Recordes e curiosidades

by Patricia Paladino 13. junho 2009 20:22

Foto First Ascent expedition

Caros membros da expedição O Meu Everest,

Em outros posts, já debatemos a importância (ou a bizarrice...) de se quebrar recordes no Everest. Ser o primeiro – em qualquer categoria – parece ser o que “restou da festa”, como um de nossos membros comentou há alguns dias. À primeira vista torcemos o nariz para "o primeiro cego" a chegar ao cume ou para "a primeira coelhinha da Playboy" a subir o Everest. 

Estava pensando nisso ontem e fiz um mea culpa. Há recordes a serem quebrados, sim. E destacados, porque fazem parte do esporte. O montanhismo tem esse lado, e não há como negá-lo. Então fiz uma pesquisa sobre alguns recordes realmente interessantes e valiosos. E é uma forma de homenagear montanhistas que têm este espírito de enfrentar o risco, confiando em suas habilidades, na capacidade de sucesso e no desafio a si mesmo e à montanha. 

 

OS PRIMEIROS

 

É claro! Sir Edmund Hillary e Tenzing Norgay foram os primeiros homens a tocarem os pés no alto do Everest, em 29 de maio de 1953. Enquanto não houver a prova material de que George Mallory e/ou Andrew Irvine conseguiram este feito em 1924, Hillary e Tenzing são os desbravadores da montanha mais alta do mundo.

A PRIMEIRA MULHER

 

A japonesa Junko Tabei foi a primeira mulher a chegar ao cume, em 16 de maio de 1975.

SEM OXIGÊNIO

                  

O maravilhoso alpinista tirolês Reinhold Messner (à esquerda), considerado o melhor de todos os tempos (e o primeiro a completar os 14 gigantes com mais de 8 mil metros), foi, juntamente com o austríaco Peter Habeler, o primeiro a chegar ao cume sem o uso de oxigênio artificial, em 8 de maio de 1978, via Colo Sul.

ESCALADA SOLO

Mais uma vez Reinhold Messner: em 20 de agosto de 1980, o grande escalador partiu sozinho do Campo Base Avançado, pelo lado Norte tibetano, e seguiu ao cume via Colo Norte, Face Norte, atravessando o Great Couloir. Ele escalou inteiramente só, e sem o uso de oxigênio artificial.

PRIMEIRO CUME NO INVERNO

 

Este grande feito foi realizado pelo polonês Krzysztof Wielicki, em 17 de fevereiro de 1980.

MAIS VEZES NO CUME

 

 

Apa Sherpa, a lenda do Everest, é o recordista de cumes: nesta temporada de 2009 ele chegou ao topo pela 19ª vez. E ainda utilizou seu feito por uma belíssima causa, como mostra a foto!

PRIMEIRA MULHER SEM OXIGÊNIO

                       

A detentora deste recorde foi a neozelandeza Lydia Bradey, em 14 de outubro de 1988.

PRIMEIRA MULHER A FAZER O CUME PELOS DOIS LADOS

Foi a sulafricana Cathy O’Dowd, que fez o cume em 1996 (pelo Sul) e em 1999 (pelo Norte). Este é um recorde que eu coloco a contragosto, porque não gosto nem um pouquinho desta escaladora. Quem leu No ar rarefeito deve saber por quê: ela integrava a expedição sulafricana liderada por Ian Woodall que negou-se a prestar qualquer tipo de ajuda aos feridos no Campo 4, durante a tragédia da temporada de 1996. Mas enfim, o recorde é dela.

OS MAIS VELHOS

     

O japonês Katsusuke Yanagisawa tinha 71 anos, dois meses e dois dias quando chegou ao cume, em 22 de maio de 2007. E a mulher mais velha a fazer o cume também é japonesa: Tamae Watanabe, aos 63 anos, em 16 de maio de 2002. Por que colocar estes recordes aqui? Só para mostrar que nunca é tarde para se perseguir um sonho... por mais difícil que possa parecer!

O MAIS NOVO

E só para não deixar de mencionar (a curiosidade fala mais alto...), o mais novo alpinista a fazer o cume é um menino sherpa: Temba Tseri tinha 15 anos em 22 de maio de 2001, quando conseguiu o feito. Mas perdeu cinco dedos por conta de congelamento...

OS MAIS RÁPIDOS

         

Pemba Dorjee Sherpa quebrou o recorde de tempo de ascensão ao cume pelo lado nepalês (Colo Sul) em 25 de maio de 2003. Do Campo Base ao topo, Pemba levou a incrível marca de 8 horas e 10 minutos!

Pelo lado tibetano (Colo Norte) o recorde é do italiano (apesar do nome) Hans Kammerlander, em 24 de maio de 1996: do Base Avançado ao cume, ele levou 16 horas e 45 minutos.

Mas vale um adendo para o segundo colocado nesta categoria “ascensão rápida”. Em 25 de maio de 2003, o recorde de tempo era de Lakpa Gelu Sherpa, de 36 anos, que chegou ao cume pela rota do Colo Sul nepalesa, partindo do Campo Base e chegando ao cume em 10 horas, 56 minutos e 46 segundos. O incrível é que ele não parou para descansar: do início da escalada à sua volta, ele levou, no total, 18h e 20 minutos. Lakpa saiu do Base às 5h da tarde, chegou ao cume às 3h56m46s e chegou de volta ao Base às 11h20 da manhã do dia seguinte.

MAIS TEMPO NO CUME

 

Um dos maiores escaladores do Everest (falecido em 29 de abril de 2001), Babu Chiri Sherpa detém até hoje o recorde de permanência no Topo do Mundo: ele ficou no cume por 21h30m em 1999. Babu Chiri chegou ao cume por 10 vezes, quatro delas pelo lado Norte tibetano.

A SEGUNDA GERAÇÃO

   

Jamling Tenzing e Peter Hillary juntos na comemoração dos 50 anos da ascensão de seus pais, Tenzing e Edmund

O primeiro filho de um “summiter” do Everest foi Peter Hillary - filho do desbravador Edmund Hillary -, em 10 de maio de 1990. Jamling Norgay, filho de Tenzing Norgay (companheiro de pioneirismo de Hillary em 1953), chegou ao cume em 23 de maio de 1996.

A TERCEIRA GERAÇÃO

E a montanha está mesmo no sangue dos Norgay: Tashi Tenzing Sherpa é sobrinho de Jamling, que por sua vez é filho de Tenzing, o pioneiro do clã no Everest. É a terceira geração desta venerada família sherpa a chegar ao topo.

A MAIS ROMÂNTICA ASCENSÃO

E pra finalizar, um recorde em homenagem ao Dia dos Namorados: o casal sherpa Pem Dorjee and Moni Mulepati, ao escalarem o Everest juntos, tinham um plano secreto, que só foi revelado quando chegaram, também juntos, ao cume: eles tiraram as máscaras de oxigênio e colocaram, um no outro, guirlandas de flores de plástico – celebrando, de maneira simbólica, o primeiro casamento no Topo do Mundo.

Namastê! 

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Um tapinha não dói?

by Patricia Paladino 10. junho 2009 08:09

Atendendo a algumas solicitações, estou colocando o link para o dispatch de Carlos Morey, o único alpinista brasileiro presente este ano no Everest, que teve de abortar a ascensão ao cume devido a uma malfadada ajuda do sherpa que o acompanhava.

No relato, Morey explica o que aconteceu e os motivos que o levaram a adiar o sonho de chegar ao Topo do Mundo. No fim das contas, o "tapinha" do sherpa doeu... nos sonhos, na alma e no coração de Morey e em todos nós, que acompanhamos a aventura desde o início. E sentíamos que Carlos Morey estava 100% para fazer o cume. 

http://www.omeueverest.com/Blog/post/2009/05/21/Morey-conta-o-que-houve.aspx#comment

O link vai direto para os comentários. É só subir o cursor. Havendo qualquer problema no acesso direto pelo link, o post foi publicado sob o título "Morey conta o que houve", no dia 21 de maio. Basta entrar em nosso Arquivo.

Namastê!

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Chopp do Morey em SP

by Patricia Paladino 10. junho 2009 06:46

Membros paulistas da expedição O Meu Everest

Luciano Pires acaba de marcar data, local e horário para o Chopp do Morey em São Paulo:

Será na próxima terça-feira, dia 16, às 18h30, no BAR DO JUAREZ (Avenida Juscelino Kubitscheck, 1.164, Itaim). Ele deu como referência: fica na esquina com a Rua Atílio Inocenti.

Nós cariocas, estamos esperando a nossa edição! Luciano e Morey estão ajustando suas agendas pra marcar a data.

Namastê!

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Morey responde - Parte 2

by Patricia Paladino 9. junho 2009 15:36

Foto Canadian Mt Everest 2008

   Caros membros,

Nesta segunda parte da entrevista de Carlos Morey, ele fala sobre a escalada propriamente dita. Mostra os aspectos técnicos, fala de sua condição física e psicológica e, claro, sobre o fatídico "tapinha do sherpa" que ocasionou a perda da lente de contato e a conseqüente desistência do cume.

Gerusa Palhares: Depois da Cascata de Gelo, que é o terror do Everest, que trecho você diria que foi mais tenso ou perigoso?

CM: Eu diria que, tirando o trecho entre o Campo 1 e o Campo 2, tudo é tenso e perigoso. A parede do Lhotse é bem inclinada e com muito gelo. Uma queda é fatal. No ataque ao cume, até o Balcony o trecho é inclinado e misto com rochas. Acima do Balcony fica pior, porque o caminho é numa estreita com quedas acentuadas dos dois lados. Subir o Aconcágua não dá base para subir o Everest. O Denali daria.

Patricia Paladino: Como disse a Gerusa, a Cascata de Gelo é o terror de quem tem de atravessá-la durante as escaladas de aclimatação. Como foi a sua reação a ela na primeira travessia? Você fez algum treinamento anterior (sei de muitos montanhistas que, em casa mesmo, colocam os crampons e atravessam uma escada de alumínio entre dois pontos, para treinar...)

CM: O maior problema que eu entendo da Cascata de Gelo é o fato que você a repete várias vezes. Dez, no nosso caso. Só tivemos um treinamento um dia antes de ir para lá. Numa região próxima ao Campo Base, a Jagged Globe montou uma academia para nós praticarmos. E a primeira vez que fomos para a Cascata de Gelo fomos para praticar esse conhecimento. Fomos todos juntos, com todos os guias e chegamos até a metade dele, antes do Football Field.

Patricia Paladino: Você disse que este ano as gretas estavam mais estreitas, e que não foi necessário emendar escadas para atravessá-las. Isso não é muito comum, não é mesmo? Toda a rota da Cascata com fendas próximas umas das outras...

CM: Este ano teve 30 escadas, sendo 20 horizontais e 10 verticais. Dessas, só tinha uma escada tripla e três escadas duplas. As demais eram simples. Isso era uma facilidade, pois escadas com 3 ou (emendadas) 4 devem ser muito complicadas para cruzar.

Patricia Paladino: Após as avalanches, houve uma mudança do percurso na Cascata, obviamente. Isso trouxe uma apreensão a mais? E com a possibilidade de outra avalanche, já que este ano ela parecia estar mais instável?

CM: O percurso na Cascata de Gelo mudava constantemente. Mas depois da avalanche houve uma mudança grande antes de entrar no Football Field. Essa mudança tornou o caminho mais perigoso. Mas a única mudança que tivemos em relação a isso foi que acordamos mais cedo pra enfrentar a cascata. Minimizar as chances de avalanches.

Foto Alan Arnette 

Patricia Paladino: Você considerou o Everest, como dizem, uma montanha tecnicamente fácil de escalar?

CM: Não. Não é das mais difíceis, mas é tão fácil.

Gerusa Palhares: De todas as montanhas ao redor do Everest qual a que te chamou mais a atenção?

CM: O Nuptse, pela complexidade de ascensão e pelas suas cristas. Fiquei imaginando se seria possível escalar as três ao mesmo tempo, Everest, Lhotse e Nuptse. Ninguém nunca fez isso. E uma outra, a Gyachung Kang. Poucas pessoas já subiram essa montanha. É a 15ª mais alta montanha do mundo. A primeira que não tem os 8mil, mas 7.952 metros.

As três irmãs: o Everest (esquerda), o Lhotse (ao fundo) e o Nuptse (à direita). Esta última foi considerada por Morey uma das mais fascinantes montanhas da região. Ela perde um pouco de seu impacto por estar localizada ao lado de dois OitoMil, tendo "apenas" 7.855 metros. Suas cristas espinhadas elevam-se acompanhando toda a rota dos acampamentos superiores, até a parede do Lhotse 

Patricia Paladino: Como você avalia sua performance acima dos 6 mil metros? Em alguns posts vc se dizia “na rabeira” da fila, muito lento, mas a impressão que eu sempre tive é que você era um dos mais fortes (física e psicologicamente) e mais bem aclimatados. Tanto que foi o primeiro grupo a completar a aclimatacão...

CM: Eu devo ter um metabolismo bom para a altitude. Me aclimato bem e rápido. Não tive nenhuma dor de cabeça esse tempo todo. Eu preferia sempre ficar em último. Tem as suas vantagens: o caminho já está mais assentado, não se precisa tanta velocidade e você conhecendo antecipadamente o caminho. Realmente estava bem, física e psicologicamente para o desafio.

Patricia Paladino: Um dos grandes desafios é a parede do Lhotse, pelo seu grau de inclinação. O esforço ali já é uma coisa fora do comum?

CM: É... com certeza. Pior indo no caminho para o Campo 4. Chegamos exaustos. Cruzar o Yellow Band e o Geneve Spur ninguém merece. Até mesmo para descer é cansativo. E se você deixa para mais tarde, o sol não perdoa. Tanto por cima como por baixo (reflexo).

Foto Carlos Morey

O emaranhado de cordas de segurança na parede do Lhotse, entre os campos 3 e 4. Acima, o Geneva Spur

Patricia Paladino: E o ar rarefeito? Tente descrever, se possível, o que é respirar (ou tentar) no Campo 4... E durante o esforço da subida do 3 pro 4 e dali pro cume.

CM: A partir do Campo 3 em diante já usamos constantemente a máscara. Fiquei uns 15 a 20 minutos sem a máscara uma vez. Tudo o que você faz cansa rapidamente. E, depois, comecei a ficar tonto. Coloquei novamente a máscara. Não é uma sensação agradável.

Gerusa Palhares: Tudo que falam do campo 4 e seu lixo é verdade? Pior? 

CM: É o campo mais sujo, mas não achei tanto. Existiam alguns restos das latas de combustível e mais algumas coisas miúdas. O tapete que forma de pedras e neve cobre muito do lixo. Garrafas de O2 existiam, até mais no caminho entre o Campo 3 e o 4. E ninguém sabe quem é o dono e se pode tirar ou não. O pior foram as cordas de outras temporadas. Além de ser lixo, elas também podem ser um grande risco, pois já estão gastas e as ancoragens podem estar comprometidas.

Foto Carlos Morey 

Embora Morey tenha achado que há menos lixo do que ele esperava no Campo 4, a foto mostra que o acampamento está cheio de lixo. E, como disse Morey, um lixo formado por objetos pequenos, que poderiam ser levados para baixo pelos sherpas das expedições, mais fortes do que os alpinistas que tentam o cume. Não sei, mas na minha opinião, o Campo 4 continua sendo um lixão a céu aberto...

Patricia Paladino: O engarrafamento é lendário... Mas sempre que acompanhei expedições, a data de partida do Campo 4 variava entre 22h e meia-noite. Foi uma surpresa pra mim a Jagged Globe sair tão cedo – e depois eu vi que todas saíram, com exceção da First Ascent. Esse horário de partida mudou? Desde quando?

CM: Não sei quando mudou, mas ano passado eles deram como exemplo, para sair às 21h. E isso porque tinham pessoas lentas no time. Mas quando saímos às 21h, já tinham pessoas começado às 20h. Passamos umas 30 a 40 pessoas até chegar no Balcony.

Patricia Paladino: Compreendo que seja uma vantagem sair mais cedo, por conta do horário do cume e da segurança na descida, mas muitas expedições chegaram ao cume por volta das 5h da manhã – imagino que ainda escuro. Vale a pena chegar ao Topo do Mundo e não conseguir ver nada?

CM: Não vale. Pelo menos te dá mais segurança que até meio-dia você chega. E aí tem mais condições, mesmo lentamente, de ir e voltar.

Patricia Paladino: A saída à noite pro cume faz com que uma bela parte da escalada seja noturna. Como é escalar no escuro? Eu li uma frase da Araceli Segarra que acho o máximo: “Só a luz da lanterna de cabeça dando um metro de luz e apenas o barulho de nossa respiração sob a máscara. A impressão é de estar escalando na Lua!”. É isso mesmo?

CM: Sim. Você não tem muito com o que se distrair. Está tudo escuro. Você controla os seus movimentos e as seguranças, mas, de certa forma se interioriza: ouve a sua respiração, monitora os pés e as mãos para que não se congelem e vai dosando as forças. Ao longe consegue ver os contornos do Lhotse e do Makalu. É muito lindo.

Gerusa Palhares: Pelos seus relatos, notava-se que você estava bem lúcido e sabendo o que estava fazendo a casa segundo. Lemos muitas coisas sobre hipoxia e falta total de controle de pensamentos e ações. Você sentiu algo? Viu alguém com estes sintomas?

CM: Realmente estava bem lúcido e ciente do que estava se passando. Não vi ninguém com hipoxia, mas fiquei sabendo de alguns casos de frostbite. Um inclusive no time da Adventure Consultants.

Spincc: Houve uma avaliação anterior, na fase de planejamento, se o uso de lentes de contato poderia representar um risco para a missão?

CM: Sim. Por isso que tinha levado mais 9 lentes e o óculos. O erro foi não tê-los na mão no dia do ataque. O que eu tinha no Campo 4 já tinha colocado na hora da janta. Poderia ter levado o estojo com as antigas. E os óculos: na correria para sair do acampamento me fez não levá-lo. Mas nunca tinha tido esse tipo de problema na minha vida e nem em nenhuma montanha antes.

Spincc: Não seria mais recomendável escalar o Everest de óculos?

CM: Não. Os óculos seriam um problema, pois ele ficaria com os googles (óculos de ski) ou com os óculos de sol (categoria 3 ou 4). O que o pessoal faz (raramente) são óculos especiais/googles com grau. Muito caro.

Spincc: Lentes podem ser utilizadas naquelas condições de alta montanha?

CM: Sim, sem problemas. Só atenção com as condições de higiene e com o ambiente seco que pode precisar de líquidos para hidratar, mas nunca tinha problema antes.

  

A rota que parte do Campo 4 em direção ao cume. A Plataforma Balcony (na foto à direita) fica no início da Crista Sudeste (quando a rota começa a percorrer a parte alta da pirâmide) e foi o local do incidente com a lente de contato 

Marcelo Zeuli: Mais do que o incidente com a lente, o que me preocupou foi a falha com o seu equipamento de oxigênio. Estas falhas são comuns? Se os cilindros de oxigênio são colocados previamente no caminho (Balcony e Cone Sul), não haveria a possibilidade de se colocar previamente máscaras "de back-up"?

CM: As máscaras são meio caras. Elas custam US$ 250. Mas antes vou comentar uma coisa: os cilindros não são colocados antes. O sherpa saiu com dois cilindros para ele (um usando) e dois para mim. E eu usando um. No Balcony, deixei o meu e peguei um dos cilindros do sherpa. O que deixei usaria na descida a partir do Balcony. No Cume Sul, repetiria o processo. Aí o sherpa fica mais leve.

Mas voltando à máscara: existem dois modelos que eu vi, a Poisk e a Top Out. Acreditava que a Top Out fosse melhor, mas me decepcionei. Ela apresentava problemas a cada hora. Teríamos que ter várias máscaras de backup. E isso iria dar o trabalho de conectar no regulador. A melhor solução seria estudar uma melhor máscara.

Patricia Paladino: Na verdade, também fiquei pensando muito sobre o problema com o oxigênio. Você tinha ciência dos problemas que as expedições vêm tendo, ao longo dos anos, com a adulteração do oxigênio dentro das garrafas? E dos equipamentos, não tão confiáveis, que algumas oferecem aos escaladores? Acha que pode ter havido algo similar com você?

CM: Não creio. O problema foi generalizado com outras pessoas da expedição. Eu prefiro apostar que se procure uma solução melhor de máscara. Apostava que a Top Out fosse melhor, mas me decepcionei.

Patricia Paladino: Você conhece Henry Todd, que se autointitula “fornecedor exclusivo da Poisk”? Sabe se ele ainda continua fornecendo oxigênio para as expedições?

CM: Continua. Acho que é o único fornecedor mesmo. Pelo menos foi o que me contaram. O vi passando pelo Campo Base. Inclusive deixou um notebook na nossa Comm Tent. Acho que para conectar a Internet.

Gerusa Palhares: O que te passou na cabeça após o "tapinha" do sherpa? Ou depois, sobre o tal "tapinha"?

CM: Não o culpo. Ele estava tentando me ajudar. O local também não ajudava. E mais: ele salvou a minha vida me ajudando a descer até o Campo 4.

Patricia Paladino: Você disse no dispatch que considerava essa atitude (o tapinha...) normal, dentro das circunstâncias. Mas o que levou o sherpa a isso? Qual era exatamente o problema e não daria para tirar a máscara por um momento e tentar outra manobra?

CM: Acho a atitude normal, pois várias pessoas já estavam saindo do Balcony e iriam nos passar, separando-nos dos demais da Jagged Globe. Se tivéssemos mais tempo, poderíamos tirar a máscara e tentar outros meios, mas vale lembrar que a máscara apresentou problemas para todos e várias vezes durante a subida. O Nick, por exemplo, tinha problemas de hora em hora. O Doug arrancou o protetor da saída de CO2. A equipe Orange teve mais sorte, pois passamos as nossas experiências para eles. 

Patricia Paladino: Você disse ter passado pelo corpo de Scott Fischer na subida pro cume. E a rota passa exatamente por ele ou um pouco distante? E deve haver outros corpos durante toda a rota, desde o Vale do Silêncio. Que tipo de impacto vê-los lhe causou?

CM: Na verdade eu não o vi. O Willie me disse no dia seguinte que existiam os corpos e onde eles estavam. Quando passei por lá, era de noite e eu estava mais preocupado com a minha escalada. E sobre outros corpos, não vi e não ouvi falar disso. O Willie só me disse desses corpos ali e o do Rob Hall. Acho difícil que se tenha. Abaixo do Campo 3 é fácil resgatar e trazer para baixo. Só acima do Campo 4 que as coisas pegam.

Eduardo Justo: Minha pergunta é muito simples. Aliás, é uma curiosidade: quando um alpinista chega ao topo de uma montanha superconcorrida como o Everest, quanto tempo ele pode ficar ali em cima? Porque se é verdade que as vezes sobem 100 pessoas de uma vez só, eu imagino que quando você chega ali em cima,  fica cinco minutos e tem de descer logo, porque deve ter uma fila enorme de gente esperando pra subir. É isso mesmo? Se for isso, deve ser muito frustrante, porque você não pode nem parar para curtir a chegada ao cume.

CM: Esse tempo é relativo. Por exemplo, o Thomaz e o Chris, do time Orange, chegaram às 4h30 e as condições climáticas eram boas. Eles ficaram até às 6h. Em compensação, o David Hahn e a Melissa Arnot (guia da First Ascent) pegaram, em outro dia, um terrível witheout (tempestade de vento e neve) e só puderam ficar dois minutos. Tudo depende do tempo e de suas condições.

Gerusa Palhares: E agora, meu amigo, você me deve uma montanha. Quanto tempo pretende ficar longe delas? 

CM: Espero já voltar no final do mês ou em julho. Não quero perder o preparo que adquiri lá. Serra Fina é a minha “praia” preferida.

Patricia Paladino: Você irá tentar o cume novamente no ano que vem? Ou em algum outro momento? Ou abandonou o Projeto Sete Cumes?

CM: Devo tentar novamente. A minha personalidade não me permite deixar algo incompleto ou mal feito.

Gerusa Palhares: Você pretende tentar o Everest novamente?

CM: Sim, mas não em breve. Daqui uns 5 ou 10 anos.

 

É isso, pessoal. Acho que Morey tirou todas as nossas dúvidas.

Namastê! 

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Morey responde - Parte 1

by Patricia Paladino 8. junho 2009 06:30

 Caros membros da expedição O Meu Everest

Carlos Morey, muito gentilmente, já respondeu à nossa entrevista - ou ao nosso "interrogatório", como brinquei anteriormente. Ele sabe que a escalada despertou um grande interesse em todos nós, e que é natural que tenhamos muitas curiosidades e dúvidas quanto ao que aconteceu na montanha mais alta de nosso planeta.

Entretanto, a entrevista ficou realmente muito longa. Por isso vou publicá-la em duas partes. A segunda, publico amanhã. Todas as perguntas deixadas pelos nossos membros como comentários foram enviadas ao Morey, e todas foram respondidas - e tanto perguntas como respostas estão aqui publicadas na íntegra. Eu tive que dar uma editada apenas por temas, para dar uma continuidade lógica à entrevista, e por isso nem todas as perguntas de um mesmo membro estão agrupadas.

Nesta primeira parte, Morey fala sobre a preparação para a escalada, sobre a trilha, o relacionamento com os sherpas e o clima no Campo Base. Temos até uma "fofoquinha" sobre "quem pegou quem", só pra descontrair... Na segunda parte, falaremos mais dos acampamentos superiores e dos problemas que aconteceram no dia do cume. 

Por "desvio" da profissão - e também por ter as minhas dúvidas e curiosidades - eu complementei muitas perguntas de nossos membros. Por isso, identifiquei quem faz a pergunta no início dela.

Vamos, então, à primeira parte da entrevista de Carlos Morey:

João Marcos da Silva Barros: Do início da preparação até o começo da escalada, quantos quilos pesava, quanto passou a pesar (no início da escalada) e quanto está agora? 

Carlos Morey: Eu viajei com 75kg e voltei 67kg. Perdi 8kg na dieta Everest do Spa Himalaia. Não porque comemos mal, mas consumimos mais. E perdi não gordura, mas sim musculatura. Como mencionei antes, nos estudos sendo feitos, o corpo humano prefere essa estratégia.

João Marcos da Silva Barros: Quais os exercícios que fazia na preparação e com que freqüência?

CM: Treinava todos os dias durante os últimos quatro a seis meses. Inclusive domingos. Para evitar uma fadiga eu balanceava os treinos (pernas, abdominais, braços e peito). Os treinos mais interessantes eram:

- Escada de prédio (200 andares)

- Corridas (10km)

- Trilhas com 20kg nas costas

João Marcos da Silva Barros: Que tipo de alimentação mantinham (na preparação e depois, na montanha)?

CM: Eu treinei bastante. Nos últimos dias eu comi muita proteína (carnes e suplementos) e carboidrato (massas). Lá comíamos mais carboidratos. Na janta tinha sempre uma massa. E foram as minhas escolhas para os campos altos.

Gerusa Palhares: Os dois anos de treinamento foram 100% eficazes, ou você acha que alguma coisa deveria ter sido feita ou não feita? Mudaria alguma coisa em seu treinamento para uma próxima vez?

CM: Eu reforçaria o treinamento das escadas (com pesos) e trilhas com grande desnível de altitude. Esse foco ajudaria a encarar com mais facilidade a Lhotse Face e o ataque ao cume. Sobretudo nas descidas.

Gerusa Palhares: Você disse que sua mochila era grande e pesada para o Everest. Que tipo de mochila seria a ideal e por que? Que tipo levam para lá?

CM: Além do peso, a barrigueira da minha mochila cobria a cadeirinha. A mochila de ataque ao cume deve leve e caber o cilindro de oxigênio. As Day Packs são adequadas. Eu acabei usando a Spire 32 da North Face.

Foto de Robb Kendrick / Nat Geo

Patricia Paladino: Como é Namche Bazaar? A impressão que eu tenho é que é uma grande celebração de montanhistas de todas as partes do mundo, um lugar divertido e contrastante: pelo que sei, tem cozinha internacional, Coca-Cola, internet, luz elétrica, TV (ou DVD) – e ao mesmo tempo o ritmo de vida dos sherpas. Como é esse lugar? 

CM: Eu não queria tirar o seu encanto, mas Namche é uma cidade sherpa com todos os recursos que você mencionou, mas não tem muitos montanhistas. Eles passam por ali e vão embora mais para cima. Existem mais trekkers. Isso tudo na temporada... Quando partimos, era o último dia da temporada. Os sherpas estavam começando reformas no centro, fechando lodges, saindo da cidade etc. Mas é um lugar legal. Agitado. Come-se e bebe-se bem, sem gastar muito.

Luciano Pires: Sempre ouvimos que o montanhismo é onde a noção de companheirismo mais está presente. Um por todos e todos por um. Histórias de solidariedade aos montes. Mas em seus posts você deixava transparecer que só conseguiu estabelecer amizade com um ou dois de seus companheiros. Afinal, num desafio como o Everest é realmente um por todos/todos por um ou cada um por si?

CM: Não havia um clima de discórdia e nem de competição entre nós. O Douglas já tinha feito seis das sete montanhas do 7 Summits. Disse a ele que fazia questão que ele chegasse primeiro do que eu no topo. Acatamos todas as decisões dos guias sem questioná-las ou duvidá-las.

Também posso dizer que quando ocorreram os incidentes na montanha todos se mobilizaram. Para carregar a maca do sherpa que estava envenenado pelo metanol tinha umas 20 ou 30 pessoas. Fiquei impressionado.

Mas houve, sim, um conflito entre os líderes. Foi velado enquanto estávamos lá, mas em Kathmandu ficou mais visível. Mas os motivos, entendo, vêm do comportamento de um perante a experiência do outro.

Patricia Paladino: Complementando a pergunta do Luciano, houve, entre os membros da Jagged Globe, algum tipo de disputa interna e velada?

CM: Só entre os líderes. Internamente não. Houve uma coisa curiosa entre o casal Neil/Amanda. Ela chegou ao cume, ele não. Ele ficou chateado com a situação.

                      

Willie Benegas, alpinista com oito cumes do Everest e que este ano guiou pela expedição da Jagged Globe

Patricia Paladino: Após ler High crimes, e antes mesmo, pelo que você falou sobre o Willie Benegas, descobri que os Patagonian Brothers são seres humanos incríveis, além de montanhistas de elite. Esta foi mesmo a sua impressão da postura do Willie como guia – e como montanhista?

CM: O Willie me surpreendeu em dois aspectos: o amor pela montanha e pelo sherpa. Ele era um dos únicos que se preocupava com a limpeza da montanha (cortava as cordas de outras temporadas), carregava e coordenava a limpeza de todos os campos antes de sair. E, com relação aos sherpas, até dava a impressão que ele gostava mais deles do que de nos. Quando o sherpa ficou envenenado, ele não saiu da tenda médica. Inclusive passando as noites.

Patricia Paladino: Houve outra pessoa que tenha lhe impressionado por estas características no Everest?

CM: Além dele, quem eu tive a oportunidade de conhecer, só o irmão gêmeo dele, o Damian, e o David Hamilton, que este ano esteve com a Adventure Consultants. Russel Bryce não. Este estava mais preocupado em atender às suas datas e compromissos. Ed Viesturs e Dave Hahn estavam mais preocupados com a sua expedição.

  

               Ed Viesturs, 8 cumes no Everest                      Dave Hahn, 11 cumes no Everest, um recorde entre os ocidentais

Gerusa Palhares: Você esteve entre grandes nomes do montanhismo mundial: Ed Viesturs, Dave Hahn, entre outros. Você conversou com eles? Algum te chamou a atenção? Ler sobre estes homens é uma coisa, estar na mesma montanha é outra bem diferente...

CM: Não conversei com eles. Encontramos com eles várias vezes, mas eu não sou muito de incomodar as pessoas para tirar uma foto ou fazer o papel de tiete. Mas me senti muito honrado de dividir a montanha com eles, com o Apa Sherpa, com o Mimgma, com o Willie etc. Mas todas as vezes em que nos encontramos ou que eles conversaram com a Adele, eles foram muito educados e cordiais. Não me pareceram que a fama lhes subiu à cabeça.

Patricia Paladino: Complementando a pergunta da Gerusa: na primeira entrevista que fizemos, você disse que não tem essa coisa de “ídolos no montanhismo”. Mas eu tenho... E um dos meus “ídolos” (na falta de uma palavra melhor...) é o Ed Viesturs. Aparentemente, ele me parece ser (além de um dos maiores, senão o maior, escalador de altas montanhas em atividade) uma pessoa muito simples, de fácil acesso, simpático com todos. É isso mesmo ou essa minha imagem vai por água abaixo?

CM: Pareceu-me uma pessoa simples, simpática, mas distante. Lembro-me que em Dingboche ele ficou um tempo sozinho do lado de fora do lodge. E os demais do time dele dentro do lodge. Depois ele voltou para o lodge e começou a tomar algumas cervejas. Que inveja. Como era subida... eu me preservei. Mas também concordo que ele seja o melhor montanhista do momento.

Gerusa Palhares: Como mulher escaladora, você não acha que quando disse: "A única mulher do grupo sempre procura uma certa evidência", sobre Adele Pennington, não acha que é um pouco de machismo da sua parte? Por que ela iria querer isso? Afinal, na montanha somos todos iguais. Ela não diferencia sexo, cor ou religião. Morey, você é machista, heim? Hehé... 

CM: Espero que não seja machista. Não era a idéia do comentário. Assim como também não acho que não somos iguais na montanha. Tecnicamente sim, mas internamente não. Eu acredito que mulheres sofrem mais na montanha. Por exemplo, menstruação (existem técnicas de se evitá-la, mas homens nem isso têm). Enquanto em nós cresce a barba, nas mulheres crescem os pelos. As vaidosas podem sofrer com as pernas peludas.

Agora, com relação ao que eu quis dizer da Adele, independente de ela ser mulher ou não, ela tinha um comportamento meio autoritário. Almocei em Kathmandu com Willie, Damian, Thomaz e a Mara. Alguém tinha comprado um pequeno sino. Aí o Thomaz pegou o sino e começou a imitar a Adele: “Mara, cadê o meu chá?! Está sem açúcar!!! O banho está pronto? Etc etc”

Patricia Paladino: E a sua impressão dos sherpas? Eles sempre são descritos como um povo hospitaleiro, simpático. E os carregadores, como até humildes demais, mas sempre solícitos com os ocidentais. É isso mesmo?

CM: É isso mesmo. São maravilhosos. São até humildes demais, e você se sente mal. Como escrevi antes, um deles trouxe a minha duffel bag e a do Ian. Talvez uns 40kg. Menino ainda (uns 15 anos). Baixo (batia no meio peito) e com chinelo nos pés. Me cortou o coração. O meu sonho é ter um Personal Sherpa.

Patricia Paladino: E a relação dos ocidentais com eles? É uma relação empregado-patrão ou mais próxima (digo com os carregadores, cozinheiros, não sherpas alpinistas).

CM: Até não temos muito relação com eles. Tivemos mais com os sherpas que foram os nossos acompanhantes no dia cume. Com o Phurba, por exemplo. Foi o que mais ficamos amigos. Sempre nos cumprimentava e perguntava se estávamos bem. Mas era um dos poucos que falava um bom inglês. Os carregadores e cozinheiros falam muito pouco. O sherpa que foi comigo, Nima Galyen, falava bem mal. Isso, creio, atrapalha muito essa relação, que poderia ser melhor.

Patricia Paladino: Já li muito sobre sherpas carregadores de alta montanha que, de uns tempos pra cá (talvez pelo contato conosco, ocidentais...) têm atitudes muito pouco louváveis lá em cima. Extorquir mais dinheiro do que o combinado pra fazer o trabalho, roubar equipamentos e comida, abandonar clientes... Você viu alguma coisa disso? 

CM: A única coisa que eu soube sobre isso ocorreu com o Chris em 2005. Ele foi abandonado entre o Balcony e o Cume Sul. Este ano ele estava preocupado. No nosso esquema isso seria impossível, pois eles eram contratados da Summit Trekking. Se fizessem isso eles perderiam o emprego. Sem contar que eles são usados para outras expedições da Jagged Globe até fora do Nepal. Mas não desconfiaria que isso realmente existe... Mas é triste.

                                                                                                                                     Foto Discovery Channel Expedition

Um dos Ice Doctors, sherpas alpinistas contratados para abrir a rota na Cascata de Gelo, instalar as escadas e as cordas de segurança e fazer a manutenção da Icefall durante toda a temporada. Este ano, devido às três avalanches, eles tiveram muito trabalho reabrindo o caminho de mão dupla para a parte alta da montanha...

Patricia Paladino: Os sherpas alpinistas têm o respeito das expedições? Não apenas o sirdar, mas todos?

CM: De todos. O Mimgma tem 14 cumes do Everest... Sem contar outros. O Nima, tem sete... Até de outros sherpas eles devem ter respeito.

         

                       

Patricia Paladino: Este ano, como no ano passado, a Asian Trekking promoveu a expedição Eco Everest.  Outras expedições de limpeza também têm sido organizadas há algum tempo. Pelo que tenho lido, nem sempre estas faxinas têm o propósito a que se destinam... Por outra, já li que uma dessas “expedições” recolheu basicamente seu próprio lixo e mais um tantinho, mas angariou simpatia e alguns milhares de dólares pela iniciativa. O que você percebeu este ano? A coisa foi séria mesmo ou mais balela? 

CM: Esse ano teve algumas iniciativa do nosso time (Summit Trekking, sub-contratada da Jagged Globe no Nepal) de trazer algumas dessas garrafas de O2 órfãs. Nós coletamos dinheiro para dar aos sherpas que trouxessem essas garrafas. Nós mesmos, sinceramente, não temos condições físicas para tal.

Mas sempre é uma iniciativa pontual. Pessoas que têm esse objetivo, como o Willie. Ele incentivou bastante essa iniciativa nossa. E posso dizer que o Everest não é uma montanha suja. Graças a Deus.

Patricia Paladino: O Campo Base também deve ser um depósito de lixo a céu aberto. E eu costumo chamar o Colo Sul do “lixão mais alto do mundo” – inclusive, há umas duas temporadas, eu acho, havia o cadáver de um sherpa entre o lixo das expedições. O corpo dele ainda está lá?

CM: Diria que não. Vou passar uma foto que tenho do Colo Sul e você irá ver algum lixo, mas nada assim tão feio como esse relato. Se pudesse apostar, diria que o corpo não estava lá, pois não ocupamos um espaço grande do Colo Sul.

Patricia Paladino: Qual a sua impressão sobre o impacto deste lixo (e do lixo “orgânico” de homens e iaques sendo depejados nas geleiras...) no meio ambiente na montanha e em seu entorno? O Luciano descreveu a trilha até o Campo Base como um “mar de cocô de iaque” e com muita sujeita. É isso mesmo?

CM: Existe o coco do iaque sim. Mas vai se pisando e ele vai se misturando com a terra. Se um sherpa vê, ele cata. Eles usam como adubo. Não é nada diferente dos cocôs das mulas do Aconcágua ou de uma fazenda. Não me senti tão incomodado com isso. Como mencionei anteriormente, não achei o Everest sujo.

O que achei ruim foram os banheiros do Campo 1 e 2. Poderiam ser melhores. E, creio, depois da temporada eles enterram. Essa poluição poderia ser evitada.

 

 

  

Patricia Paladino: Como é o clima do Campo Base? É aquela zona que todo mundo fala? Tem festa a toda hora?

CM: Não tem quase festa. Pelo menos eu não vi nenhuma. Só as croatas que faziam alguma zona, mas a maioria do pessoal se preservava. Eu dormia num silêncio sepulcral. Por isso não creio que houvesse muitas festas. A única exceção as barracas das expedições era a Bakery e a barraca médica.

Patricia Paladino: Há relacionamento entre os membros das expedições ou só dos líderes?

CM: Líder com lideres. Raramente entre clientes com clientes. E alguns clientes com líderes que foram ex-líderes. Por exemplo, o líder da Adventure Consultants é super meu amigo. Foi o meu guia na Antártica. De novo, a exceção foram as croatas, pois todos os homens ficaram babando atrás delas. O Willie pegou a médica deles, o Chris pegou uma e o Thomaz outra.

As irmãs croatas Darija e Iris Bostjanèiã, sucesso absoluto no Campo Base. Mas parece que o namoro não atrapalhou a escalada das meninas: as duas chegaram ao cume em 19 de maio...

Patricia Paladino: Os alpinistas “figurões” (famosos e requisitados) se relacionam com todo mundo ou se mantêm na redoma?

CM: Relacionavam-se na boa. Às vezes apareciam umas pessoas no nosso acampamento. Creio que de outros Everests, e o Willie, por exemplo, os tratava como se fosse conosco. Sem altares...

Patricia Paladino: É verdade que rola uma certa doideira? Bebida, droga, muuuito namoro?

CM: Droga, só Diamox. Bebida, vi umas cervejas rolando, mas mais quando voltamos. Até entrei na roda. Antes, jamais. O namoro foi por causa das croatas. Fora elas, seria homossexual, pois 95% é do sexo masculino.

Patricia Paladino: Você se mostrou sempre muito pragmático em relação à “mística” do Everest. Mas estando lá, tocando a montanha, você sentiu que tipo de emoção?

CM: Sim, uma energia. Das montanhas como um todo. Se você reparar, você fica sempre longe do Everest. Só os campos 2 e 4 permitem você tocar nele. Ele é muito magnânimo. Lindo.

Patricia Paladino: Como eram as horas livres entre as escaladas de aclimatação? Eu mesmo escrevi na matéria de O Globo que escalar o Everest é um exercício de paciência. Enche o saco, de vez em quando?

CM: Enche o saco. Sobretudo porque as minhas companhias não ajudavam. Eles não eram bons parceiros para passar o tempo. O que eu fazia era ir para a barraca e planejar o que eu faria quando voltasse para casa. Estou tocando agora uma reforma em casa.

É isso, pessoal. Amanhã, a segunda parte, com Morey respondendo às nossas dúvidas quanto ao "tapinha do sherpa", o uso de lentes na escalada e muito mais.

Namastê!

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Além do topo, o filme

by Patricia Paladino 5. junho 2009 06:31

Não podia deixar de publicar este post hoje.

Há algum tempo, gravei o filme Más alla de la cumbre, sobre a trágica ascensão do montanhista venezuelano José Antonio Delgado ao Nanga Parbat. Eu já conhecia a história e sabia que havia sido feito um belo documentário sobre a escalada. Qual não foi minha surpresa quando a HBO passou o filme, sem legendas. Gravei na hora. Mas não tive tempo de vê-lo – até ontem à tarde, quando arrumei um tempinho pra tirar um espacinho de folga. Comecei como sempre: esperando um documentário sobre uma tragédia em uma alta montanha. 

Mas foi uma linda surpresa. Ninguém que ama montanhas deve deixar de ver. Um dos mais sensíveis documentários sobre escalada que eu já vi – e olha que eu já vi muitos. Estamos tão acostumados àquele formato comum de filmes de alpinismo: preparação da expedição, chegada ao Nepal, Tibet ou Paquistão, o caminho pela trilha, a chagada ao Campo Base, os perrengues, algumas perdas (raramente o personagem principal do documentário...), e finalmente o sucesso do cume. O roteiro quase não muda.

Meu irmão – que não é nem um pouco aficcionado por montanhismo – sempre diz que parece estar vendo o mesmo documentário. E ele não deixa de ter um pouco de razão... São poucos os que fogem da mesmice em relação ao roteiro, fotografia, direção de arte e condução da narrativa. Lembro que o filme de David Breashears para a IMAX é uma exceção, tem um pouco desse espírito. Mas não como Más alla de la cumbre.

Vou resumir um pouquinho da história de José Antonio Delgado, para quem por acaso não o conheça. Ele era um dos mais bem-sucedidos – senão o mais – escalador venezuelano de altas montanhas. Tinha 15 anos de experiência e já havia chegado ao cume de quatro dos gigantes OitoMil: o Cho Oyu (8.153m), em 1994; o Shishapangma Central (8.008m), em 1998; o Gasherbrum II (8.035m), em 2000; o Everest (8.848m), em 2001; e, em 12 de julho de 2006, chegou ao cume do Nanga Parbat (8.126m). À exceção do Everest, foi o primeiro venezuelano a fazer o cume dos outros picos e o único a ter cinco OitoMil. Era casado com Frida Ayala e tinha dois filhos, Sofía e Tomás.

O alpinista venezuelano José Antonio Delgado 

Ele escalava o Nanga Parbat pela Cara Diamir (rota Kinshofer) com seu companheiro Edgar Guariguata, de 23 anos. Os dois permaneceram por vários dias entre os campos 2 e 3, à espera da janela de bom tempo. Mas Guariguata, acometido por fortes problemas estomacais, desistiu do cume e voltou ao Campo Base, para dar suporte à escalada de Delgado, que continuou subindo.

José Antonio Delgado chegou ao cume do Nanga Parbat em 12 de julho. Entretanto, uma repentina tempestade o forçou a um bivaque (pernoite sem barraca) entre o cume e o Campo 4. No dia seguinte, conseguiu chegar ao Campo 4, e relatou a situação ao Campo Base pelo rádio, que o acompanhava através do telescópio. Mostrava-se muito preocupado com o clima terrível e seu estado, após uma noite exposto próximo aos oito mil metros. Guariguata, então, começou a preparar a logística para trazer Delgado para baixo. 

As condições climáticas não permitiam a chegada de uma equipe de resgate à montanha por helicóptero e – como sabemos – do Campo Base, Guariguata levaria muito tempo para chegar até ele. E não conseguiria fazer isso sozinho. No dia 16 de julho, Delgado avisou ao Base que estava há dois dias sem comida e sem água, já com alguns congelamentos, e que iria tentar descer até o Campo 3. Foi a última vez que ele entrou em contato por rádio.

Finalmente, em 17 de julho, um helicóptero trazendo seis montanhistas de elite da Pakistan Adventour Tours consegue pousar no Campo Base do Nanga Parbat. Neste meio tempo, Frida, a mulher de Delgado, já estava em Islamabad, coordenando toda a logística. O time de resgate imediatamente começou a subida ao Campo 3, na esperança de que, se tivesse conseguido chegar até ele, Delgado estaria alimentado e hidratado, e poderia ter sobrevivido.

Em 18 de julho o resgate chega ao Campo 2, mas é impedido de ir além por conta do clima – o que só consegue fazer no dia seguinte. Em 20 de julho, o tempo melhora e o helicóptero sobrevoa o Campo 3, localizando a barraca de Delgado.

Mas, mais uma vez por conta do clima, o resgate só consegue encontrar José Antonio Delgado no dia 22 de julho de 2006. Após 10 dias sob frio intenso, tempestade inclemente, com diversos congelamentos e sem comida ou água, ele não resistiu. Seu corpo foi encontrado entre os campos 4 e 3, a cerca de 400 metros da barraca e a 7.100m de altitude.

Uma linda montanha: este é o Nanga Parbat, um dos 14 gigantes da Cordilheira do Himalaia, com 8.126m. Localizada no Paquistão, é a nona montanha mais alta do mundo 

Esta é a história de José Antonio Delgado. Mas não é essa a história de Más alla de la cumbre. O filme não mostra a operação de resgate. Durante todo o documentário, sua narrativa é centrada no que Delgado diz, pensa e sente sobre montanhas e montanhismo. E vamos aprendendo a admirar sua sensível (e sensata) visão. Mostra, claro, algumas de suas ascensões – e é focado na expedição ao Nanga Parbat. Mas o que torna o filme imperdível é a forma como isso é contado. A tragédia é mostrada através de uma transmissão (tocante) de Delgado após o bivaque e no desespero de seu companheiro no Campo Base a partir daquele momento. Uma visão humana, simplesmente. Sem heroísmo.  

    A direção é impecável; o roteiro, como já disse, foge totalmente dos clichês dos filmes de montanha. A fotografia é deslumbrante e a música, pontua de forma exata toda a emoção da narrativa (o tema final, Un lugar tranquilo, de Alberto Arvelo, é emocionante).  

   Eu gravei o filme sem legendas e o sotaque da Venezuela é um pouquinho mais complicado de entender do que o argentino e o espanhol, aos quais estamos mais acostumados. Mas não importa. Se perdi uma ou duas frases, apreendi o sentido do sentimento que Delgado tinha em relação às montanhas, ao montanhismo, à família, à vida e à morte. O depoimento de sua mulher, Frida, é comovente. A compreensão que ela tinha da paixão do marido é incrível.

   Ao final, quando o companheiro de escalada Edgar Guariguata vê-se impotente no Campo Base, tendo certeza que seu amigo morria lá em cima – e sem nada a fazer a não ser esperar pelo resgate ou que Delgado conseguisse descer sozinho –, ele mesmo grava alguns depoimentos registrando a angústia. E nos leva junto. Seu choro – primeiro contido, depois de raiva pela impotência – é um dos momentos mais emocionantes que eu já vi em filmes deste tipo.

O mais tocante no filme: ele começa e é pontuado, em todo o tempo, por desenhos de uma história infantil. A história de um elefante que sonha com uma montanha alta e decide escalá-la. O elefante forma uma equipe (um camelo, um canguru e um iaque) e todos partem em busca de sua montanha. A história é contada por duas crianças ao longo de todo o filme, complementando de forma lúdica os depoimentos de Delgado e suas escaladas.

 

 

         

          

  

Ao final entendemos que o conto é La gran montaña, escrito por José Antonio Delgado, com ilustrações de Carmem Salvador. E narrado por Sofía e Tomás, filhos de Delgado.

É tão lindo, tão sincero, tão sutil, tão sensível como nenhum outro que eu já tenha visto.

Não percam. Fiz uma pesquisa no site da HBO e ele será reapresentado – com o título em português, Além do topo – pelo canal Cinemax nos dias 2 de julho, 9 de julho e 31 de julho. E deve ser com legendas.

Encerro este post com o texto de Delgado ao final do filme:

“… y quién dice que no están destinadas para la vida humana [las montañas]?... Si alguien fue y volvió no se puede decir que no están destinadas para la vida... Soy afortunado, tal vez demasiado. Las cumbres me han conquistado.”

José Antonio Delgado
Caracas, 1965 – Nanga Parbat, 2006

Namastê.

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Antes e depois do Everest

by Patricia Paladino 4. junho 2009 06:45

 

   Caros membros da expedição O Meu Everest,

Olha nossa bandeirinha aí de novo! Isso significa que este post ainda é sobre a expedição do Morey. Antes de embarcar para o Everest, ele havia me enviado uma foto, dizendo que mandaria a segunda assim que retornasse. E fez isso hoje!

Antes:

 

Depois:

É mole? Spa Everest! Segundo o Luciano, Morey perdeu oito quilos. O que é a média normal (entre oito e 12 quilos) de perda de massa muscular, principalmente.

A outra novidade é: está chegando o Chopp do Morey em terras cariocas. Falei com ele agora há pouco e ele vai marcar - semana que vem ou na próxima.

Namastê!

UPDATE: Acabei de enviar a entrevista pro Morey, com as minhas perguntas e todas as perguntas dos membros de nossa expedição. Até brinquei que não é uma entrevista, é um interrogatório! Ficou gigante, portanto vamos dar bastante tempo pra ele conseguir responder.....

 

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Respirando ar puro!

by Patricia Paladino 3. junho 2009 07:37

  

Depois de nosso ótimo debate sobre a ética na montanha, precisamos respirar bons ares! Porque esse ar do anti-ético é, definitivamente, rarefeito demais pra gente!!

Então publico a segunda parte de uma série que bolei para o blog: os Heróis do Everest. Chamo de heróis porque são pessoas que, de um jeito ou de outro, fazem ou fizeram a diferença na montanha – seja por suas habilidades técnicas, seja por suas qualidades humanas.

Com o gancho de nosso debate, vou falar de uma dupla que leva a ética e a compaixão acima de qualquer cume: os Benegas Brothers. Um deles nós conhecemos durante a escalada do Morey: é Willie Benegas, que foi guia da Jagged Globe este ano.

Heróis do Everest – Parte 2: Benegas Brothers

Quem é quem? Eles são idênticos! Tanto no rosto como no caráter...

Guillermo (Willie) e Damian Benegas são gêmeos de 41 anos, com mais de 20 anos de experiência em montanhismo. Juntos, eles têm a empresa Patagonian Brothers – por terem nascido no “coração selvagem” da Patagônia.

Filhos de uma família abastada, eles tinham uma vida boa em Buenos Aires durante a infância. Entretanto, por problemas políticos, seu pai teve tudo o que tinha confiscado pelo governo. E a família voltou à Patagônia, onde passou a dividir (pai, mãe e os gêmeos) um pequeno trailer. Na dificuldade, o contato com a natureza despertou nos meninos o amor pela aventura. E eles começaram a escalar. Sempre juntos.

Aos 21 anos, se mudam para os Estados Unidos e passam a escalar as enormes paredes de Yosemite – chegaram a fazer mais de 40 cumes no El Capitan. Embora continuassem a escalar juntos, cada um seguiu para seus próprios cumes, na América do Sul, América do Norte, Alpes, África e, claro, Himalaia. Passaram a trabalhar como guias para grandes expedições e abriram sua Patagonian Brothers Expeditions (Willie tem oito cumes do Everest nas costas e mais de 50 ascensões ao Aconcágua).

A habilidade desta dupla é lendária. Mas outra faceta dos gêmeos está à frente de qualquer recorde: a capacidade que os dois têm de colocar uma vida humana – qualquer que seja, mesmo desconhecida – acima de qualquer objetivo pessoal.

Portanto, vou contar três histórias sobre esses dois.

Damian (esquerda) e Willie com dois clientes da Patagonian Brothers Expeditions

Uma delas a gente ouviu de quem presenciou: em um de seus posts, Carlos Morey mostrou-se muito bem impressionado com a atitude de Willie Benegas quando do episódio do sherpa envenenado por uísque com metanol. Morey disse: 

“O que surpreendeu de verdade foi o comportamento do nosso guia argentino, Willie Benegas. Desde a notícia do envenamento pelo whisky dos sherpas, ele não sai da tenda do hospital. Passou a noite ao lado do sherpa. A sua preocupação com o local (segurança, poluição etc) e com os sherpas é impressionante. Ele vê um sherpa sem crampom ou sem cadeirinha num lugar perigoso, e logo chama a atenção. E depois chama o chefe dele para conversar. Parabéns... Não é à tôa que tem sete cumes do Everest...” Nota: quando Morey escreveu isso, Willie ainda não tinha atingido o cume pela oitava vez... 

Esta é a “vida normal” de Willie Benegas na montanha. Por sua grande experiência no Everest, e pela preocupação constante com expedições ou montanhistas mal preparados, ele sempre está de olho no que está acontecendo. E sempre auxilia quem ele vê que precisa. Foi assim em 2004, quando reconheceu o guia argentino Gustavo Lisi, que levava, de forma negligente, seu cliente Nills Antezana montanha acima. Por várias vezes ele chamou o guia em um canto, e colocou-se à disposição para qualquer eventualidade – que a vaidade de Lisi fez questão de ignorar.

Willie Benegas

                

À direita, Willie Benegas comemora seu quarto cume no Everest

                 

Willie no Campo Base e com seu amiguinho Tony 

Pois bem: a segunda história é sobre esta mesma temporada, e sobre estes mesmos personagens – só que com o outro Benegas, Damian. Essa história é contada em High crimes. Em 2004, este guia argentino, Gustavo Lisi, guiava o médico boliviano Nills Antezana ao cume. Na descida, os dois sherpas e o guia abandonaram Nills na Plataforma Balcony e desceram ao Campo 4. O corpo de Antezana nunca foi encontrado.

Na agonia de saber notícias de seu pai, Fabiola Antezana enviou e-mails desesperados a todas as expedições presentes no Everest naquele ano. E também para os sites EverestNews e para o MountEverest.net, que faz parte do portal ExploresWeb. Através deste último, um escalador em Salt Lake City, Estados Unidos, soube do caso. E ligou para Fabiola Antezana. Era Damian Benegas.

Ele se apresentou e disse que seu irmão estava no Everest. Que ia saber o que afinal estava acontecendo. Após falar com Willie, e saber que o guia era o famigerado Gustavo Lisi, Damian (que não havia seguido para o Everest porque estava preparando a próxima expedição dele e de Willie ao Paquistão), ligou novamente para Fabiola.

O diálogo foi mais ou menos assim:

- Seu pai realmente não desceu com o guia. Alguma coisa muito grave aconteceu – disse Damian.

- Eu vou para Kathmandu. O que eu devo fazer, a quem devo procurar? – perguntou Fabiola.

- Você deve me esperar no aeroporto em Kathmandu. Eu vou com você – respondeu Damian.

Estes são os Benegas. Damian deixou de lado a organização da expedição, catou uns dólares, colocou duas cuecas e uma meia numa mochila e cruzou meio mundo para ajudar uma pessoa que nunca havia visto na vida.

Chegando a Kathmandu, ficou o tempo todo junto a Fabiola e seu marido, entrevistando quem voltava do Everest, investigando o que havia acontecido, e até mesmo (por conhecer a fama do tal guia e por sua própria experiência em altas montanhas) desmentindo os argumentos fajutos de Lisi ao encontrar a família na capital nepalesa. Ao descer da montanha, Willie juntou-se ao grupo na investigação.

Damian Benegas

    

Damian "pilota" um dos helicópteros da expedição, para o aparente desespero do passageiro do meio...

      

Damian subindo a Face do Lhotse, no Everest, e liderando uma escalada em rocha

A terceira história:

Em 2003, quando se comemorou os 50 anos da primeira ascensão ao Everest de Hillary e Tenzing, a montanha estava uma balbúrdia. E os Benegas Brothers estavam lá. Mas para escalar o Nuptse, o primo-pobre do Everest.

O Nuptse (7.855 metros) é uma linda e difícil montanha, mas, por estar ao lado de dois gigantes de 8.000 metros (o Lhotse e o Everest), passa despercebida. Willie e Damian dividiram o Campo Base com as expedições ao Everest, mas tomaram seu rumo ao cume do Nuptse enquanto os outros buscavam os holofotes do Jubileu na montanha mais alta do mundo.

Por sua difícil escalada ao Nuptse – eles abriram a rota conhecida como Crystal Snake, tecnicamente muito difícil –, os irmãos Benegas receberam o Climbing Accomplishments of The Year, o Golden Piton Award e o título de The Most Significant Climbs de 2003 do Alpine Journal. Enquanto isso, mais de mil alpinistas brigavam por um pedacinho do Everest.

Neste ano, os helicópteros iam e vinham trazer e buscar alpinistas no Campo Base – afinal, as maiores expedições e seus ilustres clientes não estariam de fora neste ano de comemoração. Um desses helicópteros bateu em algumas pedras e despedaçou-se muito próximo ao Campo Base. Dois nepaleses morreram na hora e outros passageiros ficaram seriamente feridos. Os irmãos Benegas foram os primeiros a correr em direção ao helicóptero – ignorando o perigo que eles mesmos corriam. Retiraram os feridos de dentro do helicóptero, e os colocaram em um outro, em direção a Kathmandu.

Ao retornar à sua barraca, Willie não pensou duas vezes: pegou sua mochila e seu passaporte e saiu daquele cenário o mais depressa que pôde – era demais para ele aquela confusão que custava cada vez mais vidas. Damian só permaneceu porque sua namorada ainda estava na montanha. Mas calou-se, e ficou dentro de sua barraca esperando o retorno da namorada.

Dá para ter um pouco de esperança com essas histórias, não?

Namastê!

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Sobre 'High crimes' - parte 2

by Patricia Paladino 1. junho 2009 16:17

   Caros membros,

Fechando a resenha sobre o livro High crimes, de Michael Kodas, hoje queria colocar uma questão que vem sendo debatida mil vezes neste esporte, principalmente em relação às grandes montanhas: a ética no alpinismo.

Alguém já disse que "você é no Everest o que você é fora do Everest" - não me lembro quem disse a frase, mas acho perfeita. É claro que é o que todos pretendem: levar para a montanha o caráter, a personalidade, a bondade e a compaixão que se tem ao nível do mar. Só que alguns não conseguem - pelos mais variados motivos. E então temos o primeiro impulso de colocar todos no mesmo saco. Julgar este ou aquele ato, esta ou aquela pessoa como herói ou vilão de uma história. Como se fossem, todos - mortos e quem sobrevive -, simplesmente isso: personagens dos livros de aventuras no Everest que lemos.   

Digo isso pelo seguinte: o livro de Kodas aborda três fatos, um ocorrido na temporada de 2004 e outros dois, na temporada de 2006 no Everest. Muitos já devem saber do que se trata: o primeiro é a morte do alpinista americano Michael Matthews, de 22 anos - que morreu, aparentemente, por falha de seu equipamento de oxigênio na descida do cume pelo lado Sul nepalês. O segundo caso é o de David Sharp, em 2006. Subindo sozinho (ele apenas estava ligado a uma expedição internacional para conseguir a permissão), sem sherpas ou companheiros de escalada, e pretendendo fazer o cume sem oxigenio artificial, David sucumbiu a 250 metros acima do Campo 4 (pelo lado Norte) e a 450 metros do cume.

O terceiro caso é o resgate de Lincoln Hall, alguns dias após a morte de Sharp. Ele ficou para trás de sua expedição, os dois sherpas que o acompanhavam desceram (imaginando que Hall já estivesse morto). Mas ele atravessou a noite sentado abaixo do Segundo Escalão - já bem próximo ao topo - até ser encontrado pela expedição de Dan Mazur, no dia seguinte.

        

             Michael Matthews (esquerda na foto)                              David Sharp                           Lincoln Hall

São fatos que mostram um pouco como o conceito de "ética" é um pouco diferente do que costumamos ter aqui embaixo. Os três casos tiveram uma repercussão enorme na mídia quando aconteceram. E perspectivas bem diferentes.

No caso de Michael Matthews, o livro mostra, com bastante clareza, que o problema de travamento do equipamento de oxigênio se deveu, basicamente, a uma fraude absurda provocada pelo fornecedor Henry Todd - alguns o chamam de "The Toodfather" do Everest, numa alusão ao Poderoso Chefão. Pois ele era fornecedor exclusivo de cilindros de oxigênio para todas as expedições ao Everest. Tinha o monopólio do fornecimento há muitos anos. Todos os seus cilindros, segundo ele, eram da marca russa Poisk, considerada a melhor do mercado (e que não tinha conhecimento dessa "exclusividade"). O que não se sabia - até então - é que, na verdade, ele apenas utilizava as garrafas Poisk. O conteúdo - o oxigênio que irá salvar ou tirar a vida dos alpinistas lá em cima - era um "refil", de oxigênio processado (de forma inadequada) na Índia.

Não há como me alongar neste assunto senão o post fica gigantesco. Mas quem quiser saber mais, é só procurar no Google pelo nome. A história dele não é escondida de ninguém (inclusive seu envolvimento com tráfico de drogas na Europa e seus anos na prisão). O site www.mounteverest.net foi implacável para desmascarar quem eles chamam de "a pessoa mais perigosa das altas montanhas". O que é significativo aqui é: o caso de Michael Matthews foi assassinato - e premeditado... Tanto que Todd, mesmo nunca tendo subido muito alto no Everest, fez questão de "tentar o resgate" de Matthews - ou apagar qualquer prova de sua culpa.

O segundo caso, o de David Sharp, tornou-se um debate acirrado nos Estados Unidos: sozinho, sem acompanhante algum, ele caiu próximo ao que se costumava chamar de "a caverna do Botas Verdes" - uma referência ao cadáver de um alpinista indiano que morreu no mesmo lugar e que, calçando um par de botas verdes, tornou-se uma espécie de "marco" no caminho para o cume durante anos. O Green Boots. Uma referência, apenas.

Pois dezenas de alpinistas passaram por Sharp em seu caminho para o topo - calcula-se 40. Todos, de uma forma ou de outra, por um motivo ou outro, o ignoraram e seguiram em frente. Mais tarde, na descida, alguns tentaram administrar oxigênio, dar alguma bebida quente ou colocá-lo de pé. Mas ele estava inconsciente, com os membros e o rosto já totalmente congelados e não conseguiu reagir a nenhuma tentativa. Já era tarde demais, e ele morreu pouco depois.  

 

A "Green Boots Cave", onde Sharp abrigou-se por exaustão e por onde 40 alpinistas passaram rumo ao topo, ignorando sua presença. O cadáver do alpinista indiano conhecido como Green Boots foi retirado em 2007, durante o resgate do corpo de Sharp

 

O terceiro caso é o de um "resgate heróico". Lincoln Hall foi deixado inconsciente no pé do Segundo Escalão, alguns dias após a morte de David Sharp. Conseguiu suportar uma noite sob o frio e o vento e, no dia seguinte, foi encontrado pelo guia Dan Mazur e seus dois clientes, que rumavam ao cume. A descrição do diálogo quando Mazur o encontrou chega a ser surreal. É algo como:

- O que você está fazendo aqui? - perguntou Mazur.

- É o que eu gostaria de saber... - respondeu Hall, delirante e afetado pela hipoxia.

- Você sabe me dizer seu nome?

- Oh, isso eu posso dizer: meu nome é Lincoln Hall. E você pode me dizer como é que eu faço para sair daqui?

Mazur imediatamente abortou sua subida (para contrariedade dos clientes), chamou pelo rádio os sherpas que se encontravam no último acampamento de altitude e conseguiu levar Hall em segurança até o Campo 4. Foi aclamado pela imprensa internacional como herói.

 

Hall e suas ulcerações devido ao congelamento, no Campo 4 do lado Norte, após o resgate

O que eu queria refletir com os membros da expedição é: quem foi ético? Quem foi anti-ético? Quem foi algo muito pior? E há algum herói?

Acho que há unanimidade quanto à negligência de Todd na questão da falsificação de oxigênio. Mas não se pode dizer que ele tenha sido apenas "anti-ético". No caso de Sharp, o que podemos dizer dos 40 alpinistas que passaram por ele - na ida e na volta do cume -, vendo-o ainda vivo e subindo ou descendo sem efetuar um resgate?

Este é, na minha opinião, o caso que merece maior reflexão dos três. Uma coisa é abandonar alguém em uma montanha quando há possibilidade de resgate. Outra é ter de abandonar um alpinista que não consegue descer sozinho. Não sei se, na época, houve distinção entre essas pessoas que aparentemente viraram as costas para David Sharp. Me parece que não: todos foram acusados - inclusive Russel Brice, um dos guias de expedição que mais auxiliaram em resgates e se colocaram à disposição de alpinistas ou de expedições em apuros no Everest - de abandono, negligência, falta de ética, de compaixão e de muitas outras coisas.

O que significa descer com alguém inconsciente, incapaz de andar sozinho, por escarpas rodeadas de abismos e descidas íngremes, quando você mesmo está à beira da exaustão? Será que isso é possível? Será que muitos os que atravessaram o caminho de Sharp não têm até hoje a imagem do homem que deixaram morrer porque simplesmente não poderiam ou não conseguiriam salvar?

Muitos podem ter ignorado o homem moribundo respirando fracamente ao lado de um cadáver já "conhecido por todos" simplesmente porque pagaram muito dinheiro para atingir o cume e não iriam desistir naquele momento. Outros podem ter deixado o homem moribundo à própria sorte por estarem tomados pela chamada "febre do cume", um mal que acomete a muitos alpinistas que estão próximos ao objetivo. A estes, nada - nem mesmo a morte de outra pessoa ou a sua própria morte iminente, ignorando os riscos por conta da "febre" - os faz parar.

No caso de Lincoln Hall: Dan Mazur foi realmente um herói? Ou simplesmente fez o que qualquer pessoa faria ao ver alguém caído na calçada de sua rua, tendo um enfarte? Estando forte o suficiente, com auxiliares fortes o suficiente (como os sherpas) e em condições de organizar o resgate, simplesmente fazê-lo? Há heroísmo? Ou apenas um ato normal de um ser humano?

É difícil pensar nessas coisas. Fica um pouco mais fácil fazer qualquer julgamento daqui, diante do computador, com um copo de Coca Light ao lado e a 20º de temperatura. Muito mais difícil é decidir entre a vida e a morte (a sua e a de outros) a 8 mil metros de altura, com a mente afetada pela altitude, o corpo à beira do colapso.

Mesmo assim, o que eu penso, sempre que leio algum relato de uma morte ou de um resgate extraordinário no Everest, é: "o que isso quer dizer?". É isso o que eu gostaria que vocês me ajudassem a pensar...

Namastê.  

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Morey chega hoje ao Brasil!

by Patricia Paladino 30. maio 2009 05:55

Foto Carlos Morey

 

   Caros membros da expedição O Meu Everest - e amigos do Morey:

acabei de receber um e-mail dele, de Amsterdam. Ele prevê sua chegada para hoje à noite! O que ele diz:

“No momento eu me encontro em Amsterdam. Consegui sair do vale do Khumbu e antecipar os vôos. Creio que hoje à noite eu já deva estar em casa. Amanhã será um dia movimentado e importante: lavar as roupas (estão molhadas, pois de Namche a Lukla tomamos seis horas de chuva), colocar o carro para funcionar (a bateria deve ter descarregado), tirar a barba e o cabelo (sic), ler os milhares de e-mails etc.

Uma coisa curiosa que eu gostaria de compartilhar é como a altitude afeta o nosso peso. Existe um milionário inglês, Cauldwell, que faz pesquisas com altitude e usa o Everest e a Jagged Globe como meios. E nos seus estudos ele tem detectado que o organismo na altitude "prefere" consumir a musculatura do que gordura. A teoria diz que ele faz esse processo para deixar as últimas esperanças para as gordurinhas. A conseqüência disso é que nesses dois meses perdemos muito massa muscular, mas existem algumas "gordurinhas" indesejáveis que ainda estão lá. O spa Himalaya não funcionou bem.

Um exemplo é o Billl. Ele chegou dois meses atras como um atleta de rugby e ontem nos despedimos e ele parecia um refugiado de guerra. Imagine o impacto em mim, que começou como um quase refugiado...

As despedidas foram tristes, mas o mundo é pequeno. Quem sabe volto a encontrar algum dos outros 12 parceiros ou três guias da nossa expedição. Afinal de contas, foram dois meses juntos. No começo parecíamos desconhecidos, mas compartilhamos momentos bons, difíceis e de muita luta. Nem todos serão meus amigos, mas não meros conhecidos.

Abraços,

Morey”

A jornada de Carlos Morey chega ao fim hoje, quando o avião pousar em São Paulo. Mas ainda teremos nosso papo com ele (e com as perguntas que estão sendo deixadas no post Preparando a volta ao Brasil). Com certeza, a partir de agora, também Morey fará parte da nossa expedição por aqui! E enriquecendo cada post, sempre que quiser deixar comentários de quem viveu isso tudo de perto.

Ele também já antecipou que virá ao Rio para comemorar! Portanto, festa carioca para celebrar mais uma ascensão brasileira ao Topo do Mundo!

Nós começamos o acompanhamento da escalada do Morey com esta foto aí de cima - que ele tirou para que tivéssemos um antes-e-depois de dois meses no Everest. Nada mais cíclico do que postar agora esta mesma foto. Começamos com ela, terminamos com ela. E, em breve, vamos mostrar o que o Everest fez com Morey!

Namastê.  

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Site desenvolvido por ELIAS LUIZ   -    Servidor Dedicado BABOO   -   BlogEngine.NET 1.4.5.0

Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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