Mulheres nas alturas - Parte 3

by Patricia Paladino 26. junho 2009 16:59

Caros membros da expedição O Meu Everest

Chegamos à terceira parte da série Mulheres nas Alturas, com a italiana Nives Meroi, a mais velha das três montanhistas que estão a alguns passos do Circuito dos OitoMil. O mais bacana é a diferença de estilo entre as três. Nives é uma purista, uma "à moda antiga" da montanha. Vamos a ela:

 

Série Mulheres nas Alturas - Parte 3

NIVES MEROI

Seus OitoMil:

1998 – Nanga Parbat (8.126m)
1999 – Shishapangma (8.027m)
1999 – Cho Oyu (8.201m)
2003 – Gasherbrum II (8.035m)
2003 – Gasherbrum I (8.068m)
2003 – Broad Peak (8.047m)
2004 – Lhotse (8.516m)
2006 – Dhaulagiri (8.167m)
2006 – K2 (8.611m)
2007 – Everest (8.848m)
2008 – Manaslu (8.163m)
Ainda lhe faltam o Kangchenjunga, o Annapurna e o Makalu.

Mais velha entre as três montanhistas, a italiana Nives Meroi nasceu em Bergamo, em 17 de setembro de 1961. Começou pelos Alpes e nas Dolomitas e sua primeira tentativa de um OitoMil foi bem arriscada: uma difícil rota do difícil K2 – chegou a 8.000m, mas não conseguiu o cume.

Seu primeiro OitoMil foi o Nanga Parbat, em 1998. Também a partir do início do novo século, Nives entrou para o rol da elite do montanhismo (sempre escalando com o marido, Romano Benet, com quem divide as cordas e a vida há 21 anos) e para a corrida pelo 14 gigantes. Em 2003 fez o Gasherbrum II, o Gasherbum I e o Broad Beak. E em 2006 também escalou dois himalaios, o Dhaulagiri e, enfim, o K2. Todos sem oxigênio artificial e em estilo ligeiro. Sobre o casal, no meio do montanhismo se costuma dizer que “seu estilo remonta a uma outra era do montanhismo”. Um purismo notável e que também mantém o par unido.

Alguns sites especializados em alta montanha chamam Nives de Himalayan Queen, por seu estilo à antiga de escalar. Apesar do inglês bem precário, Nives é sempre muito solícita e simpática na montanha. Tanto que, durante a escalada ao Everest, em 2007, sem o suporte de uma grande expedição, quatro italianos de sua equipe desapareceram na montanha. Nives e Romano já haviam feito o cume, e estavam no Base Avançado. Dois dias sem notícias dos companheiros. O jeito foi apelar para Russel Brice, líder da Himalayan Experience (HimEx), e conhecido por não negar auxílio a nenhum montanhista em dificuldade. Brice deslocou um de seus melhores sherpas que já estava no alto da montanha (desfalcando sua própria equipe de cume) para vasculhar os acampamentos em busca dos italianos. Dois desceram por conta própria, outro foi encontrado pelo sherpa e um, infelizmente, morreu.

Esta cena pode ser vista na segunda temporada da série Beyond the limits, do Discovery Channel. Chega a ser um pouco cômico (se não fosse trágico) a dificuldade de Nives em se comunicar com Brice – mas sua gratidão pode ser sentida em qualquer idioma...

Em março de 2009, Nives e Romano seguiram para o Kangchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo e localizada na fronteira do Nepal e da Índia. Mas mudaram de idéia por conta do “alvoroço na Kang. Zone”, como escreveu em seu site, e rumaram para o Annapurna. O tempo ruim forçou o casal a retomar seu plano original (Kang). Mas problemas de saúde com Romano fez com que os dois abandonassem a escalada em 17 de maio. Este não foi um bom ano para os italianos...

Uma das maiores experiências nos gigantes himalaios, para Nives, foi a escalada do K2, em 2006. Ela diz: “O lado Norte do K2 é isolado e distante de absolutamente tudo. Comparado ao Campo Base da rota normal, dá uma sensação de solidão e de estar explorando um novo mundo. Só havíamos nós sete lá, mais ninguém. Tínhamos a montanha só para nós... é uma sensação maravilhosa!”.

Mesmo com 11 OitoMil nas costas, e sendo uma excelente guia, Nives Meroi ainda encontra dificuldade para levantar dinheiro para suas expedições. “Muitas vezes deixamos uma montanha de lado por falta de dinheiro. Não é fácil conseguir patrocínio ou apoio para ninguém. Pior se você é italiano, e mora onde nós moramos, em Tarvisio, não muito distante da fronteira com a Áustria e a Eslovênia. Muitas vezes somos totalemente esquecidos em nosso pequeno refúgio!”, brinca Nives. Quem pode esquecer uma rainha do Himalaia? 

DHAULAGIRI 

 

Cume do Dhaulagiri

 

GASHERBRUM I

Chegando ao cume...

... e no cume!

 

K2

 

 

LHOTSE

Com o marido e parceiro Romano Benet, com quem divide a vida e as montanhas, na caminhada de aproximação do Lhotse, montanha vizinha ao Everest e cuja trilha e os acampamentos (do Base ao Campo 4) seguem o mesmo percurso

Na barraca de um dos acampamentos (não identificado)

A temida Cascata de Gelo do Khumbu também é travessia para a escalada do Lhotse...

... assim como o Western Cwm, ou Vale do Silêncio, que abriga os campos 1 e 2

 

EM OUTRAS MONTANHAS

          

                No Gasherbrum II...                                                ... e no Nanga Parbat

E em nossa linda e amada montanha. É claro que é o Everest.. Aqui, atravessando a Cascata de Gelo

 

DIVIDINDO A CORDA: COM ROMANO BENET

 

 

 

 

Caros membros de nossa expedição, chegamos ao fim da primeira parte da série Mulheres nas Alturas. Para os que não viram os perfis de Edurne Pasaban e Gerlinde Kaltenbrunner, é só arrastar o mouse para os posts mais abaixo. Vamos continuar esta série, com o perfil das grandes e lendárias montanhistas que chegaram aos cumes das maiores montanhas da Terra.

Por várias vezes Edurne, Gerlinde e Nives se encontram nos campos bases das altas montanhas. Em 2003, Edurne e Nives encontraram-se no Base de duas montanhas: o Gasherbrum I e II. Em 2007, Edurne e Gerlinde fizeram o cume do Broad Peak no mesmo dia, 12 de julho. O mesmo aconteceu em 1º de maio de 2008, quando as duas chegaram ao cume do Dhaulagiri.

Este ano, Edurne e Nives estavam no Kangchenjunga, enquanto Gerlinde fazia o cume no Lhotse.

Se elas negam que haja competição, o resto do mundo aguarda ansiosamente quem será a primeira a conseguir completar o Circuito dos 14 OitoMil.

      

               Edurne Pasaban                                  Gerlinde Kaltenbrunner                                  Nives Meroi

Essas três senhoras estão, com todo mérito e reconhecimento, entre os melhores montanhistas da atualidade. Sejam eles homens ou mulheres.

Namastê!

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Mulheres nas Alturas - Parte 2

by Patricia Paladino 22. junho 2009 17:31

Caros membros da expedição O Meu Everest

Continuando a série Mulheres nas Alturas, este capítulo é da austríaca Gerlinde Kaltenbrunner, uma das três montanhistas que rumam para completar o Circuito dos 14 OitoMil. Com um estilo diferente de Edurne Pasaban, a primeira perfilada da série, Gerlinde sempre busca a rota mais difícil - ou pelo menos a menos utilizada - para escalar. Para fechar o circuito, lhe faltam dois grandes desafios: o K2 e o Everest.

Ah, sim: esta série é dedicada a Gerusa Palhares, membro honorário da expedição O Meu Everest e montanhista de primeira.

Série Mulheres nas Alturas - Parte 2

GERLINDE KALTENBRUNNER

Seus Oito Mil: 

1998 – Cho Oyu (8.201m)
2001 – Makalu  (8.463m)
2002 – Manaslu (8.163m)
2003 – Nanga Parbat (8.126m)
2004 – Annapurna (8.091m)
2004 – Gasherbrum I (8.068m)
2005 – Shishapangma (8.027m)
2005 – Gasherbrum II (8.035m)
2006 – Kanchenjunga (8.586m)
2007 – Broad Peak (8.047m)
2008 – Dhaulagiri (8.167m)
2009 – Lhotse  (8.516m)
Ainda lhe faltam o Everest e o K2.

 

Gerlinde Kaltenbrunner nasceu em uma pequena cidade da Áustria, Kirchdorf-an-der-Krems, em 13 de dezembro de 1970. É claro que sua carreira começou nos Alpes austríacos, ainda muito nova. Em 1994 tentou, pela primeira vez, um OitoMil (o Broad Peak), mas não chegou ao cume – o que conseguiria quatro anos depois, com o Cho Oyu.

Três anos de diferança estiveram entre este e o segundo OitoMil. Coincidentemente (ou não), quando outra montanhista, a espanhola Edurne, iniciava sua busca. A partir daí, ela não parou mais: pelo menos uma ascensão por ano – e em 2004 e 2005, duas (Annapurna e Gasherbrum I e Shishapangma e Gasherbrum II, respectivamente).

Gerlinde é low profile. Ela não se refere a si mesma como “a primeira mulher escaladora a fazer isso ou aquilo”. Para ela, não há diferença entre homens e mulheres nas montanhas. Escala sozinha, com outros homens ou com outras mulheres. Escalou todos os cumes sem oxigênio, e buscando sempre as rotas mais difíceis – ou pelo menos as menos utilizadas. E faz isso sem muito alarde: a publicidade em torno de seu nome é espontânea e ela lida de forma bem tranqüila com isso. Sua máxima é: “Se a montanha não quer você, você deve sair dela”.

Em 2005, Gerlinde conseguiu o respeito e a admiração da comunidade da montanha ao completar a travessia da Face Sul do Shisapangma em estilo alpino, uma escalada non stop de 12 horas, sem cordas, acampamentos, sherpas ou oxigênio artificial. Escalou com o marido Ralf Dujmovits (que este ano, com o cume do Lhotse, tornou-se o 16° montanhista a fechar o circuito dos OitoMil) e outro parceiro constante, o japonês Hirotaka Takeuchi – com quem também fez a Face Norte do Kangchenjunga.

Em 2005, Gerlinde, Ralf e Hirotaka seguiram para o Everest – que pretendiam escalar pela Face Norte – na difícil, perigosa e pouquísimo utilizada rota do Japanese Couloir/Hornbein Colouir, e mais uma vez em estilo alpino. Mas, aos 7.650 metros, na Aresta Norte, Hiro subitamente perdeu a capacidade de falar – típico sintoma do Mal da Montanha, que pode evoluir até a fatalidade. Gerlinde e Ralf o puseram em uma barraca, enquanto seu estado se deteriorava. A austríaca tentava aplicar as drogas de emergência para esses casos, mas o corpo de Hiro estava tão rígido pelo frio que ela não conseguia enconrar uma veia para aplicar a Dexamethasona. Pelo telefone via satélite, contactaram um médico na Áustria – enquanto Hiro apenas pedia: “Tire uma foto minha antes de morrer”, um pouco delirante. Pouco depois, Hiro aparentemente conseguia se mover. Sem cordas fixas ou sherpas, o casal tiveram que improvisar: amarraram Hiro a uma corda e o guiaram pela travessia até a rota normal do Colo Norte. Com o japonês recuperando as forças, conseguiram chegar ao Campo Base Avançado Norte, onde uma expedição comercial os abrigou. Gerlinde e Ralf olharam para o cume, sabendo que a escalada havia terminado. “Mas o que é um cume comparado à vida de um amigo?”, ela disse depois. E o Everest ficou para depois.

Nesta temporada de 2009, Gerlinde chegou ao cume do Lhotse, dividindo o Campo Base – e toda a rota até o Colo Sul – com as expedições que seguiam para o Everest. Com este cume, ela e Edurne estão com 12 OitoMil.

Com o parceiro Hirotaka Takeuchi, na caminhada de aproximação (local não identificado)  

Com o marido e parceiro constante Ralf Dujmovits, em um de seus cumes (não identificado)

 

Escalando na difícil rota do Japanese Colouir, pela Face Norte do Everest: um cume adiado em prol da vida de Hiro.Um pouco antes da travessia com Hiro, um outro problema na escalada da Face Norte do Everest: o marido Ralf perde o crampom da bota direita, que o impossibilita de se mover. A superGerlinde entra em ação: desce até onde se encontra o marido, e depois até o último acampamento, trazendo de volta um crampon sobressalente

Na barraca em um dos campos altos do Shishapangma

 E com Ralf fazendo o cume do Shishapangma: escalada em estilo alpino, um non stop de 12 horas sem oxigênio ou apoio 

Acima e abaixo, na parede vertical do Annapurna

 

A ascensão do Gasherbrum I

O Gasherbrum II, pico do maciço de Gasherbum e 13ª mais alta montanha do planeta, situado na região do Karakoram paquistanês 

Acima, no Campo Base do Kangchenjunga; abaixo, a escalada do terceiro gigante com mais de 8 mil metros de altitude

       

Amanhã, a italiana Nives Meroi, a terceira montanhista em busca dos 14 gigantes da Terra.

Namastê!

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Mulheres nas Alturas - Parte 1

by Patricia Paladino 20. junho 2009 11:37

Caros membros da expedição O Meu Everest,

Todo mundo sabe que nós, mulheres, podemos tudo! Inclusive entrar nessa briga da elite do montanhismo! Portanto, hoje começamos uma nova série – que se junta à série Heróis do Everest – contando um pouco da carreira das mulheres que fizeram história na alta montanha.

Embora este seja um blog dedicado ao Monte Everest, não há como esquecer os outros 13 gigantes com mais de 8 mil metros de altura da Cordilheira do Himalaia. Porque todos os grandes montanhistas que fizeram o Everest também têm muita história para contar nas outras montanhas...

E as mulheres estão lá. A primeira mulher a pisar no cume do Everest foi a japonesa Junko Tabei, em 1975 – e também foi a primeira a fazer dois cumes de 8 mil metros (com o Shishapangma, em 1981). Mas as primeiríssimas a chegar a um OitoMil integraram a equipe japonesa que fez o Manaslu (8.163 metros) em 1974: Naoko Nakaseko, Masako Uchida e Meiko Mori foram as desbravadoras de um gigante himalaio.

Depois delas, muitas mulheres seguiram para o alto. Mas vamos começar esta série pelo final. Focalizando três das maiores montanhistas da atualidade e que estão em uma competição (ainda que velada) pelo título de “a primeira a completar o circuito dos 14 gigantes com mais de 8 mil metros de altitude”. Todas refutam a competição. Dizem que fazem isso sem pensar no recorde e muito menos na disputa por quem vai consegui-lo. Será?

Edurne Pasaban, Gerlinde Kaltenbrunner e Nives Meroi. No ano passado, as três estavam “empatadas”, com 11 cumes. Este ano, as duas primeiras conseguiram mais um. Nives continua com 11. A corrida está acirrada. Nesta temporada, Edurne chegou ao cume do Kanchenjunga, Gerlinde ao do Lhotse e Nives não completou o Kanchenjunga. A briga está boa!! Quem tiver mais força, determinação, sorte com o bom tempo – e dinheiro – entrará para a história do montanhismo mundial. Vamos ao primeiro perfil, de Edurne Pasaban, uma das três maiores escaladoras em atividade.

Série Mulheres nas Alturas - Parte 1 

EDURNE PASABAN

Seus OitoMil:

2001 – Everest (8.848m)
2002 – Makalu (8.463m)
2002 - Cho Oyu (8.201m)
2003 – Lhotse (8.516m)
2003 – Gasherbrum II (8.035m)
2003 – Gasherbrum I (8.068m)
2004 – K2 (8.611m)
2005 – Nanga Parbat (8.126m)
2007 – Broad Peak (8.047m)
2008 – Dhaulagiri (8.167m)
2008 – Manaslu (8.163m)
2009 – Kangchenjunga (8.586m)
Ainda lhe faltam o Annapurna e o Shishapangma.

 

Edurne Pasaban nasceu em 1° de agosto de 1973 em Tolosa, Guipúzcoa, uma província espanhola e território do País Basco. É engenheira técnico industrial, com MBA pela Business School de ESADE, em Barcelona. Hoje, além de escalar altas montanhas, dirige um restaurante-pousada na província basca de Zizurkil e é consultora da ESADE e palestrante motivacional, voltada para planejamento e trabalho de equipe.

Aos 17 anos já escalava, e seu primeiro cume foi o Chimborazo, no Equador. Mas como nosso assunto aqui é alta montanha, vamos enfatizar seus feitos (e os das outras duas) na grande cordilheira.

Edurne começou pelo Dhaulagiri (8.167 metros, a sétima maior montanha do mundo), em 1998, mas não conseguiu chegar ao cume. Sua sucessão de cumes de OitoMil vieram a partir de 2001 – e logo pelo maior de todos eles, o Everest. Seu empenho no projeto a levou a escalar mais de um gigante por ano. Após o cume do Everest (em 23 de maio de 2001), partiu para o Dhaulagiri, mas não chegou ao topo. Em 2002 foram dois cumes: o Makalu, em 16 de maio, e o Cho Oyu, em 5 de outubro. E em 2003 fez o Lhotse, na primavera nepalesa, e partiu para o Paquistão, onde conquistou o Gasherbrum II (em 19 de julho) e o Gasherbrum I (também conhecido como Hidden Peak) apenas uma semana depois. Em 2004, torna-se a única espanhola a cumear o K2, segunda maior montanha do mundo e tecnicamente bastante difícil, e a sexta mulher a fazê-lo. Em apenas cinco anos ela fez sete OitoMil – com o ônus da perda de dois dedos dos pés por congelações no K2, que subiu com outra lenda dos Circuito dos 14 OitoMil, Juanito Oiarzabal.

Edurne Pasaban também tem um marco em sua carreira: foi a primeira montanhista a bater o recorde que pertenceu por muito tempo a Wanda Rutkiewicz, que é considerada a maior montanhista de todos os tempos, e que desapareceu na descida do Kanchenjunga. Até então, Wanda detinha o recorde de cumes em OitoMil (oito), e este recorde se manteve por 15 anos após sua morte. Até a espanhola igualá-lo.

Em 2005, foi considerada a melhor desportista do ano pela Federação Espanhola de Desportos de Montanha e Escalada (FEDME), pela Comissão Mulher & Esporte do Comitê Olímpico espanhol.

Há uma enorme expectativa – e publicidade – em torno de Edurne Pasaban. Em muitas de suas ascensões (como ao Nanga Parbat, ao K2 e este ano, ao Kangchenjunga) ela é acompanhada pela equipe do programa espanhol Al Filo de Lo Impossible, que documenta sua carreira.

A habilidade desta escaladora é notável. Ela tem um estilo agressivo na montanha, fruto de uma enorme determinação e de muita preparação física e psicológica. Edurne vive para (e nas) montanhas.

Campo Base do Everest, lado Norte tibetanto

   

Makalu (à direita, no cume)

 

No Cho Oyu 

Gasherbrum I

Nas fotos acima e abaixo, no K2. Na foto abaixo, chegando ao cume 

 

  

                  No Campo Base do Nanga Parbat                                        Com Juanito Orzabal, no Borad Beak

 

No Kangchenjunga, este ano

 

Amanhã, continuando a série Mulheres nas Alturas, os feitos da austríaca Gerlinde Kaltenbrunner.

Namastê!

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Chopp do Morey em SP

by Patricia Paladino 17. junho 2009 09:38

Membros paulistas da Expedição O Meu Everest

Ô pessoal! Luciano Pires me enviou a foto do Chopp do Morey em Sampa! Só quatro pessoas compareceram... Além do Luciano (para quem ainda não o conhece, aí está ele), compareceram as irmãs Fernanda Finatti e Vanessa Doca. Segundo o Luciano, a Fernanda já fez vários trekkings e acaba de voltar da trilha do Everest, onde subiu o Kala Pattar. Mesmo com pouco quorum, Luciano conta que foi uma noite ótima. Morey levou o laptop com as fotos da viagem e contou muuuitas histórias.

Membros cariocas, vamos fazer uma festa de arromba pro Morey aqui, hein? O encontro deve acontecer na próxima semana, ou no máximo na outra.

Namastê! 

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Recordes e curiosidades

by Patricia Paladino 13. junho 2009 20:22

Foto First Ascent expedition

Caros membros da expedição O Meu Everest,

Em outros posts, já debatemos a importância (ou a bizarrice...) de se quebrar recordes no Everest. Ser o primeiro – em qualquer categoria – parece ser o que “restou da festa”, como um de nossos membros comentou há alguns dias. À primeira vista torcemos o nariz para "o primeiro cego" a chegar ao cume ou para "a primeira coelhinha da Playboy" a subir o Everest. 

Estava pensando nisso ontem e fiz um mea culpa. Há recordes a serem quebrados, sim. E destacados, porque fazem parte do esporte. O montanhismo tem esse lado, e não há como negá-lo. Então fiz uma pesquisa sobre alguns recordes realmente interessantes e valiosos. E é uma forma de homenagear montanhistas que têm este espírito de enfrentar o risco, confiando em suas habilidades, na capacidade de sucesso e no desafio a si mesmo e à montanha. 

 

OS PRIMEIROS

 

É claro! Sir Edmund Hillary e Tenzing Norgay foram os primeiros homens a tocarem os pés no alto do Everest, em 29 de maio de 1953. Enquanto não houver a prova material de que George Mallory e/ou Andrew Irvine conseguiram este feito em 1924, Hillary e Tenzing são os desbravadores da montanha mais alta do mundo.

A PRIMEIRA MULHER

 

A japonesa Junko Tabei foi a primeira mulher a chegar ao cume, em 16 de maio de 1975.

SEM OXIGÊNIO

                  

O maravilhoso alpinista tirolês Reinhold Messner (à esquerda), considerado o melhor de todos os tempos (e o primeiro a completar os 14 gigantes com mais de 8 mil metros), foi, juntamente com o austríaco Peter Habeler, o primeiro a chegar ao cume sem o uso de oxigênio artificial, em 8 de maio de 1978, via Colo Sul.

ESCALADA SOLO

Mais uma vez Reinhold Messner: em 20 de agosto de 1980, o grande escalador partiu sozinho do Campo Base Avançado, pelo lado Norte tibetano, e seguiu ao cume via Colo Norte, Face Norte, atravessando o Great Couloir. Ele escalou inteiramente só, e sem o uso de oxigênio artificial.

PRIMEIRO CUME NO INVERNO

 

Este grande feito foi realizado pelo polonês Krzysztof Wielicki, em 17 de fevereiro de 1980.

MAIS VEZES NO CUME

 

 

Apa Sherpa, a lenda do Everest, é o recordista de cumes: nesta temporada de 2009 ele chegou ao topo pela 19ª vez. E ainda utilizou seu feito por uma belíssima causa, como mostra a foto!

PRIMEIRA MULHER SEM OXIGÊNIO

                       

A detentora deste recorde foi a neozelandeza Lydia Bradey, em 14 de outubro de 1988.

PRIMEIRA MULHER A FAZER O CUME PELOS DOIS LADOS

Foi a sulafricana Cathy O’Dowd, que fez o cume em 1996 (pelo Sul) e em 1999 (pelo Norte). Este é um recorde que eu coloco a contragosto, porque não gosto nem um pouquinho desta escaladora. Quem leu No ar rarefeito deve saber por quê: ela integrava a expedição sulafricana liderada por Ian Woodall que negou-se a prestar qualquer tipo de ajuda aos feridos no Campo 4, durante a tragédia da temporada de 1996. Mas enfim, o recorde é dela.

OS MAIS VELHOS

     

O japonês Katsusuke Yanagisawa tinha 71 anos, dois meses e dois dias quando chegou ao cume, em 22 de maio de 2007. E a mulher mais velha a fazer o cume também é japonesa: Tamae Watanabe, aos 63 anos, em 16 de maio de 2002. Por que colocar estes recordes aqui? Só para mostrar que nunca é tarde para se perseguir um sonho... por mais difícil que possa parecer!

O MAIS NOVO

E só para não deixar de mencionar (a curiosidade fala mais alto...), o mais novo alpinista a fazer o cume é um menino sherpa: Temba Tseri tinha 15 anos em 22 de maio de 2001, quando conseguiu o feito. Mas perdeu cinco dedos por conta de congelamento...

OS MAIS RÁPIDOS

         

Pemba Dorjee Sherpa quebrou o recorde de tempo de ascensão ao cume pelo lado nepalês (Colo Sul) em 25 de maio de 2003. Do Campo Base ao topo, Pemba levou a incrível marca de 8 horas e 10 minutos!

Pelo lado tibetano (Colo Norte) o recorde é do italiano (apesar do nome) Hans Kammerlander, em 24 de maio de 1996: do Base Avançado ao cume, ele levou 16 horas e 45 minutos.

Mas vale um adendo para o segundo colocado nesta categoria “ascensão rápida”. Em 25 de maio de 2003, o recorde de tempo era de Lakpa Gelu Sherpa, de 36 anos, que chegou ao cume pela rota do Colo Sul nepalesa, partindo do Campo Base e chegando ao cume em 10 horas, 56 minutos e 46 segundos. O incrível é que ele não parou para descansar: do início da escalada à sua volta, ele levou, no total, 18h e 20 minutos. Lakpa saiu do Base às 5h da tarde, chegou ao cume às 3h56m46s e chegou de volta ao Base às 11h20 da manhã do dia seguinte.

MAIS TEMPO NO CUME

 

Um dos maiores escaladores do Everest (falecido em 29 de abril de 2001), Babu Chiri Sherpa detém até hoje o recorde de permanência no Topo do Mundo: ele ficou no cume por 21h30m em 1999. Babu Chiri chegou ao cume por 10 vezes, quatro delas pelo lado Norte tibetano.

A SEGUNDA GERAÇÃO

   

Jamling Tenzing e Peter Hillary juntos na comemoração dos 50 anos da ascensão de seus pais, Tenzing e Edmund

O primeiro filho de um “summiter” do Everest foi Peter Hillary - filho do desbravador Edmund Hillary -, em 10 de maio de 1990. Jamling Norgay, filho de Tenzing Norgay (companheiro de pioneirismo de Hillary em 1953), chegou ao cume em 23 de maio de 1996.

A TERCEIRA GERAÇÃO

E a montanha está mesmo no sangue dos Norgay: Tashi Tenzing Sherpa é sobrinho de Jamling, que por sua vez é filho de Tenzing, o pioneiro do clã no Everest. É a terceira geração desta venerada família sherpa a chegar ao topo.

A MAIS ROMÂNTICA ASCENSÃO

E pra finalizar, um recorde em homenagem ao Dia dos Namorados: o casal sherpa Pem Dorjee and Moni Mulepati, ao escalarem o Everest juntos, tinham um plano secreto, que só foi revelado quando chegaram, também juntos, ao cume: eles tiraram as máscaras de oxigênio e colocaram, um no outro, guirlandas de flores de plástico – celebrando, de maneira simbólica, o primeiro casamento no Topo do Mundo.

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Um tapinha não dói?

by Patricia Paladino 10. junho 2009 08:09

Atendendo a algumas solicitações, estou colocando o link para o dispatch de Carlos Morey, o único alpinista brasileiro presente este ano no Everest, que teve de abortar a ascensão ao cume devido a uma malfadada ajuda do sherpa que o acompanhava.

No relato, Morey explica o que aconteceu e os motivos que o levaram a adiar o sonho de chegar ao Topo do Mundo. No fim das contas, o "tapinha" do sherpa doeu... nos sonhos, na alma e no coração de Morey e em todos nós, que acompanhamos a aventura desde o início. E sentíamos que Carlos Morey estava 100% para fazer o cume. 

http://www.omeueverest.com/Blog/post/2009/05/21/Morey-conta-o-que-houve.aspx#comment

O link vai direto para os comentários. É só subir o cursor. Havendo qualquer problema no acesso direto pelo link, o post foi publicado sob o título "Morey conta o que houve", no dia 21 de maio. Basta entrar em nosso Arquivo.

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Chopp do Morey em SP

by Patricia Paladino 10. junho 2009 06:46

Membros paulistas da expedição O Meu Everest

Luciano Pires acaba de marcar data, local e horário para o Chopp do Morey em São Paulo:

Será na próxima terça-feira, dia 16, às 18h30, no BAR DO JUAREZ (Avenida Juscelino Kubitscheck, 1.164, Itaim). Ele deu como referência: fica na esquina com a Rua Atílio Inocenti.

Nós cariocas, estamos esperando a nossa edição! Luciano e Morey estão ajustando suas agendas pra marcar a data.

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Morey responde - Parte 2

by Patricia Paladino 9. junho 2009 15:36

Foto Canadian Mt Everest 2008

   Caros membros,

Nesta segunda parte da entrevista de Carlos Morey, ele fala sobre a escalada propriamente dita. Mostra os aspectos técnicos, fala de sua condição física e psicológica e, claro, sobre o fatídico "tapinha do sherpa" que ocasionou a perda da lente de contato e a conseqüente desistência do cume.

Gerusa Palhares: Depois da Cascata de Gelo, que é o terror do Everest, que trecho você diria que foi mais tenso ou perigoso?

CM: Eu diria que, tirando o trecho entre o Campo 1 e o Campo 2, tudo é tenso e perigoso. A parede do Lhotse é bem inclinada e com muito gelo. Uma queda é fatal. No ataque ao cume, até o Balcony o trecho é inclinado e misto com rochas. Acima do Balcony fica pior, porque o caminho é numa estreita com quedas acentuadas dos dois lados. Subir o Aconcágua não dá base para subir o Everest. O Denali daria.

Patricia Paladino: Como disse a Gerusa, a Cascata de Gelo é o terror de quem tem de atravessá-la durante as escaladas de aclimatação. Como foi a sua reação a ela na primeira travessia? Você fez algum treinamento anterior (sei de muitos montanhistas que, em casa mesmo, colocam os crampons e atravessam uma escada de alumínio entre dois pontos, para treinar...)

CM: O maior problema que eu entendo da Cascata de Gelo é o fato que você a repete várias vezes. Dez, no nosso caso. Só tivemos um treinamento um dia antes de ir para lá. Numa região próxima ao Campo Base, a Jagged Globe montou uma academia para nós praticarmos. E a primeira vez que fomos para a Cascata de Gelo fomos para praticar esse conhecimento. Fomos todos juntos, com todos os guias e chegamos até a metade dele, antes do Football Field.

Patricia Paladino: Você disse que este ano as gretas estavam mais estreitas, e que não foi necessário emendar escadas para atravessá-las. Isso não é muito comum, não é mesmo? Toda a rota da Cascata com fendas próximas umas das outras...

CM: Este ano teve 30 escadas, sendo 20 horizontais e 10 verticais. Dessas, só tinha uma escada tripla e três escadas duplas. As demais eram simples. Isso era uma facilidade, pois escadas com 3 ou (emendadas) 4 devem ser muito complicadas para cruzar.

Patricia Paladino: Após as avalanches, houve uma mudança do percurso na Cascata, obviamente. Isso trouxe uma apreensão a mais? E com a possibilidade de outra avalanche, já que este ano ela parecia estar mais instável?

CM: O percurso na Cascata de Gelo mudava constantemente. Mas depois da avalanche houve uma mudança grande antes de entrar no Football Field. Essa mudança tornou o caminho mais perigoso. Mas a única mudança que tivemos em relação a isso foi que acordamos mais cedo pra enfrentar a cascata. Minimizar as chances de avalanches.

Foto Alan Arnette 

Patricia Paladino: Você considerou o Everest, como dizem, uma montanha tecnicamente fácil de escalar?

CM: Não. Não é das mais difíceis, mas é tão fácil.

Gerusa Palhares: De todas as montanhas ao redor do Everest qual a que te chamou mais a atenção?

CM: O Nuptse, pela complexidade de ascensão e pelas suas cristas. Fiquei imaginando se seria possível escalar as três ao mesmo tempo, Everest, Lhotse e Nuptse. Ninguém nunca fez isso. E uma outra, a Gyachung Kang. Poucas pessoas já subiram essa montanha. É a 15ª mais alta montanha do mundo. A primeira que não tem os 8mil, mas 7.952 metros.

As três irmãs: o Everest (esquerda), o Lhotse (ao fundo) e o Nuptse (à direita). Esta última foi considerada por Morey uma das mais fascinantes montanhas da região. Ela perde um pouco de seu impacto por estar localizada ao lado de dois OitoMil, tendo "apenas" 7.855 metros. Suas cristas espinhadas elevam-se acompanhando toda a rota dos acampamentos superiores, até a parede do Lhotse 

Patricia Paladino: Como você avalia sua performance acima dos 6 mil metros? Em alguns posts vc se dizia “na rabeira” da fila, muito lento, mas a impressão que eu sempre tive é que você era um dos mais fortes (física e psicologicamente) e mais bem aclimatados. Tanto que foi o primeiro grupo a completar a aclimatacão...

CM: Eu devo ter um metabolismo bom para a altitude. Me aclimato bem e rápido. Não tive nenhuma dor de cabeça esse tempo todo. Eu preferia sempre ficar em último. Tem as suas vantagens: o caminho já está mais assentado, não se precisa tanta velocidade e você conhecendo antecipadamente o caminho. Realmente estava bem, física e psicologicamente para o desafio.

Patricia Paladino: Um dos grandes desafios é a parede do Lhotse, pelo seu grau de inclinação. O esforço ali já é uma coisa fora do comum?

CM: É... com certeza. Pior indo no caminho para o Campo 4. Chegamos exaustos. Cruzar o Yellow Band e o Geneve Spur ninguém merece. Até mesmo para descer é cansativo. E se você deixa para mais tarde, o sol não perdoa. Tanto por cima como por baixo (reflexo).

Foto Carlos Morey

O emaranhado de cordas de segurança na parede do Lhotse, entre os campos 3 e 4. Acima, o Geneva Spur

Patricia Paladino: E o ar rarefeito? Tente descrever, se possível, o que é respirar (ou tentar) no Campo 4... E durante o esforço da subida do 3 pro 4 e dali pro cume.

CM: A partir do Campo 3 em diante já usamos constantemente a máscara. Fiquei uns 15 a 20 minutos sem a máscara uma vez. Tudo o que você faz cansa rapidamente. E, depois, comecei a ficar tonto. Coloquei novamente a máscara. Não é uma sensação agradável.

Gerusa Palhares: Tudo que falam do campo 4 e seu lixo é verdade? Pior? 

CM: É o campo mais sujo, mas não achei tanto. Existiam alguns restos das latas de combustível e mais algumas coisas miúdas. O tapete que forma de pedras e neve cobre muito do lixo. Garrafas de O2 existiam, até mais no caminho entre o Campo 3 e o 4. E ninguém sabe quem é o dono e se pode tirar ou não. O pior foram as cordas de outras temporadas. Além de ser lixo, elas também podem ser um grande risco, pois já estão gastas e as ancoragens podem estar comprometidas.

Foto Carlos Morey 

Embora Morey tenha achado que há menos lixo do que ele esperava no Campo 4, a foto mostra que o acampamento está cheio de lixo. E, como disse Morey, um lixo formado por objetos pequenos, que poderiam ser levados para baixo pelos sherpas das expedições, mais fortes do que os alpinistas que tentam o cume. Não sei, mas na minha opinião, o Campo 4 continua sendo um lixão a céu aberto...

Patricia Paladino: O engarrafamento é lendário... Mas sempre que acompanhei expedições, a data de partida do Campo 4 variava entre 22h e meia-noite. Foi uma surpresa pra mim a Jagged Globe sair tão cedo – e depois eu vi que todas saíram, com exceção da First Ascent. Esse horário de partida mudou? Desde quando?

CM: Não sei quando mudou, mas ano passado eles deram como exemplo, para sair às 21h. E isso porque tinham pessoas lentas no time. Mas quando saímos às 21h, já tinham pessoas começado às 20h. Passamos umas 30 a 40 pessoas até chegar no Balcony.

Patricia Paladino: Compreendo que seja uma vantagem sair mais cedo, por conta do horário do cume e da segurança na descida, mas muitas expedições chegaram ao cume por volta das 5h da manhã – imagino que ainda escuro. Vale a pena chegar ao Topo do Mundo e não conseguir ver nada?

CM: Não vale. Pelo menos te dá mais segurança que até meio-dia você chega. E aí tem mais condições, mesmo lentamente, de ir e voltar.

Patricia Paladino: A saída à noite pro cume faz com que uma bela parte da escalada seja noturna. Como é escalar no escuro? Eu li uma frase da Araceli Segarra que acho o máximo: “Só a luz da lanterna de cabeça dando um metro de luz e apenas o barulho de nossa respiração sob a máscara. A impressão é de estar escalando na Lua!”. É isso mesmo?

CM: Sim. Você não tem muito com o que se distrair. Está tudo escuro. Você controla os seus movimentos e as seguranças, mas, de certa forma se interioriza: ouve a sua respiração, monitora os pés e as mãos para que não se congelem e vai dosando as forças. Ao longe consegue ver os contornos do Lhotse e do Makalu. É muito lindo.

Gerusa Palhares: Pelos seus relatos, notava-se que você estava bem lúcido e sabendo o que estava fazendo a casa segundo. Lemos muitas coisas sobre hipoxia e falta total de controle de pensamentos e ações. Você sentiu algo? Viu alguém com estes sintomas?

CM: Realmente estava bem lúcido e ciente do que estava se passando. Não vi ninguém com hipoxia, mas fiquei sabendo de alguns casos de frostbite. Um inclusive no time da Adventure Consultants.

Spincc: Houve uma avaliação anterior, na fase de planejamento, se o uso de lentes de contato poderia representar um risco para a missão?

CM: Sim. Por isso que tinha levado mais 9 lentes e o óculos. O erro foi não tê-los na mão no dia do ataque. O que eu tinha no Campo 4 já tinha colocado na hora da janta. Poderia ter levado o estojo com as antigas. E os óculos: na correria para sair do acampamento me fez não levá-lo. Mas nunca tinha tido esse tipo de problema na minha vida e nem em nenhuma montanha antes.

Spincc: Não seria mais recomendável escalar o Everest de óculos?

CM: Não. Os óculos seriam um problema, pois ele ficaria com os googles (óculos de ski) ou com os óculos de sol (categoria 3 ou 4). O que o pessoal faz (raramente) são óculos especiais/googles com grau. Muito caro.

Spincc: Lentes podem ser utilizadas naquelas condições de alta montanha?

CM: Sim, sem problemas. Só atenção com as condições de higiene e com o ambiente seco que pode precisar de líquidos para hidratar, mas nunca tinha problema antes.

  

A rota que parte do Campo 4 em direção ao cume. A Plataforma Balcony (na foto à direita) fica no início da Crista Sudeste (quando a rota começa a percorrer a parte alta da pirâmide) e foi o local do incidente com a lente de contato 

Marcelo Zeuli: Mais do que o incidente com a lente, o que me preocupou foi a falha com o seu equipamento de oxigênio. Estas falhas são comuns? Se os cilindros de oxigênio são colocados previamente no caminho (Balcony e Cone Sul), não haveria a possibilidade de se colocar previamente máscaras "de back-up"?

CM: As máscaras são meio caras. Elas custam US$ 250. Mas antes vou comentar uma coisa: os cilindros não são colocados antes. O sherpa saiu com dois cilindros para ele (um usando) e dois para mim. E eu usando um. No Balcony, deixei o meu e peguei um dos cilindros do sherpa. O que deixei usaria na descida a partir do Balcony. No Cume Sul, repetiria o processo. Aí o sherpa fica mais leve.

Mas voltando à máscara: existem dois modelos que eu vi, a Poisk e a Top Out. Acreditava que a Top Out fosse melhor, mas me decepcionei. Ela apresentava problemas a cada hora. Teríamos que ter várias máscaras de backup. E isso iria dar o trabalho de conectar no regulador. A melhor solução seria estudar uma melhor máscara.

Patricia Paladino: Na verdade, também fiquei pensando muito sobre o problema com o oxigênio. Você tinha ciência dos problemas que as expedições vêm tendo, ao longo dos anos, com a adulteração do oxigênio dentro das garrafas? E dos equipamentos, não tão confiáveis, que algumas oferecem aos escaladores? Acha que pode ter havido algo similar com você?

CM: Não creio. O problema foi generalizado com outras pessoas da expedição. Eu prefiro apostar que se procure uma solução melhor de máscara. Apostava que a Top Out fosse melhor, mas me decepcionei.

Patricia Paladino: Você conhece Henry Todd, que se autointitula “fornecedor exclusivo da Poisk”? Sabe se ele ainda continua fornecendo oxigênio para as expedições?

CM: Continua. Acho que é o único fornecedor mesmo. Pelo menos foi o que me contaram. O vi passando pelo Campo Base. Inclusive deixou um notebook na nossa Comm Tent. Acho que para conectar a Internet.

Gerusa Palhares: O que te passou na cabeça após o "tapinha" do sherpa? Ou depois, sobre o tal "tapinha"?

CM: Não o culpo. Ele estava tentando me ajudar. O local também não ajudava. E mais: ele salvou a minha vida me ajudando a descer até o Campo 4.

Patricia Paladino: Você disse no dispatch que considerava essa atitude (o tapinha...) normal, dentro das circunstâncias. Mas o que levou o sherpa a isso? Qual era exatamente o problema e não daria para tirar a máscara por um momento e tentar outra manobra?

CM: Acho a atitude normal, pois várias pessoas já estavam saindo do Balcony e iriam nos passar, separando-nos dos demais da Jagged Globe. Se tivéssemos mais tempo, poderíamos tirar a máscara e tentar outros meios, mas vale lembrar que a máscara apresentou problemas para todos e várias vezes durante a subida. O Nick, por exemplo, tinha problemas de hora em hora. O Doug arrancou o protetor da saída de CO2. A equipe Orange teve mais sorte, pois passamos as nossas experiências para eles. 

Patricia Paladino: Você disse ter passado pelo corpo de Scott Fischer na subida pro cume. E a rota passa exatamente por ele ou um pouco distante? E deve haver outros corpos durante toda a rota, desde o Vale do Silêncio. Que tipo de impacto vê-los lhe causou?

CM: Na verdade eu não o vi. O Willie me disse no dia seguinte que existiam os corpos e onde eles estavam. Quando passei por lá, era de noite e eu estava mais preocupado com a minha escalada. E sobre outros corpos, não vi e não ouvi falar disso. O Willie só me disse desses corpos ali e o do Rob Hall. Acho difícil que se tenha. Abaixo do Campo 3 é fácil resgatar e trazer para baixo. Só acima do Campo 4 que as coisas pegam.

Eduardo Justo: Minha pergunta é muito simples. Aliás, é uma curiosidade: quando um alpinista chega ao topo de uma montanha superconcorrida como o Everest, quanto tempo ele pode ficar ali em cima? Porque se é verdade que as vezes sobem 100 pessoas de uma vez só, eu imagino que quando você chega ali em cima,  fica cinco minutos e tem de descer logo, porque deve ter uma fila enorme de gente esperando pra subir. É isso mesmo? Se for isso, deve ser muito frustrante, porque você não pode nem parar para curtir a chegada ao cume.

CM: Esse tempo é relativo. Por exemplo, o Thomaz e o Chris, do time Orange, chegaram às 4h30 e as condições climáticas eram boas. Eles ficaram até às 6h. Em compensação, o David Hahn e a Melissa Arnot (guia da First Ascent) pegaram, em outro dia, um terrível witheout (tempestade de vento e neve) e só puderam ficar dois minutos. Tudo depende do tempo e de suas condições.

Gerusa Palhares: E agora, meu amigo, você me deve uma montanha. Quanto tempo pretende ficar longe delas? 

CM: Espero já voltar no final do mês ou em julho. Não quero perder o preparo que adquiri lá. Serra Fina é a minha “praia” preferida.

Patricia Paladino: Você irá tentar o cume novamente no ano que vem? Ou em algum outro momento? Ou abandonou o Projeto Sete Cumes?

CM: Devo tentar novamente. A minha personalidade não me permite deixar algo incompleto ou mal feito.

Gerusa Palhares: Você pretende tentar o Everest novamente?

CM: Sim, mas não em breve. Daqui uns 5 ou 10 anos.

 

É isso, pessoal. Acho que Morey tirou todas as nossas dúvidas.

Namastê! 

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Morey responde - Parte 1

by Patricia Paladino 8. junho 2009 06:30

 Caros membros da expedição O Meu Everest

Carlos Morey, muito gentilmente, já respondeu à nossa entrevista - ou ao nosso "interrogatório", como brinquei anteriormente. Ele sabe que a escalada despertou um grande interesse em todos nós, e que é natural que tenhamos muitas curiosidades e dúvidas quanto ao que aconteceu na montanha mais alta de nosso planeta.

Entretanto, a entrevista ficou realmente muito longa. Por isso vou publicá-la em duas partes. A segunda, publico amanhã. Todas as perguntas deixadas pelos nossos membros como comentários foram enviadas ao Morey, e todas foram respondidas - e tanto perguntas como respostas estão aqui publicadas na íntegra. Eu tive que dar uma editada apenas por temas, para dar uma continuidade lógica à entrevista, e por isso nem todas as perguntas de um mesmo membro estão agrupadas.

Nesta primeira parte, Morey fala sobre a preparação para a escalada, sobre a trilha, o relacionamento com os sherpas e o clima no Campo Base. Temos até uma "fofoquinha" sobre "quem pegou quem", só pra descontrair... Na segunda parte, falaremos mais dos acampamentos superiores e dos problemas que aconteceram no dia do cume. 

Por "desvio" da profissão - e também por ter as minhas dúvidas e curiosidades - eu complementei muitas perguntas de nossos membros. Por isso, identifiquei quem faz a pergunta no início dela.

Vamos, então, à primeira parte da entrevista de Carlos Morey:

João Marcos da Silva Barros: Do início da preparação até o começo da escalada, quantos quilos pesava, quanto passou a pesar (no início da escalada) e quanto está agora? 

Carlos Morey: Eu viajei com 75kg e voltei 67kg. Perdi 8kg na dieta Everest do Spa Himalaia. Não porque comemos mal, mas consumimos mais. E perdi não gordura, mas sim musculatura. Como mencionei antes, nos estudos sendo feitos, o corpo humano prefere essa estratégia.

João Marcos da Silva Barros: Quais os exercícios que fazia na preparação e com que freqüência?

CM: Treinava todos os dias durante os últimos quatro a seis meses. Inclusive domingos. Para evitar uma fadiga eu balanceava os treinos (pernas, abdominais, braços e peito). Os treinos mais interessantes eram:

- Escada de prédio (200 andares)

- Corridas (10km)

- Trilhas com 20kg nas costas

João Marcos da Silva Barros: Que tipo de alimentação mantinham (na preparação e depois, na montanha)?

CM: Eu treinei bastante. Nos últimos dias eu comi muita proteína (carnes e suplementos) e carboidrato (massas). Lá comíamos mais carboidratos. Na janta tinha sempre uma massa. E foram as minhas escolhas para os campos altos.

Gerusa Palhares: Os dois anos de treinamento foram 100% eficazes, ou você acha que alguma coisa deveria ter sido feita ou não feita? Mudaria alguma coisa em seu treinamento para uma próxima vez?

CM: Eu reforçaria o treinamento das escadas (com pesos) e trilhas com grande desnível de altitude. Esse foco ajudaria a encarar com mais facilidade a Lhotse Face e o ataque ao cume. Sobretudo nas descidas.

Gerusa Palhares: Você disse que sua mochila era grande e pesada para o Everest. Que tipo de mochila seria a ideal e por que? Que tipo levam para lá?

CM: Além do peso, a barrigueira da minha mochila cobria a cadeirinha. A mochila de ataque ao cume deve leve e caber o cilindro de oxigênio. As Day Packs são adequadas. Eu acabei usando a Spire 32 da North Face.

Foto de Robb Kendrick / Nat Geo

Patricia Paladino: Como é Namche Bazaar? A impressão que eu tenho é que é uma grande celebração de montanhistas de todas as partes do mundo, um lugar divertido e contrastante: pelo que sei, tem cozinha internacional, Coca-Cola, internet, luz elétrica, TV (ou DVD) – e ao mesmo tempo o ritmo de vida dos sherpas. Como é esse lugar? 

CM: Eu não queria tirar o seu encanto, mas Namche é uma cidade sherpa com todos os recursos que você mencionou, mas não tem muitos montanhistas. Eles passam por ali e vão embora mais para cima. Existem mais trekkers. Isso tudo na temporada... Quando partimos, era o último dia da temporada. Os sherpas estavam começando reformas no centro, fechando lodges, saindo da cidade etc. Mas é um lugar legal. Agitado. Come-se e bebe-se bem, sem gastar muito.

Luciano Pires: Sempre ouvimos que o montanhismo é onde a noção de companheirismo mais está presente. Um por todos e todos por um. Histórias de solidariedade aos montes. Mas em seus posts você deixava transparecer que só conseguiu estabelecer amizade com um ou dois de seus companheiros. Afinal, num desafio como o Everest é realmente um por todos/todos por um ou cada um por si?

CM: Não havia um clima de discórdia e nem de competição entre nós. O Douglas já tinha feito seis das sete montanhas do 7 Summits. Disse a ele que fazia questão que ele chegasse primeiro do que eu no topo. Acatamos todas as decisões dos guias sem questioná-las ou duvidá-las.

Também posso dizer que quando ocorreram os incidentes na montanha todos se mobilizaram. Para carregar a maca do sherpa que estava envenenado pelo metanol tinha umas 20 ou 30 pessoas. Fiquei impressionado.

Mas houve, sim, um conflito entre os líderes. Foi velado enquanto estávamos lá, mas em Kathmandu ficou mais visível. Mas os motivos, entendo, vêm do comportamento de um perante a experiência do outro.

Patricia Paladino: Complementando a pergunta do Luciano, houve, entre os membros da Jagged Globe, algum tipo de disputa interna e velada?

CM: Só entre os líderes. Internamente não. Houve uma coisa curiosa entre o casal Neil/Amanda. Ela chegou ao cume, ele não. Ele ficou chateado com a situação.

                      

Willie Benegas, alpinista com oito cumes do Everest e que este ano guiou pela expedição da Jagged Globe

Patricia Paladino: Após ler High crimes, e antes mesmo, pelo que você falou sobre o Willie Benegas, descobri que os Patagonian Brothers são seres humanos incríveis, além de montanhistas de elite. Esta foi mesmo a sua impressão da postura do Willie como guia – e como montanhista?

CM: O Willie me surpreendeu em dois aspectos: o amor pela montanha e pelo sherpa. Ele era um dos únicos que se preocupava com a limpeza da montanha (cortava as cordas de outras temporadas), carregava e coordenava a limpeza de todos os campos antes de sair. E, com relação aos sherpas, até dava a impressão que ele gostava mais deles do que de nos. Quando o sherpa ficou envenenado, ele não saiu da tenda médica. Inclusive passando as noites.

Patricia Paladino: Houve outra pessoa que tenha lhe impressionado por estas características no Everest?

CM: Além dele, quem eu tive a oportunidade de conhecer, só o irmão gêmeo dele, o Damian, e o David Hamilton, que este ano esteve com a Adventure Consultants. Russel Bryce não. Este estava mais preocupado em atender às suas datas e compromissos. Ed Viesturs e Dave Hahn estavam mais preocupados com a sua expedição.

  

               Ed Viesturs, 8 cumes no Everest                      Dave Hahn, 11 cumes no Everest, um recorde entre os ocidentais

Gerusa Palhares: Você esteve entre grandes nomes do montanhismo mundial: Ed Viesturs, Dave Hahn, entre outros. Você conversou com eles? Algum te chamou a atenção? Ler sobre estes homens é uma coisa, estar na mesma montanha é outra bem diferente...

CM: Não conversei com eles. Encontramos com eles várias vezes, mas eu não sou muito de incomodar as pessoas para tirar uma foto ou fazer o papel de tiete. Mas me senti muito honrado de dividir a montanha com eles, com o Apa Sherpa, com o Mimgma, com o Willie etc. Mas todas as vezes em que nos encontramos ou que eles conversaram com a Adele, eles foram muito educados e cordiais. Não me pareceram que a fama lhes subiu à cabeça.

Patricia Paladino: Complementando a pergunta da Gerusa: na primeira entrevista que fizemos, você disse que não tem essa coisa de “ídolos no montanhismo”. Mas eu tenho... E um dos meus “ídolos” (na falta de uma palavra melhor...) é o Ed Viesturs. Aparentemente, ele me parece ser (além de um dos maiores, senão o maior, escalador de altas montanhas em atividade) uma pessoa muito simples, de fácil acesso, simpático com todos. É isso mesmo ou essa minha imagem vai por água abaixo?

CM: Pareceu-me uma pessoa simples, simpática, mas distante. Lembro-me que em Dingboche ele ficou um tempo sozinho do lado de fora do lodge. E os demais do time dele dentro do lodge. Depois ele voltou para o lodge e começou a tomar algumas cervejas. Que inveja. Como era subida... eu me preservei. Mas também concordo que ele seja o melhor montanhista do momento.

Gerusa Palhares: Como mulher escaladora, você não acha que quando disse: "A única mulher do grupo sempre procura uma certa evidência", sobre Adele Pennington, não acha que é um pouco de machismo da sua parte? Por que ela iria querer isso? Afinal, na montanha somos todos iguais. Ela não diferencia sexo, cor ou religião. Morey, você é machista, heim? Hehé... 

CM: Espero que não seja machista. Não era a idéia do comentário. Assim como também não acho que não somos iguais na montanha. Tecnicamente sim, mas internamente não. Eu acredito que mulheres sofrem mais na montanha. Por exemplo, menstruação (existem técnicas de se evitá-la, mas homens nem isso têm). Enquanto em nós cresce a barba, nas mulheres crescem os pelos. As vaidosas podem sofrer com as pernas peludas.

Agora, com relação ao que eu quis dizer da Adele, independente de ela ser mulher ou não, ela tinha um comportamento meio autoritário. Almocei em Kathmandu com Willie, Damian, Thomaz e a Mara. Alguém tinha comprado um pequeno sino. Aí o Thomaz pegou o sino e começou a imitar a Adele: “Mara, cadê o meu chá?! Está sem açúcar!!! O banho está pronto? Etc etc”

Patricia Paladino: E a sua impressão dos sherpas? Eles sempre são descritos como um povo hospitaleiro, simpático. E os carregadores, como até humildes demais, mas sempre solícitos com os ocidentais. É isso mesmo?

CM: É isso mesmo. São maravilhosos. São até humildes demais, e você se sente mal. Como escrevi antes, um deles trouxe a minha duffel bag e a do Ian. Talvez uns 40kg. Menino ainda (uns 15 anos). Baixo (batia no meio peito) e com chinelo nos pés. Me cortou o coração. O meu sonho é ter um Personal Sherpa.

Patricia Paladino: E a relação dos ocidentais com eles? É uma relação empregado-patrão ou mais próxima (digo com os carregadores, cozinheiros, não sherpas alpinistas).

CM: Até não temos muito relação com eles. Tivemos mais com os sherpas que foram os nossos acompanhantes no dia cume. Com o Phurba, por exemplo. Foi o que mais ficamos amigos. Sempre nos cumprimentava e perguntava se estávamos bem. Mas era um dos poucos que falava um bom inglês. Os carregadores e cozinheiros falam muito pouco. O sherpa que foi comigo, Nima Galyen, falava bem mal. Isso, creio, atrapalha muito essa relação, que poderia ser melhor.

Patricia Paladino: Já li muito sobre sherpas carregadores de alta montanha que, de uns tempos pra cá (talvez pelo contato conosco, ocidentais...) têm atitudes muito pouco louváveis lá em cima. Extorquir mais dinheiro do que o combinado pra fazer o trabalho, roubar equipamentos e comida, abandonar clientes... Você viu alguma coisa disso? 

CM: A única coisa que eu soube sobre isso ocorreu com o Chris em 2005. Ele foi abandonado entre o Balcony e o Cume Sul. Este ano ele estava preocupado. No nosso esquema isso seria impossível, pois eles eram contratados da Summit Trekking. Se fizessem isso eles perderiam o emprego. Sem contar que eles são usados para outras expedições da Jagged Globe até fora do Nepal. Mas não desconfiaria que isso realmente existe... Mas é triste.

                                                                                                                                     Foto Discovery Channel Expedition

Um dos Ice Doctors, sherpas alpinistas contratados para abrir a rota na Cascata de Gelo, instalar as escadas e as cordas de segurança e fazer a manutenção da Icefall durante toda a temporada. Este ano, devido às três avalanches, eles tiveram muito trabalho reabrindo o caminho de mão dupla para a parte alta da montanha...

Patricia Paladino: Os sherpas alpinistas têm o respeito das expedições? Não apenas o sirdar, mas todos?

CM: De todos. O Mimgma tem 14 cumes do Everest... Sem contar outros. O Nima, tem sete... Até de outros sherpas eles devem ter respeito.

         

                       

Patricia Paladino: Este ano, como no ano passado, a Asian Trekking promoveu a expedição Eco Everest.  Outras expedições de limpeza também têm sido organizadas há algum tempo. Pelo que tenho lido, nem sempre estas faxinas têm o propósito a que se destinam... Por outra, já li que uma dessas “expedições” recolheu basicamente seu próprio lixo e mais um tantinho, mas angariou simpatia e alguns milhares de dólares pela iniciativa. O que você percebeu este ano? A coisa foi séria mesmo ou mais balela? 

CM: Esse ano teve algumas iniciativa do nosso time (Summit Trekking, sub-contratada da Jagged Globe no Nepal) de trazer algumas dessas garrafas de O2 órfãs. Nós coletamos dinheiro para dar aos sherpas que trouxessem essas garrafas. Nós mesmos, sinceramente, não temos condições físicas para tal.

Mas sempre é uma iniciativa pontual. Pessoas que têm esse objetivo, como o Willie. Ele incentivou bastante essa iniciativa nossa. E posso dizer que o Everest não é uma montanha suja. Graças a Deus.

Patricia Paladino: O Campo Base também deve ser um depósito de lixo a céu aberto. E eu costumo chamar o Colo Sul do “lixão mais alto do mundo” – inclusive, há umas duas temporadas, eu acho, havia o cadáver de um sherpa entre o lixo das expedições. O corpo dele ainda está lá?

CM: Diria que não. Vou passar uma foto que tenho do Colo Sul e você irá ver algum lixo, mas nada assim tão feio como esse relato. Se pudesse apostar, diria que o corpo não estava lá, pois não ocupamos um espaço grande do Colo Sul.

Patricia Paladino: Qual a sua impressão sobre o impacto deste lixo (e do lixo “orgânico” de homens e iaques sendo depejados nas geleiras...) no meio ambiente na montanha e em seu entorno? O Luciano descreveu a trilha até o Campo Base como um “mar de cocô de iaque” e com muita sujeita. É isso mesmo?

CM: Existe o coco do iaque sim. Mas vai se pisando e ele vai se misturando com a terra. Se um sherpa vê, ele cata. Eles usam como adubo. Não é nada diferente dos cocôs das mulas do Aconcágua ou de uma fazenda. Não me senti tão incomodado com isso. Como mencionei anteriormente, não achei o Everest sujo.

O que achei ruim foram os banheiros do Campo 1 e 2. Poderiam ser melhores. E, creio, depois da temporada eles enterram. Essa poluição poderia ser evitada.

 

 

  

Patricia Paladino: Como é o clima do Campo Base? É aquela zona que todo mundo fala? Tem festa a toda hora?

CM: Não tem quase festa. Pelo menos eu não vi nenhuma. Só as croatas que faziam alguma zona, mas a maioria do pessoal se preservava. Eu dormia num silêncio sepulcral. Por isso não creio que houvesse muitas festas. A única exceção as barracas das expedições era a Bakery e a barraca médica.

Patricia Paladino: Há relacionamento entre os membros das expedições ou só dos líderes?

CM: Líder com lideres. Raramente entre clientes com clientes. E alguns clientes com líderes que foram ex-líderes. Por exemplo, o líder da Adventure Consultants é super meu amigo. Foi o meu guia na Antártica. De novo, a exceção foram as croatas, pois todos os homens ficaram babando atrás delas. O Willie pegou a médica deles, o Chris pegou uma e o Thomaz outra.

As irmãs croatas Darija e Iris Bostjanèiã, sucesso absoluto no Campo Base. Mas parece que o namoro não atrapalhou a escalada das meninas: as duas chegaram ao cume em 19 de maio...

Patricia Paladino: Os alpinistas “figurões” (famosos e requisitados) se relacionam com todo mundo ou se mantêm na redoma?

CM: Relacionavam-se na boa. Às vezes apareciam umas pessoas no nosso acampamento. Creio que de outros Everests, e o Willie, por exemplo, os tratava como se fosse conosco. Sem altares...

Patricia Paladino: É verdade que rola uma certa doideira? Bebida, droga, muuuito namoro?

CM: Droga, só Diamox. Bebida, vi umas cervejas rolando, mas mais quando voltamos. Até entrei na roda. Antes, jamais. O namoro foi por causa das croatas. Fora elas, seria homossexual, pois 95% é do sexo masculino.

Patricia Paladino: Você se mostrou sempre muito pragmático em relação à “mística” do Everest. Mas estando lá, tocando a montanha, você sentiu que tipo de emoção?

CM: Sim, uma energia. Das montanhas como um todo. Se você reparar, você fica sempre longe do Everest. Só os campos 2 e 4 permitem você tocar nele. Ele é muito magnânimo. Lindo.

Patricia Paladino: Como eram as horas livres entre as escaladas de aclimatação? Eu mesmo escrevi na matéria de O Globo que escalar o Everest é um exercício de paciência. Enche o saco, de vez em quando?

CM: Enche o saco. Sobretudo porque as minhas companhias não ajudavam. Eles não eram bons parceiros para passar o tempo. O que eu fazia era ir para a barraca e planejar o que eu faria quando voltasse para casa. Estou tocando agora uma reforma em casa.

É isso, pessoal. Amanhã, a segunda parte, com Morey respondendo às nossas dúvidas quanto ao "tapinha do sherpa", o uso de lentes na escalada e muito mais.

Namastê!

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Além do topo, o filme

by Patricia Paladino 5. junho 2009 06:31

Não podia deixar de publicar este post hoje.

Há algum tempo, gravei o filme Más alla de la cumbre, sobre a trágica ascensão do montanhista venezuelano José Antonio Delgado ao Nanga Parbat. Eu já conhecia a história e sabia que havia sido feito um belo documentário sobre a escalada. Qual não foi minha surpresa quando a HBO passou o filme, sem legendas. Gravei na hora. Mas não tive tempo de vê-lo – até ontem à tarde, quando arrumei um tempinho pra tirar um espacinho de folga. Comecei como sempre: esperando um documentário sobre uma tragédia em uma alta montanha. 

Mas foi uma linda surpresa. Ninguém que ama montanhas deve deixar de ver. Um dos mais sensíveis documentários sobre escalada que eu já vi – e olha que eu já vi muitos. Estamos tão acostumados àquele formato comum de filmes de alpinismo: preparação da expedição, chegada ao Nepal, Tibet ou Paquistão, o caminho pela trilha, a chagada ao Campo Base, os perrengues, algumas perdas (raramente o personagem principal do documentário...), e finalmente o sucesso do cume. O roteiro quase não muda.

Meu irmão – que não é nem um pouco aficcionado por montanhismo – sempre diz que parece estar vendo o mesmo documentário. E ele não deixa de ter um pouco de razão... São poucos os que fogem da mesmice em relação ao roteiro, fotografia, direção de arte e condução da narrativa. Lembro que o filme de David Breashears para a IMAX é uma exceção, tem um pouco desse espírito. Mas não como Más alla de la cumbre.

Vou resumir um pouquinho da história de José Antonio Delgado, para quem por acaso não o conheça. Ele era um dos mais bem-sucedidos – senão o mais – escalador venezuelano de altas montanhas. Tinha 15 anos de experiência e já havia chegado ao cume de quatro dos gigantes OitoMil: o Cho Oyu (8.153m), em 1994; o Shishapangma Central (8.008m), em 1998; o Gasherbrum II (8.035m), em 2000; o Everest (8.848m), em 2001; e, em 12 de julho de 2006, chegou ao cume do Nanga Parbat (8.126m). À exceção do Everest, foi o primeiro venezuelano a fazer o cume dos outros picos e o único a ter cinco OitoMil. Era casado com Frida Ayala e tinha dois filhos, Sofía e Tomás.

O alpinista venezuelano José Antonio Delgado 

Ele escalava o Nanga Parbat pela Cara Diamir (rota Kinshofer) com seu companheiro Edgar Guariguata, de 23 anos. Os dois permaneceram por vários dias entre os campos 2 e 3, à espera da janela de bom tempo. Mas Guariguata, acometido por fortes problemas estomacais, desistiu do cume e voltou ao Campo Base, para dar suporte à escalada de Delgado, que continuou subindo.

José Antonio Delgado chegou ao cume do Nanga Parbat em 12 de julho. Entretanto, uma repentina tempestade o forçou a um bivaque (pernoite sem barraca) entre o cume e o Campo 4. No dia seguinte, conseguiu chegar ao Campo 4, e relatou a situação ao Campo Base pelo rádio, que o acompanhava através do telescópio. Mostrava-se muito preocupado com o clima terrível e seu estado, após uma noite exposto próximo aos oito mil metros. Guariguata, então, começou a preparar a logística para trazer Delgado para baixo. 

As condições climáticas não permitiam a chegada de uma equipe de resgate à montanha por helicóptero e – como sabemos – do Campo Base, Guariguata levaria muito tempo para chegar até ele. E não conseguiria fazer isso sozinho. No dia 16 de julho, Delgado avisou ao Base que estava há dois dias sem comida e sem água, já com alguns congelamentos, e que iria tentar descer até o Campo 3. Foi a última vez que ele entrou em contato por rádio.

Finalmente, em 17 de julho, um helicóptero trazendo seis montanhistas de elite da Pakistan Adventour Tours consegue pousar no Campo Base do Nanga Parbat. Neste meio tempo, Frida, a mulher de Delgado, já estava em Islamabad, coordenando toda a logística. O time de resgate imediatamente começou a subida ao Campo 3, na esperança de que, se tivesse conseguido chegar até ele, Delgado estaria alimentado e hidratado, e poderia ter sobrevivido.

Em 18 de julho o resgate chega ao Campo 2, mas é impedido de ir além por conta do clima – o que só consegue fazer no dia seguinte. Em 20 de julho, o tempo melhora e o helicóptero sobrevoa o Campo 3, localizando a barraca de Delgado.

Mas, mais uma vez por conta do clima, o resgate só consegue encontrar José Antonio Delgado no dia 22 de julho de 2006. Após 10 dias sob frio intenso, tempestade inclemente, com diversos congelamentos e sem comida ou água, ele não resistiu. Seu corpo foi encontrado entre os campos 4 e 3, a cerca de 400 metros da barraca e a 7.100m de altitude.

Uma linda montanha: este é o Nanga Parbat, um dos 14 gigantes da Cordilheira do Himalaia, com 8.126m. Localizada no Paquistão, é a nona montanha mais alta do mundo 

Esta é a história de José Antonio Delgado. Mas não é essa a história de Más alla de la cumbre. O filme não mostra a operação de resgate. Durante todo o documentário, sua narrativa é centrada no que Delgado diz, pensa e sente sobre montanhas e montanhismo. E vamos aprendendo a admirar sua sensível (e sensata) visão. Mostra, claro, algumas de suas ascensões – e é focado na expedição ao Nanga Parbat. Mas o que torna o filme imperdível é a forma como isso é contado. A tragédia é mostrada através de uma transmissão (tocante) de Delgado após o bivaque e no desespero de seu companheiro no Campo Base a partir daquele momento. Uma visão humana, simplesmente. Sem heroísmo.  

    A direção é impecável; o roteiro, como já disse, foge totalmente dos clichês dos filmes de montanha. A fotografia é deslumbrante e a música, pontua de forma exata toda a emoção da narrativa (o tema final, Un lugar tranquilo, de Alberto Arvelo, é emocionante).  

   Eu gravei o filme sem legendas e o sotaque da Venezuela é um pouquinho mais complicado de entender do que o argentino e o espanhol, aos quais estamos mais acostumados. Mas não importa. Se perdi uma ou duas frases, apreendi o sentido do sentimento que Delgado tinha em relação às montanhas, ao montanhismo, à família, à vida e à morte. O depoimento de sua mulher, Frida, é comovente. A compreensão que ela tinha da paixão do marido é incrível.

   Ao final, quando o companheiro de escalada Edgar Guariguata vê-se impotente no Campo Base, tendo certeza que seu amigo morria lá em cima – e sem nada a fazer a não ser esperar pelo resgate ou que Delgado conseguisse descer sozinho –, ele mesmo grava alguns depoimentos registrando a angústia. E nos leva junto. Seu choro – primeiro contido, depois de raiva pela impotência – é um dos momentos mais emocionantes que eu já vi em filmes deste tipo.

O mais tocante no filme: ele começa e é pontuado, em todo o tempo, por desenhos de uma história infantil. A história de um elefante que sonha com uma montanha alta e decide escalá-la. O elefante forma uma equipe (um camelo, um canguru e um iaque) e todos partem em busca de sua montanha. A história é contada por duas crianças ao longo de todo o filme, complementando de forma lúdica os depoimentos de Delgado e suas escaladas.

 

 

         

          

  

Ao final entendemos que o conto é La gran montaña, escrito por José Antonio Delgado, com ilustrações de Carmem Salvador. E narrado por Sofía e Tomás, filhos de Delgado.

É tão lindo, tão sincero, tão sutil, tão sensível como nenhum outro que eu já tenha visto.

Não percam. Fiz uma pesquisa no site da HBO e ele será reapresentado – com o título em português, Além do topo – pelo canal Cinemax nos dias 2 de julho, 9 de julho e 31 de julho. E deve ser com legendas.

Encerro este post com o texto de Delgado ao final do filme:

“… y quién dice que no están destinadas para la vida humana [las montañas]?... Si alguien fue y volvió no se puede decir que no están destinadas para la vida... Soy afortunado, tal vez demasiado. Las cumbres me han conquistado.”

José Antonio Delgado
Caracas, 1965 – Nanga Parbat, 2006

Namastê.

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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