Uma triste montanha de lixo

by Patricia Paladino 1. agosto 2009 06:59

 

Caros membros da expedição O Meu Everest

Nosso trabalho aqui se divide em duas frentes: uma, a de mostrar a beleza contida em amar o Everest, em todas as suas nuances – seja a humana, com os feitos de grandes montanhistas, seja a da natureza.

A outra frente deste blog é chamar a atenção para determinadas atitudes que fazem com que a montanha esteja ameaçada.

É incrível como uma força de rocha e gelo de quase 9 mil metros de altitude possa ser ameaçada por nós – que mal chegamos a dois metros de altura. Mas é. Por isso, este post praticamente tornou-se uma reportagem sobre os efeitos do homem sobre o Everest... Eu ia dividi-lo em duas partes, mas me empolguei... Ficou um post enorme. Mas acho que vale a pena.

 

A cada ano, o Everest sofre com a degradação de seu meio ambiente. Seja pelo aquecimento global – que já fez vítimas entre outras montanhas, com o derretimento de geleiras – seja pela quantidade de lixo deixada pela multidão que habita suas encostas de quatro a seis meses por ano. É sobre este último problema que iremos tratar hoje...

São cerca de 60 mil turistas que chegam à base do Everest anualmente. Destes, uma média de 1.300 tentam escalá-lo (cada um, com uma média de 100 quilos de bagagem). O que significa centenas de toneladas de lixo deixadas todos os anos no Monte Everest.

Essa avalanche de gente perturbou seriamente o equilíbrio ambiental de toda a região – principalmente do Vale do Khumbu nepalês. A maior necessidade de lenha para aquecer e alimentar os turistas já causou um desflorestamento significativo. A ponto de Sir Edmund Hillary manifestar-se, até sua morte, contra este desmatamento, e ele mesmo promover o replantio de mudas de árvores nativas. Estima-se que sua fundação (a Edmund Hillary Foundation) já tenha realizado o plantio de mais de um milhão de mudas no Paque Nacional de Sagarmatha (considerado oficialmente Patrimônio da Humanidade, mas passagem obrigatória para o trekking ao Campo Base). E, mesmo hoje sendo ilegal o corte de árvores na região, a sua substituição por óleo diesel aumenta em muito a poluição do ar.

A "enfermaria de mudas" que a Edmund Hillary Foundation mantém no Parque Nacional de Sagarmatha

Vamos dar uma olhada em alguns números:

60 mil – é a média de turistas que chegam aos pés do Everest todos os anos
1.300 – é a média de alpinistas que efetivamente escalam a montanha
400 – é a média de alpinistas que chegam ao cume anualmente
3 quilos – é a média de lixo deixada por cada um destes alpinistas
120 toneladas – é a média de lixo deixada por ano na montanha pelo lado tibetano, já que o governo nepalês não divulga seus números

Outros dados interessantes se referem ao tipo de lixo acumulado, a medida que se sobe os acampamentos no Everest:

A 5.200 m (Campo Base): garrafas plásticas, embalagens de alimentos, excrementos humanos e de animais 
A 6.500 metros (Campo 1 e 2): garrafas térmicas, equipamentos de cozinha, cadeiras de plástico
A 7.800 metros (acima do Campo 3 e do Campo 4): barracas, colchonetes, cordas, garrafas de oxigênio, pilhas e baterias
A 8.850 metros (cume): garrafas de oxigênio 

 

 

Nas fotos acima, o Campo 4, um amontoado de garrafas de oxigênio, trapos de barracas, restos de comida, medicamentos e equipamentos quebrados

  

À esquerda, o lixo na trilha de aproximação do Campo Base; à direita, um dos depósitos do lixo retirado da montanha, em Lhasa 

Mais um triste documento do caminho ao Campo Base, desta vez pelo lado Norte: garrafas de vidro e plástico se amontoam às margens do platô tibetano

“Na minha última expedição ao Everest, em 2005, foi difícil tirar fotografias lá do topo sem que aparecessem as garrafas de oxigênio cor de laranja”, disse o alpinista brasileiro Waldemar Niclevicz à revista Veja no ano passado, em uma matéria sobre o assunto. Isso pode ser constatado por nós, aqui, no nível do mar: não há uma foto do Campo 4 em que não apareça um mar de lixo entre as barracas. Em outra reportagem, Niclevicz compara a degradação da montanha nos 18 anos que separam sua primeira investida e hoje. “Em minha primeira tentativa de escalar o Everest, em 1991, 341 pessoas já haviam conseguido a façanha; em 1995, quando finalmente alcancei o topo pela primeira vez, fui o número 627”, conta Niclevicz. “Hoje, mais de 3.500 pessoas já alcançaram o teto do mundo.”

Outro dado importantíssimo: não há instalações para o tratamento do lixo ou reciclagem na região do Everest. Por conta disso, anualmente 36,5 milhões de toneladas de água de esgoto descem para o rio Lhasa! (Os rios nepaleses, tibetanos e indianos, inclusive o Ganges, têm suas nascentes nas geleiras himalaias).

O resultado da falta de tratamento dos restos de expedições: a contribuição para a poluição dos rios nepaleses, tibetanos e indianos, que têm suas nascentes nas geleiras himalaias

Os governos do Nepal e da China – já que o Monte Everest localiza-se na fronteira entre os dois países – vêm, cada um a seu modo, tentando mobilizar os freqüentadores da montanha no sentido de trazer seu lixo para baixo. Mas esse “cada um a seu modo” é muito, muito relativo. Senão vejamos:

A China cobra de cada grupo de alpinistas uma taxa de lixo no valor de US$ 500. Já no Nepal, essa taxa é de US$ 4 mil. Há, nos postos do governo de fiscalizam a entrada, um funcionário designado a conferir, no retorno das expedições, se o lixo foi retirado da montanha e trazido de volta. Se ele constatar que sim, esse valor é devolvido.

Ações de limpeza também vêm sendo sistematicamente promovidas pelos dois governos – e o chinês mostra-se um pouco mais conscencioso nesta questão. Até o Campo Base, os governos sistematicamente retiram o entulho e o lixo.

Ok, mas vejam o seguinte: em 2007, o governo chinês anunciou a construção de uma estrada de 107 quilômetros visando facilitar o transporte da tocha olímpica ao cume do Everest (o que realmente aconteceu e tumultuou a temporada de escalada no ano passado). Então perguntamos: de que adianta cobrar US$ 400 pelo lixo trazido se uma estrada levará cada vez mais turistas à montanha? E mais grave: esta rodovia pode ser o primeiro passo para o “desenvolvimento” da região, incluindo a exploração de minério. E aí?

Em 2004 e 2005 foram realizadas grandes operações de limpeza na montanha pelo lado tibetano. Em 2008 e neste ano, a Everest Eco Expedition (expedição promovida pela empresa de escalada Asian Trekking, do Nepal, e dirigida pelo sherpa Ang Thsering) também recolheu lixo pelo lado nepalês. Em 2008, liderada pelo Dawa Steven Sherpa, além de recolhimento do lixo fora testados um sistema de eliminação de resíduos humanos e de detritos, um equipamento de purificação da água e a utilização das energias renováveis para cozinhar e gerar eletricidade. "Durante minhas experiências no Everest, tenho desenvolvido o que chamo de Modelo Ecológico Everest", disse Dawa Steven. "O meu objetivo é mostrar que, com o mínimo de despesas extras, qualquer expedição pode ter um impacto positivo", completou, acrescentando que o experimento de 2008 teve êxito e será utilizado em temporadas próximas para diminuir o impacto na montanha.

O time da Everest Eco Expedition 2009, realizando o puja antes da primeira investida

Um dos testes realizados pela Eco Everest 2008 foi, por exemplo, a utilização de um um fogão portátil de energia solar, uma técnica simples e que pode ser utilizada tanto pelas expedições como pelos habitantes locais. Segundo Dawa, uma expedição irá usar para cozinhar, no máximo, vinte cilindros de gás GLP de 30 quilos cada, representando uma economia significativa, sem liberar gases nocivos.

Outro experimento da expedição foi uma nova maneira de esterilizar a água, através de um dispositivo chamado SteriPEN, que utiliza luz ultravioleta para destruir microorganismos aquáticos. Ele leva 90 segundos para purificar um litro de água e pesa menos de 225 gramas. Neste ano, Dawa e sua equipe retiraram 965 quilos de lixo e detritos do Everest (incluindo partes do helicóptero do exército italiano que caiu no acampamento 1, em 1973) e 69 garrafas de oxigênio.

Este ano, Apa Sherpa, integrante da Everest Eco Expedition 2009, e ao conseguir seu 19º cume, levou consigo uma mensagem:

"Parem as alterações climáticas - Deixem o Himalaia viver!”

"Com um trabalho árduo, Dawa mostrou mais uma vez a todos os líderes de expedições presentes no Everest em 2009 que é possível praticar o esporte de maneira ecológica. A cada expedição ele desenvolve práticas inovadoras e melhores para o montanhismo. Ele já criou sistemas de gestão de resíduos, remoção de lixo e eliminação, além de tecnologias solares para produção de água quente", disse Linda McMillan, presidente da Comissão de Proteção UIAA de Montanha, que há 75 anos atua efetivamente, auxiliando a escalada aos maiores cumes do mundo.

Como Sir Edmund Hillary, pessoas físicas preocupadas com a situação também promovem campanhas e expedições de limpeza. Em 2007, o alpinista japonês Ken Noguchi recolheu 10 toneladas de lixo da montanha, entre latas, barracas, restos de comida e medicamentos. A Federação de Montanhismo da Índia recusa-se a prestar auxílio a expedições com mais de 12 membros, diminuindo, assim, o número de pessoas sob sua tutela.

O filho do desbravador do Everest, Peter Hillary, também herdou, além da habilidade de alpinista, a consciência ecológica em relação ao Khumbu – que foi seu parque de diversões durante a infância e a adolescência. Hillary, o pai, após escalar o Everest, nunca mais abandonou a região e seu povo e todos os anos retornava ao Nepal para promover melhorias. E seus três filhos – Peter, o mais velho – iam junto.

  

Sir Edmund Hillary com os catas e flores oferecidos pelos sherpas, um povo que sempre esteve em seu coração

Peter, Sarah e Belinda, os três filhos de Edmund e Louise Hillary: todos os anos, a família inteira ia ao Nepal construir escolas e hospitais, reformar pontes e melhorar a qualidade de vida dos sherpas. O Khumbu passou a ser o quintal dos Hillary. E foi ali que, após um acidente de avião, Louise e Belinda pereceram. Hoje, há dois chortens (memoriais sherpas) em homenagem às duas integrantes da família Hillary que morreram nas montanhas

No ano passado, Peter Hillary mostrava-se pessimista. “O mundo é um lugar cheio de lixo”, ele disse. E referindo-se especialmente ao Everest: “É necessário que algum aparelho pequeno e fácil de carregar seja construído para que os próprios alpinistas sequem e retirem da montanha seus dejetos”. E conclui: “Se o homem inventou computadores e bases aéreas, é certo que poderá constuir algo para carregar seu próprio lixo e preservar o planeta”.

  

Tal pai, tal filho: Sir Edmund Hillary (à esquerda) deixou mais do que o montanhismo como legado a seu filho Peter: como sempre fez em vida, Hillary demonstrou que o amor pelas montanhas e pelos sherpas vale mais do que qualquer cume. E Peter segue à risca o ensinamento do pai

Até a ONU vem se manifestando contra a devastação do meio ambiente no lugar. Em 2007, o Dia Mundial do Meio Ambiente chamou a atenção do mundo para o derretimento das geleiras do Tibet.

Como sempre vemos os dois lados da questão, também paramos para analisar o seguinte: a partir do Campo Base – seja por qual lado da montanha – a escalada efetivamente tem início. E isso inclui todos perigos inerentes a ela: a altitude, a exaustão, as intempéries da natureza. Será humanamente possível pensar em trazer de volta seus dois cilindros de oxigênio vazios após descer do cume – tendo que trazer a si mesmo em estado deplorável para baixo? Os sherpas devem ser responsáveis também por isso? Os guias de expedição deveriam designar sherpas específicos para fazer a “varredura” da equipe, estando descansados e sem ir ao topo – ou seja, seriam uma tropa de limpeza pós-expedição?

Uma outra questão – entre tantas que podemos listar... – é, a meu ver, a mais sutil e, em essência, a mais importante: o impacto da devastação na cultura e na religião de tibetanos e sherpas. No Tibet e no Nepal, o Everest é um símbolo de veneração, um local sagrado habitado por deuses, e é motivo de orgulho ter esta montanha e sua simbologia no quintal de casa.

Como será que os povos tradicionais da região convivem com a violência ao seu lugar?

Como sempre, trazemos o exemplo para o nosso cotidiano:

Imagine o seu jardim. Cultivado por gerações de sua família em sua casa. Nele, os caminhos de pedra foram cuidadosamente traçados... 

 

A trilha que leva ao Campo Base, próxima a Phakding, ainda com clima ameno, vegetação farta e uma ativa e vibrante vida selvagem

... no seu jardim, as árvores nasceram de pequenas mudas plantadas há muito tempo, e agora estão frondosas. As flores foram cultivadas e agora são fortes, perfumadas e belas, graças aos anos dedicados à rega...

O rododendro, a flor-símbolo do Nepal

... o seu jardim, com um equilíbrio perfeito, atrai várias espécies de pássaros e até pequenos micos vêm até ele de manhãzinha.

O iaque, um símbolo de força e proteção para os sherpas, pois carrega o peso que o homem não consegue carregar e fornece a lã que abriga do frio intenso, e a carne, o leite e a manteiga que alimentam

A 'danfe pheasant', o pássaro nacional do Nepal

De repente, alguém resolve que o seu jardim pode ser visitado. E centenas de pessoas o atravessam todos os dias, deixando ali o seu lixo e dejetos pessoais, abatendo as árvores para fazer lenha e aquecer seus corpos ou sua comida. Afugentando os pássaros e tirando a alimentação dos micos. Deixando rastros que não se apagam e levando como "lembrancinha" uma pequena pedra ou uma flor. Vilipendiando o seu templo – a sua casa.

Dá pra entender?

Namastê.

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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