Os perigos da escalada

by Patricia Paladino 9. abril 2009 12:19

O Everest é a montanha mais alta do mundo. Mas não a mais difícil, tecnicamente, de ser escalada. A vice-campeã em altura, o K2, com 8.611m, requer muito mais da habilidade técnica do alpinista – por isso, no K2 não há expedições comerciais, com clientes muitas vezes inexperientes mas que contratam guias para levá-los até lá.

Mas o Everest não é uma montanha para qualquer um. Quem a escala de forma consciente – como nosso Carlos Morey – se prepara técnica, física e psicologicamente para isso. A razão? Além de ter uma boa técnica de escalada, estes alpinistas estão cientes das condições naturais extremas (e muitas vezes imprevisíveis) que irão enfrentar.

E quais são os maiores problemas ao escalar o Everest? Todas elas decorrem de seu gigantismo. 

A força da natureza:

A natureza, no Everest, é hostil – um ambiente extremo, onde as temperaturas no cume são, em média de -36°. Mas a sensação térmica podem diminuir muito (até -60°, -70°), de acordo com o vento. Correntes de ar permanecem em sua pirâmide com a força de um furacão durante quase o ano todo – por isso, pode reparar, há sempre um feixe sobre o cume, como um véu etéreo voando incessantemente.

O feixe de vento que se torna uma tempestade

Nos meses da primavera (abril e maio), essas correntes abrandam um pouco e por isso esta é a alta temporada de escaladas na montanha. Após esta estação, as monções tornam o Everest "inescalável".

Mudanças repentinas nas condições climáticas também são constantes - e muito perigosas. Ventos e tempestades podem acontecer mesmo que o dia amanheça sem uma nuvem no céu. O resultado é a chamada White Storm, onde a visibilidade do alpinista cai, literalmente, a zero. O frio extremo pode causar hipotermia, ulcerações e congelamentos, pela preocupação do corpo em “aquecer” os órgãos vitais – o que deixa as extremidades (pés, mãos e também o nariz) com pouco fluxo se sangue.

                                                                                       Foto de Ed Viesturs para National Georgraphic

A White storm envolve os alpinistas e diminui a visibilidade de forma brusca, podendo torná-la nula

Já falamos algumas vezes da Geleira do Khumbu. O deslocamento constante da Cascata de Gelo faz com que fendas profundas se abram na neve, séracs desmoronem o ocorram avalanches. Esta é uma parte da montanha especialmente suscetível a elas.  

                                                                                    Foto de Scott Kanter para IMG

 

Avalanche descendo da parede Sudoeste do Everest em direção à Cascata de Gelo

A fragilidade do corpo humano diante do Everest:

 

O corpo humano, definitivamente, não foi feito para sobreviver a uma altitude de 8.848 metros. 

 

Ultrapassando a barreira dos 8 mil metros está o que se costumou chamar de Zona da Morte – entrar ali significa respirar apenas 1/3 do oxigênio que temos ao nível do mar. Simplesmente não há oxigênio suficiente. Este é o grande desafio de todo alpinista que quer chegar ao cume desta montanha. Não há aclimatação perfeita que supra a incapacidade natural de adaptação – a não ser para uns poucos superhomens que sobem a montanha sem garrafas de oxigênio. O corpo humano não sobrevive por muito tempo a esta altitude. 

 

É só lembrar dos jogadores de futebol que têm de jogar em La Paz, por exemplo, que sofrem de dores de cabeça, enjôos, vômitos, insônia, tontura, enfim, dos males provocados por uma altitude de cerca de 3 mil metros. Imagine que só o Campo Base do Everest já está mais de 2 mil metros acima disso!

 

À medida que sobem a montanha, o problema aumenta. É claro que alpinistas sérios, e expedições profissionais e experimentadas, sabem como driblar o problema o máximo possível – e por isso fazem diversas subidas e descidas a partir do Campo Base, em direção aos acampamentos superiores, antes de realmente tentarem o assalto ao cume.

 

Mas o corpo reage de forma imprevisível. Já houve quem se aclimatasse muito bem em uma expedição e em outra sentiu os efeitos da altitude. Porque, quando o oxigênio é limitado, o organismo compensa aumentando o fluxo de sangue para o cérebro – e, em altitudes muito elevadas, isso pode ocasionar o HACE (a sigla em inglês para Edema Cerebral de Grandes Altitudes), um inchaço cerebral que pode fazer com que os vasos sangüíneos se rompam. Outro fator potencialmente fatal é o HAPE (ou Edema Pulmonar de Grandes Altitudes), que acontece quando o pulmão acumula fluidos. Para ambos os casos, descer o máximo e o mais rápido possível é a melhor e emergencial medida. Quando isso não é viável, há medicamentos que amenizam o problema e a chamada Bolsa Gamow, que é uma câmera de alta pressão que aumenta o envio de oxigênio, simulando uma altitude menor. Isso até que o alpinista possa realmente descer a uma altitude segura.

 

Bem, isso é aterrador, mas os bons alpinistas sabem como evitar estes males da altitude. O processo de subida é minuciosamente estudado e os sinais de uma aclimatação ruim são sentidos antes que qualquer coisa mais grave ocorra.

 

Um bom alpinista conhece o risco, mas conhece ainda mais seu corpo e sua capacidade. E não titubeia em dar meia volta caso perceba algo de anormal.  

 

 

Namastê!

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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