Conheça a rota do Colo Sul

by Patricia Paladino 27. março 2009 08:38

Desde que foi desbravado pelo neozelandês Edmund Hillary e pelo sherpa Tenzing Norgay, em 1953, o Everest já abrigou mais de 2 mil pessoas em seu cume. Mas não é fácil chegar até lá. Além do enorme desafio físico e mental, a natureza não perdoa: no alto da montanha, pode-se ter uma sensação térmica (ampliada pelo vento) de até 70° abaixo de zero. Ventos fortes que podem chegar a 100 km/h também passam pelo caminho das expedições. E o ar rarefeito – o maior de todos os desafios em um gigante como o Everest – faz com que a máquina do corpo comece a falhar lentamente. 

Com apenas 1/3 do oxigênio presente ao nível do mar para respirar, mesmo com máscaras de oxigênio artificial a situação continua crítica - embora o uso da máscara "diminua" a sensação de altitude para menos 2 mil metros aproximadamente. Mas, convenhamos, a mais de 8 mil metros de altura quer dizer pouca coisa se o organismo não estiver bem aclimatado. Portanto, mesmo os que sobem com oxigênio artificial são super-homens que conseguem domar o pouco oxigênio que chega ao cérebro (que ocasiona desde apenas uma confusão mental até problemas sérios como edemas cerebrais que podem levar à morte) e aos pulmões (também atingidos por males sérios, como edemas).

Enfim, mais de 2 mil pessoas conseguiram chegar lá. Veja o que eles tiveram que passar pra tocar o Topo do Mundo: a seguir estão todos os acampamentos da rota nepalesa, pelo Colo Sul, com sua altitude (que varia em alguns metros de expedição para expedição, de acordo com o local onde são montadas as barracas. Por isso assinalo "a cerca de". Mas a altitude muda muito pouco), sua localização e o tempo médio de escalada entre um acampamento e outro. Esta rota foi a utilizada por Hillary e Norgay e é por onde o brasileiro Carlos Morey vai seguir (as fotos foram retiradas do site do alpinista Alan Arnette, e marcam a localização dos acampamentos de sua expedição):

 

CAMPO BASE DO EVEREST (CB)

Altitude: 5.400m

Este será o lar dos alpinistas pelos próximos dois meses. Uma verdadeira cidade de barracas, que une dezenas de expedições e centenas de pessoas, entre alpinistas, guias e clientes, sherpas carregadores, sherpas alpinistas, além do pessoal que fica no Campo Base, como os gerentes da expedição, os cozinheiros e pessoal de apoio.

 

É daqui que as expedições fazem suas subidas de aclimatação e para onde voltam após o final do processo, para descansar e se preparar para o ataque final. Já aqui há 50% menos oxigênio do que temos ao nível do mar. 

 

Logo no início está localizado o primeiro grande desafio da escalada: a Khumbu Icefall (Cascata de Gelo do Khumbu), um labirinto com um desnível de 700 metros de altura formado por imensas gretas (fendas no chão que podem chegar a centenas de metros de profundidade) e enormes séracs (torres de gelo que podem atingem o tamanho de um prédio de 10 andares). 

 

Antes de a primeira expedição subir, os sherpas de uma delas (que recebem das outras para isso) vão na frente abrindo o caminho, fincando os grampos, colocando as escadas de alumínio que servirão de “pontes” entre as gigantescas fendas e de auxílio para subir os séracs que encontram-se no caminho da rota.

 

A cascata está em constante movimento. Portanto, a qualquer momento uma das torres de gelo pode desabar ou as fendas alargarem-se. Isso faz com que a Icefall seja o maior dos pesadelos, mesmo para o mais experiente alpinista.

 

 

 

CAMPO 1 (C1)

Altitude: a cerca de 6.100m

Localização: Western Cwm (Vale do Silêncio)

Tempo de escalada (CB-C1): entre 4 e 6 horas

 

 

Esta é a Cascata de Gelo, um labirinto de 700 m de altura. O Campo 1 está localizado logo após seu topo.

O Campo 1 está localizado na entrada do Vale do Silêncio, ou Western Cwm, e logo após o topo da Icefall. O nome deve-se à falta de vento, o que, se ninguém disser uma palavra, provoca um profundo silêncio. Margeado pela enorme parede do Nuptse, à direita, e pela Face Sudeste do Everest, à esquerda, o calor é intenso. 

Normalmente, de início os alpinistas chegam aqui e voltam para o Base – seguindo sempre a máxima de aclimatação: suba mais e durma abaixo. Apenas após a aclimatação a esta altitude eles voltam e pernoitam.

 

CAMPO 2 (C2)

Altitude: a cerca de 6.400m

 

Localização: Western Cwm (Vale do Silêncio)

 

Tempo de escalada (C1-C2): entre 2 e 3 horas

 

O Campo 1 é o que está mais distante, na foto. O segundo triângulo marca o Campo 2 e a linha azul mostra o caminho a ser percorrido entre o 2 e o Campo 3.

O Campo 2 também é chamado de Campo Base Avançado, já que possui um pouco mais de infra-estrutura que os acampamentos superiores, e é para ondem descem os alpinistas caso algo de mais sério aconteça, até que possam descer ao Campo Base. É montado aos pés da parede Sudeste do Everest e para chegar até ele a expedição deve atravessar uma grande parte do Vale do Silêncio – que não traz muitos desafios técnicos. Mas o calor, às vezes insuportável devido à falta do vento, é o maior desafio desta parte da caminhada.

 

 

 

 

CAMPO 3 (C3)

 

Altitude: a cerca de 7.200m

 

Localização: Face do Lhotse

 

Tempo de escalada (C2-C3): entre 3 e 6 horas

 

 

À esquerda, o Campo 2 e o caminho rumo ao 3, localizado no inclinado paredão do Lhotse

O Campo 3 está localizado na inclinada parede do Lhotse, a quarta montanha mais alta do mundo, com 8.516 metros, e vizinha ao Everest. Para chegar ao acampamento, a equipe deve subir um paredão de neve e gelo com uma inclinação que chega a 80 graus em alguns trechos. É uma subida perigosa devido à inclinação, o que faz com que todos subam em fila indiana, amarrados à corda fixa, previamente instalada pelos sherpas.

Este acampamento já serviu de palco para vários acidentes, por sua inclinação. Há casos de alpinistas que saem das barracas sem os grampões nas botas e qualquer escorregão significa despencar pela Face, o que na maioria das vezes é fatal. No Campo 3, os alpinistas que vão subir utilizando garrafas de oxigênio já sentem necessidade de usá-las, pelo menos para dormir. 

 

Aqui é que se define, de forma prática, quais são os membros da expedição que estão em plenas condições físicas e psicológicas para fazer o cume. Os que estão aptos, seguem para o Campo 4.

 

 

CAMPO 4  (C4)

 

Altitude: 8.016m

 

Localização: Colo Sul

 

Tempo de escalada (C3-C4):

até a Yellow Band: cerca de 3 horas

da Yellow Band ao Geneva Spur: cerca de 2 horas

do Geneva Spur ao Colo Sul (C4): 1 hora ou menos

 

Tempo total (C3-C4): cerca de 6 horas

 

Rota acima do Campo 3, mostrando a Yellow Band (ou Franja Amarela) e o Geneva Spur

A subida do Campo 3 ao Campo 4, localizado no Colo Sul, tem dois obstáculos: as paredes da Yellow Band (Franja Amarela) e do Geneva Spur, que são trechos de escalada de rocha, sem neve, devido aos ventos. Nesta parte da subida, os alpinistas já fazem uso do oxigênio artificial – há os que escalam o Everest sem o uso de oxigênio, só com o (escasso) ar de seus pulmões. Mas são uma minoria e em geral têm grande experiência anterior nos gigantes Oitomil. 

 

O Campo 4 é o último acampamento antes do cume. É apenas um “ponto de passagem”, já que está localizado na chamada Zona da Morte – um local para o qual o corpo humano decididamente não foi projetado para sobreviver e literalmente definha e começa a entrar em colapso. Por isso, os alpinistas chegam ao Campo 4 no dia do ataque ao cume, descansam à tarde, comem alguma coisa (os poucos que conseguem, na verdade) e hidratam-se com água, bebidas revigorantes e chá quente.

 

O Campo 4 é também o porto seguro da volta. Após a descida, exaustos, os membros que fizeram o ataque ao cume dormem uma noite e partem rapidamente para os acampamentos mais baixos assim que estiverem restabelecidos do esforço.

 

 

 

 

CUME DO EVEREST

Altitude: 8.848m

 

Tempo de escalada (C4-CUME):

C4-Plataforma Balcony: entre 4 e 5 horas

Plataforma Balcony-Cume Sul (ou “falso cume”, a 8.690m): entre 1 e 2 horas

Cume Sul ao Escalão Hillary: cerca de 1 hora

Escalão Hillary ao Cume do Everest (8.848m): cerca de 1 hora

 

Tempo total (C4-CUME): cerca de 10 horas

 

A foto mostra o caminho do Colo Sul ao cume, e aponta dois dos marcos do caminho: a Balcony e o Cume Sul (South Summit). Mostra ainda o ponto de onde Alan Arnette voltou em uma de suas três tentativas de chegar ao topo

Do Campo 4 começa realmente a escalada. O time parte por volta da meia-noite e escala no escuro (apenas com a lanterna de cabeça iluminando pouco mais de um metro à frente) e em total silêncio. A alpinista Aracelli Segarra, primeira espanhola a alcançar o cume do Everest, em 1996, deu uma descrição perfeita para este momento: ela disse algo como “ali, no escuro, apenas com um pequeno feixe de luz e o silêncio absoluto cortado apenas pelo som de minha respiração sob a máscara de oxigênio, a impressão que tive é que estava escalando na Lua!”. 

Ao amanhecer os alpinistas chegam à Plataforma Balcony, local onde as expedições marcam de se encontrar, já que até ali (até pelo tráfego intenso nos dias de subida na alta temporada), as expedições se misturam, devido ao ritmo individual de cada um. Se os alpinistas tiverem fôlego para bater um papo, a Balcony pode ser considerada o ponto de encontro mais alto do mundo!

Dali eles partem para o Cume Sul, um “falso cume” de onde se avista a Aresta Sudeste, um obstáculo bem cavernoso: são 120 metros de travessia em uma trilha estreita, com ventos fortes e abismos de milhares de metros dos dois lados! Mas a segurança é total, já que há cordas fixas durante todo o trajeto, onde os alpinistas se amarram de forma segura. 

O próximo obstáculo não poderia estar em pior lugar. O Escalão Hillary, também chamado de Degrau Hillary, é um paredão vertical de 12 metros de altura de neve e rocha, por onde só pode subir um alpinista por vez. Este trânsito já acarretou tragédias na montanha, como na pior temporada do Everest (em 1996), onde, por conta deste engarrafamento e da hora avançada com que a maioria chegou ao topo, houve uma confusão enorme entre os que desciam, já debilitados, e os que ainda temiam em subir. Enfim, este é assunto para um outro post...

Voltando à escalada: após chegar ao topo do Escalão, o cume do Everest está a menos de 100 metros. Mas é justamente deste ponto que muitos retornam. Seja pelo cansaço, pela debilidade psicológica, pelo avançado da hora (o que faz com que a chegada ao topo e a volta ao Campo 4 não sejam seguros).

Os que avançam chegam a um ponto tocado por apenas 2 mil homens e mulheres: o Topo do Mundo! 

 

ROTA DE DESCIDA:

CUME-C4: entre 6 e 7 horas

C4-C2: cerca de 3 horas

C2-CB: cerca de 4 horas

Este tempo de descida é apenas para mostrar a média de tempo entre os acampamentos na descendente, uma vez que o retorno não é feito de uma vez só. E variam de acordo com o líder de cada expedição, o estado físico e psicológico de cada alpinista e as intempéries naturais.

 

ROTA COMPLETA:

Bem, este é o caminho que nosso alpinista brasileiro vai seguir. E nós também.

Namastê!

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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