Foto de Outdoors Adventure
Olá, membros da Expedição O Meu Everest!
Com Carlos Morey já aclimatado à altitude do Campo Base, vamos conhecer o lugar onde ele está. A idéia é ir postando fotos e informações, histórias e curiosidades a respeito dos acampamentos à medida que as expedições vão evoluindo na montanha. Assim, é como se estivéssemos "em tempo real" conhecendo cada marco do caminho. Portanto, começamos com o Campo Base - ou Acampamento Base - do Everest.
CAMPO BASE
Altitude: 5.400m
O Campo Base do Everest está localizado no Glaciar do Khumbu, na base da Cascata de Gelo, a 5.400 metros de altura. Aqui, já se respira apenas 50% do oxigênio presente ao nível do mar – o que já requer aclimatação. Por isso chegar devagar e ir adaptando o organismo à altitude é tão importante. O Campo Base é um amontoado de rochas, neve e gelo, e será o lar das expedições pelas próximas cinco ou seis semanas.
Este ano, pelas informações que tenho até o momento, estarão dividindo o espaço do Campo Base 28 expedições (entre as grandes e as menores, que não têm a infra-estrutura e o número de sherpas e guias das outras), o que vai totalizar algumas centenas de alpinistas (profissionais, guias e clientes de expedições comerciais), sherpas e pessoal de apoio morando nesta cidade lunar.
Só para se ter uma idéia, a reportagem High Times, da edição de julho de 2007 da revista americana Outside Magazine, contou que naquele ano havia 27 expedições pelo lado nepalês, totalizando, no Campo Base, quase mil pessoas em 250 barracas! Fora os cerca de 3 mil iaques que passaram ou ficaram estacionados ali.
Esta cidade é povoada por barracas. Barracas individuais para os alpinistas, barracas-refeitório, barracas-centro-de-comunicação, barracas-sanitários, barracas-chuveiro, barracas-cyber-café... Enfim, uma infinidade de barracas aportadas na base da Cascata, com uma visão maravilhosa de seu labirinto, do Nuptse – montanha com 7.861m, que margeia a escalada até o fim do Western Cwm –, do Pumori (linda montanha com 7.161m) e, claro, da parede Sudoeste do Everest, visível a partir do início da Cascata de Gelo.
Foto de Michael Reinold
O terreno pedregoso do Campo Base (as barracas em primeiro plano dão uma idéia da dimensão, ainda que distorcida pela profundidade...) com a Cascata de Gelo (ao centro), a parede Sudoeste do Everest à esquerda e o Nuptse à direita
Quando as expedições chegaram ao Base, todo o acampamento já estava montado pela equipe de sherpas, que chegou semanas antes, cavou as plataformas, construiu muros de pedras e os altares onde serão realizadas as cerimônias Puja, presididas por um lama e que antecedem a primeira subida de cada expedição.
Por estar localizado em um glaciar, é possível escutar o gelo estalando e partindo-se sob os pés – sem qualquer perigo, claro. A temperatura média é de 5°C, mas à noite, sem o sol, pode chegar a -20°, principalmente se nevar.
O Acampamento Base do Everest é, como o nome diz, a base que centraliza toda a logística e a dinâmica das expedições, capitaneadas pelo gerente do Campo Base – que não sobe com os alpinistas. Da barraca-escritório, municiada com tecnologia de última geração para previsão de tempo e comunicação, é ele quem passa os relatórios climáticos para os alpinistas nos acampamentos superiores, agiliza tudo o que for necessário subir para os acampamentos, providencia cuidados médicos de rotina e emergenciais e propicia o contato do time com o mundo exterior. Enfim, é quem mantém as coisas funcionando para que os alpinistas sigam em segurança.
Fotos de Juan Lanzagorta
O Campo Base é um lugar relativamente confortável e seguro. O gerente e os sherpas se empenham em proporcionar tranqüilidade, para que os alpinistas pensem apenas no trabalho que terão pela frente. Nas grandes barracas-refeitório há sempre petiscos, chá ou alguma bebida quente, e os cozinheiros estão sempre preparando alguma comida para manter a equipe forte.
Mas não se pode esquecer nunca que este é o Everest. E que a natureza aqui é a dona do lugar. Este ano, como foi relatado por Morey e por dispatches de outras expedições, há uma grande quantidade de avalanches, que chegam bem próximas ao Base - embora não possam atingir as barracas. Os líderes das expedições sabem muito bem onde montar seus acampamentos.
Foto International Mountain Guides (IMG)
Avalanche descendo da parede do Pumori e atingindo o Campo Base
Muitas histórias correm a respeito do Campo Base do Everest. Como há muitas expedições comerciais presentes na montanha (que guiam clientes que pagam até U$ 65 mil para chegar ao cume e nem sempre são alpinistas experientes nem muito comprometidos com a essência do esporte), às vezes o lugar vira cenário de belas festas. A reportagem da revista Outside relatou que, na temporada de 2007, um campeonato de pingue-pongue e outro de beisebol aconteceram no Campo Base. Instalaram uma barraca para massagens, um Cyber Café, potentes banhos com energia solar e, em uma das expedições, havia uma coleção com 60 DVDs! E que, enquanto esperam uma janela de tempo bom para subir aos acampamentos superiores, não é raro haver uma rodinha de alpinistas muito animados bebendo alegremente – e muito namoro, é claro.
Este comportamento festivo não é exclusividade dos clientes das expedições comerciais. O alpinista russo Anatoli Boukreev, em seu livro A escalada, conta que muitos alpinistas profissionais também caem na farra. "Você é no Everest o que você é fora do Everest", diz ele no livro. Claro que todo mundo deve relaxar, se divertir. Afinal, a escalada é, antes de tudo, uma comunhão com a montanha e com as pessoas na montanha. Mas, para Boukreev, o Campo Base do Everest virou um grande circo - e em 1996, quando escreveu o livro! A reportagem da Outside confirma que isso só aumentou.
Enfim, como toda cidade, o Campo Base do Everest tem todos os tipos de habitantes. Mas a maioria ainda é focada no objetivo e na essência do que é escalar o Everest: ultrapassar seu limite, romper a fronteira entre você e a maior montanha do mundo, deixar-se abraçar por seu cume e trazer de lembrança uma foto e uma prece do ponto mais alto do planeta. E o Campo Base é o porto seguro – de onde partem e para onde querem voltar os que amam esta montanha.
Vamos adiante...
Namastê!