Rumo ao Topo do Mundo!

by Patricia Paladino 13. março 2009 08:02

 

Fotos: Arquivo pessoal Carlos Morey

 

Entrevista / Carlos Morey

por Patricia Paladino 

O alpinista Carlos Morey, 43 anos, paulista de Campinas, estará, a partir de 27 de março, voando rumo ao seu sonho: completar o Projeto 7 Cumes, que consiste em chegar ao topo das montanhas mais altas de cada continente. Para conseguir o objetivo, só falta uma: o Monte Everest. E é isso o que ele vai tentar fazer. Morey é solteiro, sem filhos, formado em Análise de Sistemas pela Unicamp e consultor (Arquiteto de Soluções) da Hewlett Packard do Brasil há 20 anos. Se tocar os 8.848 metros do Everest, Carlos Morey será o oitavo brasileiro a conseguir ver o mundo de seu ponto mais alto. Antes dele, Mozart Catão, Waldemar Niclevicz, Ana Elisa Boscarioli, Irivan Gustavo Burda, Vitor Negrete, Rodrigo Raineri e Eduardo Keppke já tiveram este privilégio. 

E nós, do Blog O Meu Everest, estaremos lá também. Como boa alpinista virtual, irei cobrir o avanço de Morey passo a passo. Da chegada à Kathmandu ao retorno ao Brasil – e, com as bênçãos da deusa do Everest, tendo chegado ao cume. Só para dar um gostinho, entrevistei Morey sobre sua vida, sua filosofia em relação às montanhas, o Projeto 7 Cumes e, claro, sobre a expedição ao Everest. E é o que vocês vão ler agora.

 

Como você consegue conciliar sua vida profissional e a carreira de alpinista de grandes montanhas? Não é uma tarefa fácil ausentar-se durante um tempo, todos os anos, para subir montanhas...  

Sobre esse tema eu acredito que existem duas vertentes. Uma delas, se ausentar dois meses de uma empresa de informática. Sim, é muito difícil, mas tentei ver se a empresa iria me apoiar de alguma forma para flexibilizar a minha ausência. Como a HP não tem a política de tratar diferentemente os seus funcionários, eu não terei nenhum apoio. Uma outra vertente sobre essa questão é a dificuldade nos tempos atuais de você conseguir ser um ótimo profissional, um pai presente, um marido carinhoso e atuante, um membro ativo da sociedade, estar sempre em contato com os seus amigos, ter espaço para dedicar aos seus hobbies e ainda estar em visitando os vários membros da família. É uma tarefa difícil. Nos últimos meses tenho me dedicado ao meu hobby e à empresa que eu trabalho.  Tenho certeza de que quando voltar as prioridades vão mudar, mas o gosto por viajar e estar buscando superar os objetivos não devem sair de pauta. 

Como sua família encara o alpinismo de grande altitude? E de sua parte: como conciliar  a família e essa sedutora (e arriscada) empreitada?

Moro sozinho. Fomos criados de forma a cada um ser independente e responsável por nossas vidas. Minha mãe e meus irmãos não interferem nos meus projetos, assim como eu não me meto nos deles. A minha mãe não sabe bem o que significa escalar uma montanha. Sobretudo o Everest. Os meus irmãos me apóiam e torcem para que eu consiga encontrar o que eu estou procurando lá no vale do Khumbu.  

Como você começou no alpinismo?

Minha primeira escalada foi no Chile. Em 1991 eu estive fazendo turismo na cidade de Pucon. Lá vi um vulcão ativo e tive a oportunidade de escalá-lo. Para um sedentário, foi uma tarefa difícil. Em 1997 estive no Campo Base [do Everest]. E na mesma época fiz um curso de escalada em rocha. Mas o montanhismo a sério começou em 1999 quando estive no topo da África, no Monte Kilimanjaro. Lá fui apresentado ao Projeto 7 Cumes e comecei uma jornada que  se encerra com o Everest.  

O que significa o alpinismo para você? De que maneira este esporte se encaixa em sua vida?

Eu prefiro chamar de montanhismo, pois prefiro as altas montanhas e onde o preparo é diferente. Para mim o montanhismo é uma forma de você se superar e avançar no objetivo de chegar até onde não existe mais para onde subir e poder ter a visão do mundo lá de cima. Não vejo a montanha como uma inimiga, mas sim uma companheira que me dá a oportunidade de conhecê-la e apreciar a sua beleza. Eu era uma pessoa normal e sedentária. Vivia entre o trabalho e a rotina do dia-a-dia. Hoje, graças a esse meu hobby, tenho uma outra visão da vida. Apesar de ter começado tarde, com 33 ou 34 anos, hoje eu tenho uma saúde melhor e uma rotina de acompanhamento da minha saúde que nunca tive na minha vida. 

 

Morey no Campo Base do Everest, em 1997 

 

Você já esteve no Acampamento Base do Everest, em 1997, pelo lado nepalês. Qual foi o objetivo desta viagem? O que apreendeu da aventura, e que será importante nesta? 

O trekking ao Campo Base foi a primeira viagem internacional fora do eixo Europa-América do Norte. O objetivo era conhecer a Ásia, o budismo e admirar as maiores montanhas do mundo, em especial o Everest. Essa viagem é para mim um marco. A forma de eu ver a vida mudou após essa viagem. As minhas fronteiras se ampliaram, as minhas amizades aumentaram, as expectativas e os anseios também. Sou hoje uma pessoa mais tranqüila e paciente.  

Com o Everest, você completa o Projeto 7 Cumes. Como começou e quando foram os outros? 

Em 1999, quando estava descendo o Monte Kilimanjaro. O meu amigo Charles Klein comentou sobre esse projeto e eu, curioso, fui atrás. Os meus cumes foram: Kilimanjaro, (Tanzânia), pico mais alto da na África (1999);  Elbrus, (Rússia) pico mais alto da Europa (2001); Aconcágua, (Argentina), mais alto da América (2003); Denali, (EUA), mais alto da América do Norte (2004);  Kosciuszko, (Austrália), o mais alto da Oceania (2005); e Vinson, o mais alto da Antarctica (2006).  

Além de finalizar o projeto Sete Cumes, o Everest tem alguma simbologia especial para você? Descreva a montanha, do ponto de vista pessoal, não do alpinista. 

Eu, como o Luciano [Pires, que fez o trekking até o Campo Base em 2001], acredito que o Everest pode ser considerado como uma metáfora. Todos temos alguns “Everests” dentro de nós que alguns enfrentam, uns vivem adiando e outros se dão por vencidos. O Everest é uma montanha muito conhecida. Tenho vários vídeos, fotos e revistas sobre ele. Ter a oportunidade de caminhar por esses lugares será uma honra muito grande.  

Você tem algum “ídolo” no alpinismo? Alguém que você considere um modelo a seguir? 

Não tenho muito essa idéia de ídolos. Mas se existe uma referência no alpinismo, é o sr. Reinhold Messner. Se existe algum desafio no montanhismo nesse planeta, esse italiano o fez. E o fez de uma forma especial.  

Você considera a possibilidade de tornar-se um “alpinista profissional” – como Ed Viesturs, Pete Athans, Eric Simmonson ou David Breashears, por exemplo, que fizeram do esporte seu único meio de sobrevivência, seja através de patrocínio de expedições, sendo como palestrante e consultor de aventura, cinegrafista ou guia de alta montanha? 

Não. Prefiro me diversificar. Praticar mergulho, vela, saltos etc. A vida de guia não é fácil e a responsabilidade desses senhores é muito grande. Eu acredito que eu possa contribuir dando palestras e escrevendo sobre as aventuras e os aprendizados dos quais tenho participado. 

Você pretende encarar o projeto dos 14 Oitomil?

Não. É necessário dedicar a vida para isso. Creio que, com muita sorte e dinheiro, no mínimo sete anos. E, como falei antes, você vai largar muita coisa: amigos, família e você. E existem tantas outras coisas a serem desbravadas no mundo...

 

Como você viabilizou os custos de sua participação na expedição? Há patrocinadores? Ou tem patrocinadores fixos que arcam com o custo do projeto Sete Cumes?

 

Não tenho patrocínio. Achei que o momento seria ideal para esse projeto. Tenho o dinheiro, a disponibilidade, experiência, saúde e a vontade de ir. Talvez no futuro não tenha essa combinação de fatores.

 

 

Este é seu primeiro Oitomil? Como foi sua preparação física e psicológica para enfrentar todas as intempéries de um Oitomil?

Sim. Ia para o Cho Oyu no ano passado, mas devido aos Jogos Olímpicos, a China estragou os nossos planos três semanas antes de embarcar. A preparação física consiste em correr, musculação, bicicleta, abdominais, subir e descer a escada do meu prédio (cheguei até a 200 andares) e fazer trilhas pelas montanhas de São Paulo com os amigos. Mas creio que a parte mais complexa é a parte psicológica. Difícil de se treinar. Sobretudo para uma expedição de dois meses. Estou praticando Ioga e procurando fazer exercícios de relaxamento, motivação e de concentração. Ao longo da viagem eu conto mais como estou indo com essa parte.   

Deduzo que você irá pelo Colo Sul. Correto? Por que esta rota?

 

Sim. Porque sou consultor e gerente de projetos. Vou procurar maximizar as minhas chances de sucesso, minimizando também os riscos. Apesar de ter um maior investimento, o Colo Sul apresenta mais segurança, mais chances de sucesso, creio que é mais belo e há a oportunidade de descansar fora da montanha entre o período de aclimatação e o ataque ao cume. Usar oxigênio é mais uma estratégia de maximizar as chances de sucesso.

  

Você participará de uma expedição internacional. Como será composta a expedição? É através de alguma empresa especializada? Qual?

 

Sim. Sou um membro da expedição inglesa organizada pela Jagged Globe (http://www.jagged-globe.co.uk/). Estive há pouco em Gales, para conhecer os demais membros. Lá estavam oito dos 11 inscritos. Fora eu, todos eram britânicos. Escolhi essa empresa por uma comparação com as demais e a referência de um guia que eu tive na Antarctica, que trabalha com eles.

  

Como será a logística da expedição? Quantos guias, quantos alpinistas, quantos sherpas? Quem é o líder da expedição? Já há definição prévia de duplas de ataque? Todos poderão tentar o cume ou será decidido ao longo da subida, de acordo com a aclimatação e o preparo técnico?

 

Somos 11 alpinistas e mais dois guias (uma escocesa e um polonês). Teremos mais dois guias sherpas. Cada membro terá um sherpa que irá acompanhá-lo o tempo todo. Como a equipe é grande, teremos dois cozinheiros e dois auxiliares. Sem contar com os carregadores. Até o momento não existe uma definição para o ataque. Isso será definido depois da aclimatação. Teremos uma semana em Pheriche (a 4.000m) para descansar e discutir a estratégia de escalada, mas creio que cada par (alpinista + sherpa) será autônomo para decidir se avança ou não. Todos usaremos oxigênio.

  

Você já conhece os companheiros de escalada?

 

Tivemos pouco tempo para nos conhecer, mas posso adiantar que conheci as seguintes pessoas: além de mim, há David Crave, um senhor aposentado que deve ter mais de 60 anos; Bill Goodland, bem forte e na faixa dos 35 a 40 anos; Nick Robertson, que trabalha na avaliação de riscos de investimentos de um banco em York, e deve ter entre 30 e 35 anos; Neil Thompson, também nesta faixa de idade, e que trabalha em uma empresa de aviação; Amanda Richmond, que é casada com Neil; Ian Spalding, analista de Sistemas de Reading e deve ter uns 35 a 40 anos; e Nell Sknee, de quem não tenho informações.

  

O que você considera mais importante na hora de encarar o Everest? O preparo físico, técnico ou psicológico? Ou uma soma dos três?

 

A soma... Cada um tem o seu peso em momentos diferentes da escalada.

   

Qual o ponto que você considera mais crítico em toda a rota, do ponto de vista técnico? A Icefall? O Escalão Hillary?

 

A Icefall. Passaremos lá oito vezes (quatro subindo e quatro descendo).

  

Qual o maior desafio, do ponto de vista físico? O ar rarefeito (e a incerteza da aclimatação perfeita)? A própria natureza do lugar? O risco de algum tipo de problema, como Mal da Montanha, por exemplo?

 

A natureza do lugar e os desafios de subir o caminho. Sempre tive uma boa aclimatação e espero que dessa vez continue assim. Perco apenas um pouco do apetite. Mas espero superar esse problema.

  

Como você encara a chamada “febre do cume”? Concorda com a máxima do Ed Viesturs que diz que “atingir o cume do Everest é opcional. Voltar de lá é obrigatório”? Como você pauta sua escalada, deste ponto de vista? Afinal, o esforço (em todos os sentidos) para chegar ao Campo 4, por exemplo, no Colo Sul, é gigantesco. Você voltaria de qualquer ponto, caso perceba que não descerá em segurança?

 

Cada um tem o direito de ter uma opinião a respeito. A minha, aqui em casa, a 700m do nível do mar é uma, mas sei que não terei a mesma convicção se estiver no Colo Sul em maio. A minha opinião, agora, é que o cume é a metade do caminho. Você deve dosar as forças para chegar ao cume e conseguir voltar são e salvo para casa. Dar tudo só para chegar ao cume e morrer por lá não pode ser considerado um sucesso. Mas lá no Colo Sul, depois de tanto investimento, risco, suor etc, a pressão sobre essa decisão será maior.    

 

O blog O Meu Everest irá acompanhar toda a escalada de Carlos Morey - de sua partida do Brasil até o retorno, em junho - em segurança e com o cume da montanha mais alta do planeta. Nossos posts serão atualizados diariamente, e teremos também notícias das principais expedições, curiosidades, histórias, estatísticas... Enfim, é só subir conosco!

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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