Última subida antes do cume

by Patricia Paladino 29. abril 2009 17:23

O paredão inclinado do Lhotse, quarta montanha mais alta do mundo e vizinha ao Everest. Ele é o caminho para o Campo 3, para onde se dirigem as expedições esta semana, na última etapa de aclimatação

 Todas as expedições presentes no Everest estão seguindo para a última escalada de aclimatação antes do descanso pré-cume. Hoje, 29 de abril, segundo o último dispatch de Morey, o time da Jagged Globe (ou os que estão fortes e sem problemas de saúde) está fazendo a primeira incursão ao Campo 3, a 7.400m.

O programa de aclimatação (como tudo na montanha) é definido pela natureza. A "janela" de bom tempo existente no Everest antes da monção de verão - que torna impossível a subida - geralmente acontece entre a segunda e a última semana de maio. E é assim, de trás para a frente, que os times executam seu processo de aclimatação e o fortalecimento físico e técnico dos alpinistas para a subida final.

Por isso todos seguem o percurso ao mesmo tempo. É claro que, como nos contou Morey sobre sua equipe, há os imprevistos físicos que assaltam alguns membros. Este é o "processo de seleção natural" do Everest. A altitude vai debilitando e causando problemas. A estes não resta outra alternativa a não ser: melhorar ou desistir. E a melhora deve ser rápida, para que o processo individual de aclimatação acompanhe o do grupo que se mantém forte. Portanto, daqui a poucos dias já saberemos quem vai e quem não vai continuar a jornada.

Relembrando o cronograma de Morey para esta semana:

hoje, 29 de abril, ele está fazendo o reconhecimento do Campo 3; na quinta e na sexta, descansa no Campo 2 (Campo Base Avançado); no sábado, ele sobe novamente ao Campo 3 e pela primeira vez passa uma noite lá; no domingo, descida e descanso no Campo 2; e na segunda-feira, volta ao Campo Base. Neste dia esperamos um dispatch de Morey, contando como foi seu encontro com os 7.400 metros.

 

Este é o percurso de Morey (e das demais expedições) esta semana

Muitos se perguntam por que esse sobe e desce. Já falamos sobre a aclimatação - a adaptação gradual do organismo humano ao ar rarefeito (não esquecemos que, no Campo Base, há apenas 50% do oxigênio disponível ao nível do mar para os pulmões dos alpinistas. No topo, a mísera porção de 30%!). Mas uma parte importante do processo se refere às incursões para pernoite. A máxima do alpinismo de altitude é: "suba alto e durma abaixo". Ou seja: se a equipe está dormindo no Campo 2, faz uma subida ao 3, desce e dorme no 2. Só após a primeira ida a uma altitude maior (e pernoite abaixo) é que se dorme mais acima. É isso o que Carlos Morey estará fazendo até domingo. Ele subiu hoje ao Campo 3. Desce, descansa dois dias e sobe de novo - dessa vez para dormir acima do 7 mil metros.

Depois disso, é preparar-se para a janela de bom tempo - quando os times partem para um descanso a uma altitude bem mais baixa do que a última alcançada. No caso da expedição da Jagged Globe, eles irão, no início da semana que vem (e por cinco dias), para Dingboche ou Periche, vilas da trilha para o Campo Base, coladinhas uma à outra, a 4.200 metros - quase 3 mil metros de desnível em relação ao último acampamento. Pelo cronograma inicial da expedição, e que nos foi passado, o descanso seria em Dingboche. Entretanto, Morey disse em seu último dispatch que está prevista a ida para Periche. Quando ele voltar ao Campo Base saberemos para onde eles irão.

Muitas expedições preferem não descer tanto. Primeiro porque não acham que isso seja absolutamente necessário - a altitude do Campo Base já é o suficiente, nesta visão. E segundo porque querem evitar o desgaste físico desta caminhada. Outras estratégias defendem que descer a uma vila é necessário não apenas física, mas também psicologicamente. É muito bom para levantar o ânimo da equipe.

 

A vila de Dingboche, para onde irão os alpinistas da Jagged Globe após a descida para o Campo Base. Eles permanecerão ali por cinco dias, recuperando-se física e psicologicamente. E preparando-se para a arrancada final ao cume. Notem, na foto, a linda montanha nevada à direita. É o Ama Dablam, que muitos himalaístas consideram a mais bela da região. Com 6.856 metros, seu nome significa "Colar da noiva", uma referência aos adornos de turquesa e coral que as sherpanis usam. A montanha tem uma característica que evidencia ainda mais sua beleza: tem uma geografia perfeita, do cume ao solo, em um imenso paredão.

A vila de Periche. Na verdade, como Dingboche, Periche pode ser considerada mais como um "assentamento", já que só permanece ocupada durante o verão, com uns poucos lodges (hospedarias) e pequenas cabanas que servem de refúgio para os pastores de iaques. Periche fica um pouco mais próxima do Campo Base do Everest 

A escalada dos gigantes himalaios é, antes de tudo, um exercício de paciência. Ali, nunca se pode esquecer, a montanha e a natureza determinam quem chega ou não ao final do sonho. Estes homens e mulheres estarão, daqui a duas semanas, em um local para o qual o corpo humano absolutamente não foi desenhado (falaremos sobre isso mais próximo do dia do cume). Resta tentar adaptar-se a essa magnitude...

Namastê!

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Mais fotos de Morey

by Patricia Paladino 27. abril 2009 05:21

 

 Mais algumas fotos enviadas por Carlos Morey do Campo Base do Everest.

 

ÁLBUM DE CARLOS MOREY

Aproximação:

Fotos de Carlos Morey

 

 

 

Após chegar à montanha: 

 

Campo Base do Everest visto do cume do Kala Pattar

 

 

Um close up da linda pirâmide do Everest

 

A Cascata de Gelo com a rota de subida desta temporada. Abaixo, as barracas do Campo Base

 

Os Ice Fall Doctors em ação. Os "doutores da Cascata" são alpinistas sherpas contratados pelas expedições para abrir e preparar a rota de subida por entre o labirinto que é a Cascata. Eles diagnosticam o caminho e instalam e ancoram as escadas de alumínio que auxiliam a passagem por gretas (fendas) e a escalada dos séracs (gigantescos blocos de gelo)

 

Campo 1, primeira parada para aclimatação, localizado no topo da Cascata de Gelo, já no imenso platô conhecido como Vale do Silêncio (Western Cwm), que tem 2,5 km de comprimento até chegar à parede do Lhotse, quarta maior montanha do mundo e vizinha à pirâmide do Everest

 

Campo 2, ou Campo Base Avançado, está localizado na parte superior do Vale do Silêncio. Ao fundo a parede do Lhotse

 

Diante da Face do Lhotse. O Campo 3 é montado no meio do paredão inclinado desta montanha

 

É isso. Como Morey detalhou em seu dispatch, hoje ele recomeça a escalada de aclimatação, e deve chegar até o Campo 3. Só devemos ter novo contato dele na volta, dia 4 de maio. Até lá, continuem acompanhando outras informações da temporada e curiosidades sobre o caminho que o nosso alpinista está percorrendo.

Namastê!

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Novo plano e mais subidas

by Patricia Paladino 26. abril 2009 09:52

Foto First Ascent expedition

 

 O alpinista brasileiro Carlos Morey envia mais um dispatch direto do Campo Base do Everest. Ele também nos enviou algumas fotos, já que o problema de envio parece ter sido resolvido pela expedição. Entretanto, as fotos estão em baixa resolução - mas valem como registro do que Morey viu e passou até agora.

 

“Agora tenho um certo tempo para escrever melhor e até tentar enviar algumas fotos. A semana passada foi terrível no uso dessa ferramenta de e-mail. Recebíamos as mensagens, mas elas não eram enviadas. Demoramos a perceber. E o dono da ferramenta não sabia como nos ajudar.

 

Ontem, eu e mais dois caras da expedição sentamos e fizemos funcionar. Felizmente...

 

Como relatei na ultima mensagem, acabávamos de voltar da aclimatação ao Campo 2. Para mim, a aclimatação foi superboa. Pela primeira vez na vida dormi acima dos 6.300m. Já tinha passado essa altitude, mas nunca dormido.

 

Esse processo de aclimatação foi complicado para os demais membros da expedição. O Big Dave desistiu e os demais, a menos de mim, Amanda, Peter, Doug, Nick e Bill, tiveram alguma dificuldade. São eles:

 

Não chegaram ao topo do Ice Fall:

Big Dave (desistiu), Dave Senior, Chris e Neil

 

 

Chegaram apenas ao Campo 1:

Ian, Neil_A, Kevin

 

Com isso, os guias criaram um novo plano de aclimatação para chegar ao Campo 3. E esse plano também inclui a premissa de passar pouco pelo Ice Fall, pois ele está ficando perigoso.

Esse plano é dividido em três. Um para os que chegaram ao Campo 2, mais curto. Um para os que chegaram ao Campo 1, onde precisam chegar ao Campo 2 antes de chegar ao Campo 3. E um, mais longo, para conquistar todos os campos superiores.

 

O plano começa amanhã, 27/04. O meu cronograma, seguindo o plano mais curto, é:

 

27/04 - Mover para o Campo 2

28/04 - Descanso

29/04 - Ir e voltar ao Campo 3 (7.300m)

30/04 - Descanso

01/05 - Descanso

02/05 - Ir e dormir no Campo 3

03/05 - Descer para o Campo 2

04/05 - Descer para o Campo Base

 

Depois disso devemos ir para Pheriche, a 4.200m, para descansar. Como chegaremos antes dos demais, descansaremos mais. Quando todos estivermos descansados voltaremos ao Campo Base para o ataque final ao cume. Acreditamos que a previsão de cume seja pelo dia 14/05. Previsão...

 

Previsão porque hoje, pela primeira vez desde que chegamos aqui, o dia amanheceu nublado e ventoso. E nos campos superiores foi pior, o vento destruiu várias barracas. Felizmente nenhuma das nossas. Vamos ver o que ocorre quando formos para lá para cima.

 

Como visto, ficaremos sem acesso aos e-mails até o dia 04/05. Enquanto isso, eu preparei umas fotos do Everest e dos campos que estamos passando. Espero que recebam e que gostem.

 

Abraços,

 

Morey”

 

 

No mapa você confere os locais aos quais Morey se referiu:

 

 

 

ÁLBUM DE CARLOS MOREY 

Até chegar à montanha:

Fotos Carlos Morey

     

 À esquerda, a permissão para entrada no Nepal e escalada ao Everest. E a faixa de boas-vindas da Jagged Globe aos membro da expedição, no hotel em Kathmandu

 E o time todo reunido (Morey está à direita na foto)

          

No alto, o embarque no bimotor Twin Otter, em Kathmandu, e a Cordilheira do Himalaia vista da cabine. Embaixo, a pista de pouso do "aeroporto internacional de Lukla". Este aeroporto recebe o terceiro maior tráfego aéreo do país

Uma das várias pontes suspensas do caminho que leva ao Campo Base 

Um sherpa carregador em serviço

   Vista do alto de Namche Bazaar, a mais importante vila do caminho e considerada a "capital do país sherpa"

Uma rua de Namche, com close de um iaque

 

Um dos guias ensina como usar o equipamento de oxigênio

 

Carlos Morey

 

Amanhã postaremos as outras fotos enviadas por Morey, com belas imagens do Campo Base ao Campo 2.

Namastê!

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Campo 2, a base avançada das Expedições

by Patricia Paladino 26. abril 2009 08:46

Olá, membros de nossa expedição! Vamos continuar acompanhando Carlos Morey e subir mais um pouco a montanha. Hoje vamos conhecer o Campo 2.

 

CAMPO 2 (C2)

Altitude: 6.400m
Localização: Western Cwm (Vale do Silêncio)
Tempo de escalada (C1-C2): entre 2 e 3 horas

Mapa Alan Arnette

 

 

O Campo 2, ou Campo Base Avançado, está assinalado com o terceiro triângulo, de baixo para cima

 

 

       

 

À esquerda, a rota de subida: o Campo 2 é o triângulo à direita, em primeiro plano. No mapa da direita, a localização do Campo 2, na parte superior do Circo Oeste (com a parede do Nuptse à direita e a Face Sudoeste do Everest à esquerda e já próximo à entrada para a Parede do Lhotse, onde a linha amarela começa a subir)

 

 

 

 

O Campo 2 está localizado no "alto Western Cwm", ou seja, ao final do Vale do Silêncio (ou Circo Oeste), a 6.400m de altitude. É montado na lateral esquerda (visto de quem olha para o Lhotse), colado na parede Sudoeste da pirâmide do Everest.

 

 

                                                                                                                                                                                        Foto Alpine Ascents - arquivo

 

 

 Tendo ao fundo a parede Sudoeste da pirâmide do Monte Everest, a barraca-refeitório de uma expedição anterior da Alpine Ascents, no Campo Base Avançado

 

 

 

 

Ao contrário do Campo 1, este acampamento é conhecido com Campo Base Avançado e conta com mais estrutura. Não chega a ser como no Campo Base, mas aqui, nas expedições maiores, há barracas-refeitório, sherpas cozinheiros e, em muitas delas, um médico. Isso porque, como fica na "metade do caminho" entre o Base e o cume e, principalmente, acima da Cascata de Gelo, o Campo 2 é para onde descem os alpinistas que encontram algum problema nos acampamentos superiores.

 

 

Foto First Ascent expedition

 

Peter Whitakker (em primeiro plano) e Ed Viesturs, da First Ascent, batem um papinho tendo este visual como companhia

 

Na temporada de 1996 (falamos dela alguns posts abaixo), este acampamento foi fundamental. Tanto no acompanhamento das ocorrências acima como na assistência aos membros das expedições, após toda a tragédia. Foi aqui que Makalu Gau e Beck Weathers receberam os primeiros-socorros do médico Kenneth Kamler, que evitou danos ainda maiores aos dois. E daqui partiram para o resgate, já devidamente estabilizados.

 

 

 

 

Em breve estaremos subindo para o Campo 3.

Namastê!

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Baixas no time na aclimatação

by Patricia Paladino 25. abril 2009 05:57

                                                                                                                                                                                                                                                                                             Foto First Ascent expedition

 

 Carlos Morey está de volta ao Campo Base do Everest, após a escalada de aclimatação ao Campo 2. Com ele está tudo bem, mas em seu dispatch de hoje ele conta que a equipe vem enfrentando problemas com a aclimatação.

“Vou escrever rapidinho, pois chegou um novo grupo de trekkers e eles terão a prioridade do notebook. Voltamos ontem do Campo 2 do Everest (6.400m). Apesar de difícil, não imaginei que o resultado fosse dessa forma.

 

Antes de sair, duas pessoas do grupo já estavam vetadas por doença, o Ian e o Dave Senior. Éramos 11 então. Estava marcado para tomar café às 3h15 e sair às 4h da madrugada para pegar o Ice Fall frio. Às 3h15 o Big Dave, que seria o meu companheiro de barraca, apareceu e disse que não iria. Mais tarde ficamos sabendo que ele sairia da expedição. Agora ele está voltando para a Espanha.

 

Dos 13, já estávamos em 10. Começamos a caminhar ainda no escuro. Aqui amanhece às 5h30. Quando chegamos no gelo, onde colocamos os crampons, o Chris desistiu de ir. Éramos 9... Começamos a subir o Ice Fall. Depois de uma hora, o Neil, que vem tendo uma sinusite braba, teve uma tosse forte e deu problema numa costela. Um a menos... Oito...

 

Levamos 6 horas para vencer o Ice Fall... E mais dois sofreram com esse desafio, o Kevin e o Neil (esposo da Amanda). Chegaram ao Campo 1, mas não com força suficente para continuar ao Campo 2. Desceram dois dias depois.

 

Conclusão: quem conseguiu fazer toda a aclimatação ao Campo 2 fui eu, Doug, Nick, Amanda, Bill e o Peter. Seis dos 13... Não achei que o número fosse tão baixo.

 

Agora, para nós seis, falta apenas aclimatar ao Campo 3, a 7.400m, campo esse que nessa temporada só ontem foi atingido pelos sherpas. Então ainda precisa amadurecer antes de irmos lá. E, além disso, a estratégia da Jagged Globe é que todos se recuperem e que o maior número de pessoas possa conseguir chegar ao cume. Dessa forma, possa passar mais tempo descansando aqui no Campo Base.

 

As condições climáticas aqui estão superfavoráveis. Todos os dias amanhece sem nenhuma nuvem. Às vezes, à tarde, aparecem algumas nuvens. E, nesses 13 dias por aqui, só nevou duas vezes. Nada além do que 5 cm...

 

Por enquanto me encontro bem. A minha facilidade à altitude tem ajudado e tenho resistido a doenças e infecções.

 

Quando tiver mais tempo vou escrever melhor sobre o que é cruzar o Ice Fall, como é maravilhoso o Vale do Silêncio e as paredes do Everest, Lhotse e do Nuptse. Valeu a pena conhecer esse pedaço do globo.

 

Abraços,

 

Morey.”

Mais notícias de Carlos Morey em breve!

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Movendo montanhas

by Patricia Paladino 23. abril 2009 16:53

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       Foto EverestNews

Como em todas as últimas temporadas, além dos objetivos pessoais dos esportistas na alta montanha, o Everest está povoado por outro tipo de montanhistas. São os que escalam em nome de alguma causa, seja humanitária, religiosa, patriótica ou social. A escalada ao Topo do Mundo é utilizada como uma forma de chamar a atenção para uma ação em especial. Seja denunciar ou lançar alguma luz sobre um problema de âmbito mundial, seja angariar donativos para instituições, programas ou projetos.

Muitos discordam deste procedimento, outros acham que este é um bom motivo para se escalar montanhas. Sem qualquer juízo de valor (embora eu veja esta atitude com olhos por vezes amistosos, por vezes incrédulos), encontrei alguns alpinistas que fazem da temporada 2009 no Everest a mídia para suas causas.

O exemplo mais curioso este ano é a façanha que os irmãos alpinistas Pemba Dorje Sherpa, 31 anos; Nima Gyalzen Sherpa, 23; e Phurba Tenzing Sherpa, 20, pretendem alcançar. Eles querem quebrar o recorde de permanência no cume do Everest, pretendendo ficar por lá por 24 horas. O objetivo: levar uma estátua de Buda e símbolos de outras religiões até o topo e rezar para que os povos do mundo lutem pela paz. 

                                                                                                                               Foto BBC                                                                                                             Foto Associated Press

                                       

               Pemba Dorje, Nima Gyalzen e Phurba Tenzing             Pemba recebe a bandeira do Nepal para levar até o cume

Pemba Dorje já detém outros recordes no Everest. Em 2003, fez a subida mais rápida da montanha, do Campo Base ao cume em apenas 8h23m. Já chegou ao topo nove vezes, sendo que escalou duas vezes o Everest em apenas cinco dias e três vezes em 10 dias. Em sua ascensão rápida, escalou sem oxigênio artificial, como pretende fazer agora - o que aumenta ainda mais o risco da permanência. Que consiste não apenas na questão do frio de -40° durante a noite, ou dos ventos que podem chegar a atingir 100km/h. Mas ficar por tanto tempo a essa altitude pode resultar em graves danos ao organismo - mesmo para um sherpa, que já tem uma melhor aclimatação à altitude, por viver em uma altura de 4 mil metros. Nima Gyalzen e Phurba Tenzing irão com oxigênio. Juntos, os irmãos somam 16 escaladas ao Everest.

O recorde anterior de permanência pertenceu a Babu Chiri Sherpa, que ficou 20 horas no cume. Ele morreu dois anos depois durante outra escalada ao Everest.

Outras pessoas estão na montanha este ano escalando por algum motivo social, e integram diversas expedições comerciais:

 

Gavin Bate escala o Everest pelo projeto Moving Mountains, um programa de caridade que constói escolas, hospitais e orfanatos no Nepal e na África.

 Ian Rogers escala para conseguir o máximo de doações em prol do projeto Cancer Research, da Grã-Bretanha.

 David Tait escala pelos projetos Just Giving e Rebuilding Childhoods, que cuida de crianças que sofreram abusos.

Robby Kojetin escala pelo projeto Climb to Hope, em busca de fundos para a Childhood Cancer Foundation, que presta assistência a crianças que sofrem com a doença.

 John Golden escala para ajudar a angariar dinheiro para a Orthopedic Research. Ele mesmo é um exemplo dos benefícios da pesquisa, já que sofre desde a adolescência por conta de 15 cirurgias nos joelhos, o que o faz ter dificuldade para caminhar e sofrer de dores constantes.

 Manoel Pizarro escala, junto com André S. Rossin-Arthiat, em prol da Lung Association, de Quebec, que promove diversas campanhas como Ashtma Campaign, Respiratory Health Research Chaire, Country Hearts, Christmas Seals Campaign e Lung Cancer Campaign.

Mais uma vez, não entramos em nenhum juízo de valor nem colocamos em questão a compaixão e a atitude destes escaladores. Mas é curioso perceber que atingir marcos importantes, como escalar o Everest ou chegar aos Pólos, adquire outro significado quando está ligado a grandes causas. Aliar o desafio pessoal à ajuda humanitária pode ser uma demonstração de um belo ato altruísta. Ou o financiamento da expedição e uma boa visibilidade na mídia...

Namastê.

 

 

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Ice Fall fechado por um dia

by Patricia Paladino 22. abril 2009 19:26

Um grande bloco de gelo despencou na parte superior da Cascata de Gelo ontem, enquanto cerca de 100 sherpas atravessavam levando carregamento para abastecer os acampamentos superiores. Ninguém ficou ferido, mas o incidente interditou a passagem em ambos os sentidos.

Os Ice Fall Doctors entraram em ação imediatamente, para reinstalar as cordas e escadas e reabrir a rota.

O desmoronamento aconteceu no trecho conhecido como Popcorn Section, localizado na parte intermediária superior da Cascata, a mais instável área deste trecho da escalada. É comum haver violentos colapsos dos séracs neste local, responsável por diversos acidentes e pela morte de vários sherpas em temporadas passadas. O aquecimento global torna esta área ainda mais frágil e suscetível a deslizamentos.

                                                                                                                                                                                                                               Foto e mapa: International Mountain Guides (IMG) expedition

Área onde houve o desmoronamento do sérac, a Popcorn Section

Por isso as expedições cruzam a Cascata muito cedo, antes de o sol nascer. O calor torna este labirinto ainda mais perigoso e sujeito a desmoronamentos.

Felizmente ninguém se feriu.

Mais notícias em breve!

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Subindo a montanha

by Patricia Paladino 21. abril 2009 09:41

                                                                                                                                                                                                                                                                                             Foto Ed Viesturs

 

Membros da Expedição O Meu Everest,

Hoje vamos começar a subir a montanha. Já estamos aclimatados, nos conhecendo e compartilhando do entusiasmo de ver a montanha de perto. 

Portanto, vamos acompanhar a progressão de Morey, que hoje está no Campo 1 – e é pra lá que nós vamos também. A cada passo para cima da temporada real, vou mostrando o local e as curiosidades da cada acampamento.

 

CAMPO 1 (C1)

Altitude: entre 5.943m e 6.100m
Localização: Western Cwm (Circo Oeste ou Vale do Silêncio)
Tempo de escalada (CB-C1): entre 4 e 6 horas

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Mapa Alan Arnette

 

Sempre darei o mapa da rota completa, para melhor localização dos acampamentos. O Campo 1 está sinalizado com o segundo triângulo, de baixo para cima

      

À esquerda, a rota de subida: o Campo 1 é o triângulo mais distante na foto, do lado esquerdo. No mapa da direita, a localização do Campo 1, na parte inferior do Circo Oeste (com a parede do Nuptse à direita e a Face Sudoeste do Everest à esquerda)

 

O primeiro Campo de altitude está localizado no topo da Cascata de Gelo, onde o terreno aplana, a cerca de 6.000 metros – dependendo de onde as expedições montam seu acampamento. Para chegar até ele, é preciso atravessar a Cascata, sobre a qual já falamos em posts anteriores.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Foto First Ascent

A parte final da Cascata de Gelo vista do Circo Oeste, local onde é montado o Campo 1. Note, ao longe, na parte escura da foto, as barracas do Campo Base

O Campo 1 do Monte Everest está localizado em um lugar mágico: o Western Cwm (pronuncia-se “cum” e significa, em galês, vale ou circo glacial), ou Circo Oeste. Um “circo” é uma formação topográfica de depressão funda, tem a forma de um anfiteatro rodeado de montanhas – no caso do Everest, à direita pela parede do Nuptse, à esquerda pela Face Sudoeste da pirâmide do Everest e à frente pela parede do Lhotse.

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Foto First Ascent

Costuma-se definir sua topografia como um “tobogã glacial” com cerca de 2,5 km de comprimento – de seu início, no topo da Cascata de Gelo, ao final, na base do Lhotse. Uma superfície ondulante de gelo e neve cortado por enormes gretas, um platô levemente ascendente, que abriga os campos 1 e 2. Um lugar deslumbrante, capaz de fazer com que o alpinista que o vê pela primeira vez literalmente fique com os olhos cheios d’água, tamanha sua beleza.

No Everest, o Circo Oeste também é conhecido por Vale do Silêncio – e é assim chamado porque ali, como não há vento, o único som que se ouve é o da presença humana. Fora da temporada, é um silêncio profundo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                       Foto Alan Arnette

        

                         O anfiteatro Circo Oeste, com 4 km de comprimento até a base do Lhotse (ao fundo)

A gigantesca plataforma tem sua seção central cortada por enormes gretas, que formam a entrada do “alto Circo Oeste”. Nesta parte do anfiteatro o caminho é rente à parede do Nuptse, a única forma de transpor o obstáculo, conhecido como “Nuptse corner”. Daqui, a visão é deslumbrante: avista-se os campos 1 e 2 para baixo e, pela primeira vez, a pirâmide do cume do Everest.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto Ed Viesturs

       

As gretas do Circo Oeste: de pequenas a gigantescas

Pela falta de vento, a temperatura no Campo 1 é muito alta – pode chegar facilmente a 38°C. Dá para imaginar estar nesta temperatura a 6.000m no Everest? O sol é escaldante e a vida ali não é fácil. Ou será que é??

 

                                                                                                                                                                                                                                           Foto Alan Arnette

                                    

Membros da expedição de Alan Arnette no Campo 1, em trajes inimagináveis quando se pensa em alguém escalando o Everest... 

Este acampamento não tem, nem de longe, as “comodidades” do Campo Base. É quase como um Campo de passagem entre o Base e o Campo 2 – conhecido como Campo Base Avançado – e se destina principalmente à aclimatação para continuar a subida. Mesmo assim há pernoite no Campo 1 – e os dias tremendamente quentes.

 

                                                                                                                                 Foto Alan Arnette                                                                                                                       Foto Adventure Consultants

   

                                                                                                                                                                                                                                                                                                Foto Alan Arnette

 

Este é o Campo 1, onde Morey está agora e que, segundo seu último relato, deve dormir esta noite. A entrada para o anfiteatro do Everest.

Namastê! 

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Morey: impressões do Ice Fall

by Patricia Paladino 18. abril 2009 13:37

                                                                                                                                                                                                                                                               Fotos de Alan Arnette

 

 Caros membros da Expedição O Meu Everest: estamos tendo notícias diárias de Morey! Com tempo de descanso no Campo Base, após ter feito sua segunda escalada de aclimatação pela Cascata de Gelo, ele tem conseguido nos enviar e-mails com mais freqüência. Então vamos aproveitar, porque ele nos conta suas impressões da travessia do Ice fall e outras novidades do Everest: 

 

“No processo de aclimatação, ontem fomos a 5.900m, ou seja, no topo do Ice Fall. Acordamos às 1h45 da madrugada com uma camada de 5 centímetros de neve. Nos vestimos (parece noiva indo para o casamento). Às 2h15 estávamos tomando café numa fria noite no Himalaia. Saímos às 3h.

Posso dividir o Ice Fall em duas partes. Na primeira, na minha opinião a mais chata, é formada por ondas congeladas. Talvez umas 10 a 15 delas, com alturas variando de 5 metros a 10 metros. E temos que subir e descê-las para chegar à segunda parte. Nesse primeiro trecho não é necessário segurança.

No segundo trecho, aí sim comecamos a subir a encosta. E como existe um risco de escorregar por dezenas de metros. Sabe-se lá aonde... Nós usamos a proteção de um mosquetão preso à cadeirinha,  preso a cordas fixas. As cordas fixas são colocadas nesse ponto pelos "Doctors". 

Essas cordas fixas são presas por segmentos de até 25 metros. No pior caso, é esse o tamanho da queda. O lugar onde as cordas são presas é conhecido por ancoragem. As ancoragens são feitas por parafusos de gelo ou estacas.

Além das cordas fixas, existe o auxilío das escadas. Quando existem fendas nos gelos (gretas) ou paredões para serem superados, os "Doctors" instalam as escadas. Elas são de alumínio e têm 4 metros. Acreditamos que existam umas 30 em todo Ice Fall (vou contar da próxima vez). Elas podem ser horizontais para cruzar uma greta ou verticais para subir os paredões.

Felizmente, este ano as horizontais são simples (uma só escada). Ou seja, por mais que as gretas tenham dezenas de metros de queda, a travessia é curta. Houve anos em que tiveram quatro escadas amarradas por cordas para cruzar esses abismos. Isso daria uns 12 a 15 metros de travessia. Nas escadas verticais existe uma de dupla e uma tripla. 

Levei 5h30 para chegar ao objetivo e 3h para descer. Como sou muito crítico, acho que poderia ser melhor, mas esse tem sido o meu desempenho acima dos 5 mil metros. Antes dessa altitude eu parecia um cabrito ensandecido, subia e descia todos os caminhos com um bom desempenho. Agora eu estou parecendo um velho doente. Mas o nível de oxigenação está bom (85) e o batimento cardíaco está em 105, isso porque quando medi estávamos falando das mulheres de Copacabana. O médico daqui precisa conhecer o Rio...

Outra celebridade que está aqui é o sr. Chris Bonnington. Ele foi o primeiro a subir o Everest pela Face Oeste, nos anos 60 e está acompanhando seu filho, que abriu uma empresa de turismo de aventura na Austrália.

Hoje e amanhã serão dias de descanso. Na segunda-feira voltaremos ao Ice Fall. O objetivo será dormirmos no Campo 1 (5.900m) e na terça ir ao Campo 2 (6.400m) para a aclimatação a essa altitude. Voltamos ao Campo 1 para dormir. E na quarta-feira voltamos para o Campo Base. Durante esse período ficaremos sem comunicação.

Aqui temos apenas um notebook (Panasonic velho resistente a quedas) com Windows 2000 Pro. Ele não tem o driver para as câmeras Sony. E não temos outro acesso à Internet senão este e-mail. Por isso estamos tendo dificuldades de "baixar" as fotos.

As grandes expedições - Jagged Globe, Mountain Madness, Adventure Consultants, IMG (de Eric Simonson), Himex (de Russel Bryce), RMI (de Ed Viesturs) etc - têm tido reuniões freqüentes para definir alguns parâmetros de segurança na montanha. Por exemplo:

Posicionamento das cordas fixas / Datas de escaladas / Posição dos acampamentos / Cordas e barracas reflexivas no Campo 4 e acima para facilitar os montanhistas na localização em caso de o tempo fechar / Datas de ataques ao cume / Previsão do tempo

Acho interessante essas iniciativas, principalmente se comparadas com os fatos ocorridos em 1996.  

Abraços,

Morey”

 

Vamos dar uma olhada ao que Morey se refere no dispatch:

                                                                                                                                                                                                                                   Fotos do site do alpinista Alan Arnette

 

A Cascata de Gelo do Khumbu (Ice Fall) é, literalmente, um labirinto de 700 metros de extensão...

... que sobe do Campo Base ao Campo 1. Portanto, é rota em todo o período de aclimatação, nas várias subidas e descidas que o time faz entre os acampamentos superiores...

... e, claro, é a rota final, quando as expedições já estão aclimatadas, há a janela de tempo bom e os times saem do Campo Base para o ataque ao Cume, passando pelos Campos 1, 2 e 3 e dirgindo-se, finalmente, ao Campo 4

   

Estas são as gretas a que se refere Morey. Fendas entre os blocos de gelo com centenas de metros de profundidade, e que precisam ser atravessadas pelas escadas de alumínio

                                                                                    Foto Waldemar Niclevicz

            

Este ano, pelo que disse Morey, as distâncias entre as gretas não são tão grandes, e podem ser transpostas sem precisar amarrar uma escada na outra, o que dá ainda mais instabilidade (ainda mais se você pensar que a travessia é feita com botas de escalada, com os afiados crampões na sola...)

                                                                       Foto de Waldemar Niclevicz

       

Olha a profundidade disso... Na maioria das vezes, não dá pra ver o fundo... É por essas e outras que a Cascata é um dos pontos mais perigosos de toda a escalada!

                                                                                                                                                                                                                                                                           Foto de Waldemar Niclevicz

Este é um exemplo dos "paredões" mencionados por Morey. Eles são conhecidos por séracs e alguns chegam à altura de um prédio de 10 andares!

                                          Foto Waldemar Niclevicz

   

Numa das vezes em que o alpinista brasileiro Waldemar Niclevicz atravessou a Cascata, se deparou com isso (na foto à esquerda): um paredão que, para ser transposto, foi necessário emendar cinco escadas! No centro, a subida dos alpinistas. E, à direita, a "ancoragem" a que o Carlos Morey se referiu

 

Morey mencionou, no final de seu dispatch, a "temporada de 1996". Abaixo temos um post que conta, para quem não sabe do que se trata, o que foi aquela que ficou conhecida como "a pior temporada da montanha". E inauguramos a série de "Histórias do Everest".

Continuamos na cola do Morey, à espera de mais updates.

Namastê!

 

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Histórias do Everest: parte 1

by Patricia Paladino 18. abril 2009 12:14

 

A mais trágica temporada na montanha mais alta do mundo

Carlos Morey se referiu à temporada de 1996. Quem gosta de alpinismo (ou do Everest) já deve ter ouvido falar dela – principalmente através do best-seller de Jon Krakauer, No ar rarefeito. Mesmo quem não gosta deve ter lido nos jornais à época. Estava pensando em fazer um post sobre segurança na montanha, e citar exatamente esta temporada como exemplo do que pode dar errado quando a logística de uma expedição é tumultuada ou confusa. O que, neste caso, causou uma série de problemas que, junto a uma mudança climática, desencadeou a mais trágica temporada do Monte Everest e resultou na morte de 15 pessoas entre ocidentais e sherpas – oito só no dia 10 de maio.

Em 1996 o fluxo de expedições comerciais ao Everest já era grande. Expedições comerciais são as promovidas por empresas especializadas em levar clientes às maiores montanhas do mundo – e o Everest é o objetivo maior. Estas agências, embora sejam presididas geralmente por grandes alpinistas e suas expedições lideradas por escaladores renomados, nem sempre selecionam seus clientes pela expertise. É claro que eu ou você – mesmo tendo os US$ 65 mil para integrar uma delas – não podemos simplesmente contratar uma dessas empresas e subir. Todos os clientes têm experiência em alpinismo, o que quero dizer é que nem todos têm a experiência necessária em grandes montanhas. O que pode ocasionar problemas sérios, quando centenas dessas pessoas se misturam, no meio de um ataque ao cume a 8 mil metros de altura.

 

                           

                        Rob Hall, líder da Adventure Consultants                 Scott Fischer, líder da Mountain Madness

 

Pois então: em 1996, Rob Hall, um alpinista neozelandês de 35 anos muito respeitado na época, com vários cumes acima de 8 mil metros no currículo, era dono da Adventure Consultants, uma dessas empresas que promovem expedições comerciais às altas montanhas. Entre 1990 e 1995, ele escalou o Everest quatro vezes e havia conseguido levar 39 clientes ao topo – 100% dos que guiou. Em 96, ele levava oito clientes (entre eles alguns nomes antes anônimos que ficariam bem conhecidos do grande público, além do jornalista Jon Krakauer: o patologista Beck Weathers, a executiva Yasuko Namba e Doug Hansen, que trabalhava nos Correios dos EUA) e dois guias (Mike Groom e Andy Harris).

 

Um outro alpinista – igualmente reconhecido por sua força, determinação e jovialidade na montanha – estava estreando como promotor de cumes para clientes no Everest. Scott Fischer, 40 anos, com sua empresa Mountain Madness, estava tentando entrar no rentável ramo de guiar clientes. E, pela primeira vez, organizava uma expedição à montanha mais alta do mundo, também com oito pessoas. 

 

Muitas outras expedições estavam na montanha naquele ano, incluindo uma totalmente despreparada: a expedição taiwanesa, liderada por Makalu Gau. Cito estes nomes porque eles estiveram entre os principais acontecimentos no Everest em 1996.

                           

             Jon Krakauer                    Beck Weathers                      Yasuko Namba                   Andy Harris

        

         Doug Hansen                        Neil Beidleman                           Makalu Gau                    Anatoli Boukreev

 

Mas o que aconteceu? Começamos pela conseqüência: clientes e guias chegaram ao cume tarde demais. Alguns ainda estavam ali às 17h – o que ultrapassa em cinco horas o horário-limite para alguém chegar ao topo do Everest e voltar ainda com luz do dia, com tanques ainda com oxigênio e sem contar com uma virada brusca do tempo ao cair da noite, não incomum nessa época do ano. 

O amerciano Ed Viesturs – o maior alpinista do mundo em atividade, que já escalou todas as 14 montanhas com mais de 8 mil metros sem oxigênio artificial e que está no Everest este ano para seu sétimo cume – tem uma máxima que diz: “Chegar ao topo é opcional; descer é obrigatório”. Pois em 1996 parece que ninguém sabia disso. Entre a série de problemas que culminaram na tragédia, estão:

  • Havia um número muito grande de alpinistas sem experiência em 8 mil metros subindo para o cume ao mesmo tempo

  • As expedições não tinham rádios com todos os guias, e alguns não funcionavam direito

  • As cordas fixas próximas ao cume não estavam instaladas, como havia sido combinado entre as duas expedições: um sherpa de cada equipe sairia na frente de todos, para fixar as cordas, e quando as expedições chegassem não teriam que esperar. Na realidade, próximo ao Cume Sul não havia nenhuma corda fixada e quem já havia chegado teve que esperar o russo Anatoli Boukreev (um dos guias da Mountain Madness), um dos guias da Adventure Consultants (Neil Beidleman) e até um dos clientes, Martin Adams, ancorar as cordas de segurança

  • Não havia, na expedição de Scott Fischer, uma ordem do líder apontando um horário-limite para o cume (após este horário, não importa onde você esteja, a ordem é: volte)

  • Na expedição de Rob Hall havia horário-limite (13h), mas ninguém, nem mesmo Hall, o cumpriu. Ele chegou ao cume em torno das 16h, amparando Doug Hansen, que havia voltado a 100 metros do cume no ano anterior. Especula-se que Hansen não atendeu à ordem de Hall para voltar novamente e então o neozelandês capitulou e o acompanhou ao topo

  • Alguns clientes-alpinistas (entre eles o próprio Krakauer) que tinham experiência em altitude e sentiam-se fortes na subida tiveram que parar na Plataforma Balcony por uma hora e meia, esperando os outros, mais lentos. Isso se deveu a uma ordem de Rob Hall para que, chegando à Balcony, o grupo se reunisse e quem estivesse à frente esperasse pelos outros. Gasto de oxigênio, frio e desperdício de energia

  • Alguns guias estavam tão exaustos quanto os clientes, por conta de fatores diversos

  • Não havia sobra de oxigênio – as garrafas levadas pelos alpinistas e pelos sherpas totalizavam 18 horas de oxigênio para cada um, o que, contando com situações inesperadas, faz com que o alpinista tenha de descer sem oxigênio artificial

  • Os dois líderes não estavam no fim da fila fazendo a “varredura” da equipe – verificando condições físicas e mandando voltar quem não estivesse apto a continuar. Muitos dos clientes queixaram-se posteriormente que se sentiram desamparados, e os que decidiram voltar, o fizeram por conta própria

Isso tudo resultou em um grande engarrafamento de alpinistas próximo ao cume na subida, o que atrasou tremendamente a descida. Quando os times finalmente se puseram em marcha para descer, muitos já estavam esgotados e a maioria com seu oxigênio no final. Para piorar, caiu sobre a parte alta da montanha uma gigantesca tempestade de neve, com ventos de 100 km/h e visibilidade zero. Isso, com a noite chegando.

                 

Estas são fotos reais de 1996: à esquerda, uma longa fila de alpinistas na Aresta Sudeste, esperando para subir o Escalão Hilllary, a cerca de 50m do cume. E, à direita, o resultado do engarrafamento: o topo do Everest tomado por alpinistas

Um grupo de alpinistas, formado por Sandy Hill-Pittman, Yasuko Namba, Beck Weathers, Charlotte Fox, Tim Madsen, Klev Shoening, Lene Gamelgaard, Neil Beidleman e Mike Groom (além dos sherpas Tashi Tshering e Ngawang Dorje) perdeu-se na tempestade e não encontrou o caminho para o Acampamento 4. No meio da noite, Shoening, Gammelgaard, Groom e Beidleman conseguiram chegar ao Campo 4 e deram as coordenadas de onde estava o resto do grupo ao guia russo Anatoli Boukreev (que teve sua atuação contestada no livro de Krakauer, por subir sem oxigênio e por voltar antes dos clientes ao Campo 4. Entretanto, no livro A escalada, Boukreev se defende afirmando que sentia-se melhor sem o oxigênio engarrafado e que o motivo de sua volta foi estar preparado, hidratado e descansado caso houvesse alguma emergência, como houve. Essa estratégia foi combinada e aprovada com o líder da expedição, Scott Fischer. Boukreev já havia feito várias tentativas de encontrar algum alpinista antes de os três chegarem ao acampamento. Sozinho, já que ninguém mais se dispôs ou tinha condições de ajudar).

Boukreev conseguiu encontrar e resgatar o grupo perdido – alguns não conseguiam andar e todos estavam esgotados e com hipotermia. Dois deles, a executiva japonesa Yasuko Namba e o patologista texano Beck Weathers, estavam aparentemente mortos. 

 

No alto da montanha, Rob Hall e seu cliente Doug Hansen estavam presos no Cume Sul, a 8.748m. Scott Fischer (que vinha sofrendo de dores no estômago durante toda a estada no Campo Base e estava esgotado com a logística e as diversas subidas e descidas tentando resolver as coisas) desfaleceu abaixo da Balcony, a cerca de 8.350m, junto ao taiwanês Makalu Gau e a seu amigo e sirdar da expedição, Lobsang Jangbu. 

 

Estas duas situações promoveram despedidas comoventes: ao ver que nada poderia fazer para ajudar o amigo, Lobsang resolve descer – para não morrer, ele mesmo. E Rob Hall, após a morte de Hansen (a que, diga-se de passagem, honrou ao ficar ao seu lado, mesmo tendo condições físicas de descer), falou, por telefone via-satélite, com a mulher, a alpinista Jan Arnold, que não o acompanhou porque estava no oitavo mês de gravidez. Por ser um alpinista experiente e um homem muito forte, Hall ainda sobreviveu (com pés e mãos congelados, sem conseguir andar, mas lúcido) até às 18h20 de 11 de maio, quando despediu-se da mulher por telefone do alto do mundo. Então seu rádio não foi  mais ouvido.

 

O resgate no local onde Hall se encontrava era praticamente impossível, por causa do tempo que não melhorava; mas com muito esforço dava para chegar aonde estavam Scott Fischer e Makalu Gau. Foi o que três sherpas fizeram, às 13h do dia seguinte ao desastre. Encontraram Fischer praticamente morto, sem qualquer reação ao oxigênio que lhe administraram, mas Gau (embora inconsciente e com pés e mãos congelados) ainda estava vivo. Eles o trouxeram de volta. No dia seguinte, Anatoli Boukreev subiu mais uma vez e despediu-se de Fischer, que conseguiu colocar todos os seus clientes no cume, mas não resistiu a ele.

 

Yasuko Namba morreu durante a tempestade, mas Beck Wheaters, inacreditavelmente, acordou de seu torpor. Esta é a maior história de sobrevivência em alta montanha de que se tem notícia: Wheaters contou depois que estava, realmente, morto. Mas de repente o ar voltou, ele lembrou-se da mulher e dos filhos nos Estados Unidos e pensou que teria que pelo menos tentar sair dali. Sabe-se lá como, após uma noite inteira e quase todo o dia seguinte sob o frio cortante do Colo Sul, por volta das 16h de 11 de maio Wheaters levantou e se pôs de pé. Além do congelamento, ele ainda tinha um outro problema, desde a subida: cegueira momentânea provocada pela altitude. Por isso ele não prosseguiu ao cume (por ordem de Rob Hall ele sentou-se em uma pequena reentrância na neve e deveria esperar ali até que Hall voltasse do topo. Ele esperou por oito horas, até ser resgatado pelo guia Mike Groom e descer a montanha enxergando quase nada, amparado pelo guia). 

 

Caminhando com os braços à frente, como uma múmia, a passos trôpegos por conta dos pés congelados, cego e sem nenhuma energia, Wheaters ressuscitou e encontrou o caminho para o Campo 4 sozinho. Quando chegou, ninguém conseguia acreditar. Após uma dura noite no Campo 4 e dos dolorosos primeiros-socorros no Campo 2, ele foi resgatado de helicóptero (foi a única vez que uma aeronave tentou pousar acima da Cascata de Gelo, onde não há ar suficiente para sustentar suas hélices) e levado a Kathmandu. Perdeu um braço, os cinco dedos da outra mão e teve o nariz amputado. Mas sobreviveu.

                        

Um feito heróico: o piloto, um oficial do exército nepalês, tenta o que ninguém nunca antes havia conseguido - pousar um helicóptero no Western Cwm, acima da Cascata de Gelo. A quase 7 mil metros de altura, o ar já é tão rarefeito que não há sustentação para as héices. Pois o piloto não apenas pousou, mas o fez duas vezes. Uma para resgatar Gau e outra para Wheaters. Outros alpinistas, como Ed Viesturs, David Breashears e Pete Athans (os três, lendas do Everest) atrasaram suas próprias expedições para empreender o resgate aos sobreviventes da tragédia. Todas as equipes, com exceção da sulafricana liderada por Ian Woodal, que se negou a prestar socorro, ficaram durante todo o tempo (desde a tempestade de 10 de maio até a descida dos sobreviventes ao Campo 2) monitorando os acontecimentos via rádio, muitas subiram até o Campo 4 para ajudar no que fosse possível e algumas (como a expedição da IMAX, da qual Viesturs e Breashears faziam parte), doaram parte de seu suplemento de oxigênio para a recuperação dos alpinistas

A Adventure Consultants e a Mountain Madness continuam suas atividades, mesmo sem Rob e Scott. Inclusive, estão no Everest este ano (como em todos os anos). São empresas sérias, dirigidas por pessoas sérias. E que desenvolveram melhor a arte de escolher clientes, equipar a expedição com alta tecnologia e cumprir a logística combinada à risca.

Quem gosta de aventuras na montanha deve ler os livros sobre a temporada. Há vários deles. Vou citar três, que li e recomendo: além de No ar rarefeito, há o excelente A escalada, do alpinista russo Anatoli Boukreev, guia da Mountain Madness em 96 e que morreu um ano depois, sob uma avalanche no Annapurna. Ele escreveu o livro para rebater as acusações de negligência feitas por Krakauer no best-seller. E no ano passado o alpinista Matt Dickinson escreveu Everest – Escalando a Face Norte, em que conta a tragédia de 1996 sob a perspectiva de quem estava do lado tibetano da montanha. 

A temporada de 1996 deixou muitas lições para as posteriores. As expedições estão mais bem aparelhadas e todos os anos acontecem reuniões como esta a que Morey se referiu, em que os líderes dos principais times combinam estratégias que garantam a maior segurança possível. 

Outras histórias em breve!

Namastê! 

 

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Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

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