para não morrer, ele mesmo. E Rob Hall, após a morte de Hansen (a que, diga-se de passagem, honrou ao ficar ao seu lado, mesmo tendo condições físicas de descer), falou, por telefone via-satélite, com a mulher, a alpinista Jan Arnold, que não o acompanhou porque estava no oitavo mês de gravidez. Por ser um alpinista experiente e um homem muito forte, Hall ainda sobreviveu (com pés e mãos congelados, sem conseguir andar, mas lúcido) até às 18h20 de 11 de maio, quando despediu-se da mulher por telefone do alto do mundo. Então seu rádio não foi  mais ouvido.

 

O resgate no local onde Hall se encontrava era praticamente impossível, por causa do tempo que não melhorava; mas com muito esforço dava para chegar aonde estavam Scott Fischer e Makalu Gau. Foi o que três sherpas fizeram, às 13h do dia seguinte ao desastre. Encontraram Fischer praticamente morto, sem qualquer reação ao oxigênio que lhe administraram, mas Gau (embora inconsciente e com pés e mãos congelados) ainda estava vivo. Eles o trouxeram de volta. No dia seguinte, Anatoli Boukreev subiu mais uma vez e despediu-se de Fischer, que conseguiu colocar todos os seus clientes no cume, mas não resistiu a ele.

 

Yasuko Namba morreu durante a tempestade, mas Beck Wheaters, inacreditavelmente, acordou de seu torpor. Esta é a maior história de sobrevivência em alta montanha de que se tem notícia: Wheaters contou depois que estava, realmente, morto. Mas de repente o ar voltou, ele lembrou-se da mulher e dos filhos nos Estados Unidos e pensou que teria que pelo menos tentar sair dali. Sabe-se lá como, após uma noite inteira e quase todo o dia seguinte sob o frio cortante do Colo Sul, por volta das 16h de 11 de maio Wheaters levantou e se pôs de pé. Além do congelamento, ele ainda tinha um outro problema, desde a subida: cegueira momentânea provocada pela altitude. Por isso ele não prosseguiu ao cume (por ordem de Rob Hall ele sentou-se em uma pequena reentrância na neve e deveria esperar ali até que Hall voltasse do topo. Ele esperou por oito horas, até ser resgatado pelo guia Mike Groom e descer a montanha enxergando quase nada, amparado pelo guia). 

 

Caminhando com os braços à frente, como uma múmia, a passos trôpegos por conta dos pés congelados, cego e sem nenhuma energia, Wheaters ressuscitou e encontrou o caminho para o Campo 4 sozinho. Quando chegou, ninguém conseguia acreditar. Após uma dura noite no Campo 4 e dos dolorosos primeiros-socorros no Campo 2, ele foi resgatado de helicóptero (foi a única vez que uma aeronave tentou pousar acima da Cascata de Gelo, onde não há ar suficiente para sustentar suas hélices) e levado a Kathmandu. Perdeu um braço, os cinco dedos da outra mão e teve o nariz amputado. Mas sobreviveu.

                        

Um feito heróico: o piloto, um oficial do exército nepalês, tenta o que ninguém nunca antes havia conseguido - pousar um helicóptero no Western Cwm, acima da Cascata de Gelo. A quase 7 mil metros de altura, o ar já é tão rarefeito que não há sustentação para as héices. Pois o piloto não apenas pousou, mas o fez duas vezes. Uma para resgatar Gau e outra para Wheaters. Outros alpinistas, como Ed Viesturs, David Breashears e Pete Athans (os três, lendas do Everest) atrasaram suas próprias expedições para empreender o resgate aos sobreviventes da tragédia. Todas as equipes, com exceção da sulafricana liderada por Ian Woodal, que se negou a prestar socorro, ficaram durante todo o tempo (desde a tempestade de 10 de maio até a descida dos sobreviventes ao Campo 2) monitorando os acontecimentos via rádio, muitas subiram até o Campo 4 para ajudar no que fosse possível e algumas (como a expedição da IMAX, da qual Viesturs e Breashears faziam parte), doaram parte de seu suplemento de oxigênio para a recuperação dos alpinistas

A Adventure Consultants e a Mountain Madness continuam suas atividades, mesmo sem Rob e Scott. Inclusive, estão no Everest este ano (como em todos os anos). São empresas sérias, dirigidas por pessoas sérias. E que desenvolveram melhor a arte de escolher clientes, equipar a expedição com alta tecnologia e cumprir a logística combinada à risca.

Quem gosta de aventuras na montanha deve ler os livros sobre a temporada. Há vários deles. Vou citar três, que li e recomendo: além de No ar rarefeito, há o excelente A escalada, do alpinista russo Anatoli Boukreev, guia da Mountain Madness em 96 e que morreu um ano depois, sob uma avalanche no Annapurna. Ele escreveu o livro para rebater as acusações de negligência feitas por Krakauer no best-seller. E no ano passado o alpinista Matt Dickinson escreveu Everest – Escalando a Face Norte, em que conta a tragédia de 1996 sob a perspectiva de quem estava do lado tibetano da montanha. 

A temporada de 1996 deixou muitas lições para as posteriores. As expedições estão mais bem aparelhadas e todos os anos acontecem reuniões como esta a que Morey se referiu, em que os líderes dos principais times combinam estratégias que garantam a maior segurança possível. 

Outras histórias em breve!

Namastê! 

 

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

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