Na "aclimatação", livros

by Patricia Paladino 13. setembro 2009 06:14

Este é o Mosteiro de Rongbuk, do lado tibetano do Everest. Como estamos em período de "passeio", e como não falamos muito deste lado da montanha aqui, aproveito para mostrar um pouquinho da Face Norte do Everest. Este mosteiro abriga monges o ano todo, e virou um ponto turístico e de meditação aos que seguem para o acampamento base 

Caríssimos membros de nossa expedição!

Como todos já devem ter percebido, estamos em um período de "aclimatação" para a próxima temporada. Mas não podemos deixar de dar duas palavrinhas sobre nosso blog: por conta de inúmeros compromissos profissionais meus e do Luciano, tivemos que interromper por algum tempo as postagens constantes do blog. Assim, a assiduidade com que o Nosso Everest era mantido na época da escalada do Morey (de finzinho de março a junho) não pôde ser cumprida no período logo após.

Depois, em viagem com o filme (que muitos devem ter acompanhado), ainda conseguia postar na folga, uma vez por semana. Entretanto, nem isso está sendo possível atualmente... Infelizmente, porque eu sinto muita falta de subir esta montanha!! Bem, a partir de agora, o blog será atualizado sem uma data específica... Mas será!!

E isso é só até a próxima temporada!!!!!!!! Porque, quando começar o movimento em nossa montanha, começamos a subir novamente!!!!

Bem, feito o esclarecimento, vamos ao trabalho!

Tempo de aclimatação é tempo "ocioso" na montanha. Um período em que os alpinistas sobem e descem os acampamentos superiores, mas há um períodotempo de descanso entre essas subidas. Então, cada um se diverte como pode: alguns namoram, outros aproveitam para fazer amigos, muitos ouvem música e vêem filmes (sim, já há uma DVDcoteca no Everest!) e a maioria lê seus livros, levados na mochila para este momento.

É isso o que faremos: segue uma lista de livros essenciais para se entender um pouquinho mais sobre o Everest e sobre a gente que ama o Everest. Estes são todos em inglês, e foram comprados pela Amazon ou pela Libreria de Montaña, espanhola, que vende os livros da Desnivel, uma excelente editora de montanha. Também não são todos os livros que tenho sobre o assunto, mas os que eu considero mais importantes. Depois eu faço uma outra lista, com o restante. Ah, sim: logo no início do blog (no Arquivo, em março), fiz uma primeira lista, com livros em português. Quem quiser dar uma olhada... senão reposto em breve.

  

  Everest: Mountain Without Mercy (1997)de Broughton Coburn (Ed. National Geographic Society)

David Breashears, primeiro norte-americano a escalar duas vezes o Everest, traz para as páginas deste livro o que captou e viveu, ao lado de um time de alpinistas internacionais, durante as filmagens de "Everest", filme em formato IMAX, tecnologia que permite imagens em formato largo. A equipe estava no Everest quando ocorreu a tragédia de maio de 1996, quando oito pessoas morreram.

  Everest: the west ridge (reeditado em 1998), de Thomas F. Hornbein (Ed. Mountaineers Books)

Em 1963, Thomas Hornbein e seu parceiro Willi Unsoeld encararam a rota que leva ao cume oeste (West Ridge) e relatam no livro como foi a escalada, um dos eventos mais importantes da história do montanhismo. Incumbir-se de percorrer uma rota como a que leva ao cume oeste (West Ridge) do Everest é estar consciente de que falhar não é uma das alternativas possíveis.

  Everest: The Unclimbed Ridge (2002), de Chris Bonington, Sir Bonington, Charles Clarke, Clint Wills (Ed. Thunder's Mouth Press)

Sir Bonington, considerado um dos maiores alpinistas modernos, e o co-autor Charles Clarke, contam a história da expedição mais trágica de Bonington ao Everest: uma tentativa de percorrer a rota que leva ao cume nordeste (Northeast Ridge). A escalada vitimou dois amigos íntimos de Bonington, que faziam parte de uma fantástica geração de alpinistas: Joe Tasker e Peter Boardman.

  The Other Side of Everest: Climbing the North Face Through the Killer Storm (2000), de Matt Dickinson (Ed. Times Books)

O autor narra sua escalada pela face Norte do Everest, considerada a mais difícil, no mesmo dia e sob a mesma tempestade que vitimou 12 alpinistas na temporada de 1996, tragédia que foi narrada por Jon Krakauer e Anatoli Bourkeev. Matt Dickinson, cameraman, decreve com detalhes o horror de estar no meio da tempestade naquela altitude extrema. Este livro já foi lançado em português, no ano passado, mas para quem preferir ler no original...

  Triumph on Everest: A Photobiography of Sir Edmund Hillary, de Broughton Coburn (Ed. National Geographic Society)

Lançado para o aniversário de 50 anos da conquista do Everest, esta fotobiografia conta a história do filho de um fazendeiro neo-zelandês que, em 1953, se tornaria, ao lado do sherpa Tenzing Norgay, o primeiro homem a chegar ao teto do mundo. Outras aventuras de Hillary são lembradas, como as viagens ao Pólo Sul, a busca pelo Yeti, o Abominável Homem das Neves. E também é mostrada a luta do alpinista pelos sherpas. Esse livro é lindo, maravilhoso, simplesmente o máximo!

  Sir Edmund Hillary and the People of Everest (2002), de Anne Keiser e Cynthia Russ Ramsay (Ed. Andrews McMeel Publishing)

Com entrevistas e fotos da intimidade, Cynthia Russ Ramsay e a fotógrafa Anne Keiserm, da National Geographic Society, produziram esta biografia do conquistador do Everest, destacando o relacionamento de Edmund Hillary com os sherpas, o povo da montanha. Hillary passou a vida lutando pelo bem-estar dos sherpas, angariando fundos, construindo escolas, dois hospitais e 12 clínicas médicas. Outro livro maravilhoso sobre Sir Hillary. Imperdível.

  Tenzing: Hero of Everest (2003), de Ed Douglas (Ed. National Geographic)

É considerada a primeira biografia completa de Tenzing Norgay. De origem humilde, ele cresceu à sombra do Chomolungma (o nome que os sherpas deram ao Everest), sem saber nem escrever, guiando os bandos de iaques (animais usados como transportadores na montanha). Em 1935, Norgay foi escolhido para sua primeira expedição e, em 1953, gravou seu nome na história do alpinismo mundial tornando-se, ao lado do neo-zelandês Edmund Hillary, o primeiro homem no cume do Everest. O livro passa por esta fase de glória na vida de Norgay até chegar aos seus últimos dias. Este eu comprei em uma pechincha. Não sei porque, ele custou US$ 4,99! Por esse livro maravilhoso!!

  The Wildest Dream: The Biography of George Mallory (2000), de Peter Gillman e Leni Gillman (Ed. Mountaineers Books)

A biografia do professor e veterano de guerra George Mallory. O inglês é protagonista da maior incógnita na história do Everest: ele e o parceiro Andrew Irvine desapareceram em 1924, perto do cume, e até hoje não se sabe se eles conseguiram ou não completar a façanha. No livro, os Gillman querem mostrar o lado pessoal de Mallory, interessado em literatura, esposo dedicado, aclamado estudante e professor e um herói modesto que nunca teria recusado um desafio. Esse era realmente um grande maluco! O livro é sensacional. Muito bem escrito e com lindas curiosidades sobre Mallory. Dá pra ver como ele era louco pela capa!

  Everest: Summit of Achievement (2003),The Royal Geographic Society (Ed. Simon & Schuster)

O livro resume o vasto arquivo da London's Royal Geographical Society sobre o Everest, com centenas de fotos e documentos. Alguns textos são esclarecedores, como os que narram as reações de nepaleses e tibetanos à chegada dos aventureiros às suas terras, no fim do século 19 e início do 20, com o simples propósito de escalar as montanhas (então considerado tolo para eles). As fotografias mostram, entre outros, o companheiro de George Mallory, Andy Irvine, fixando um cilindro de oxigênio, na fatídica expedição de 1924; Hillary e Norgay celebrando a conquista da montanha com uma caneca de chá, em 1953. É um clássico!

  Everest: the Mountaineering History (1998), de Walt Unsworth (Ed. Mountaneers Books)

Atualizado em 1998, este livro se propõe a contar a verdade sobre os heróis do montanhismo, dando-lhes uma dimensão humana ao mostrar que fatores como incompetência e raiva se misturam a coragem, sabedoria e altruísmo. Walt Unsworth é autor de Encyclopedia of Mountaineering.

 

Esta é uma listinha básica de livros para quem quer aprofundar o conhecimento sobre o Everest.

Esta semana estou encomendando mais livros pela Amazon, com uma dica que recebi de um amigo e repasso a vocês: comprar livros usados! Eu nem sabia que a Amazon vendia livros usados. E são muito, mas muito mais baratos do que os novos. Pode-se comprar livros por U$ 1!!! E eles ainda colocam o estado do livro (alguns, realmente novos...). Dá pra imaginar o que é isso para uma pessoa que quer comprar contâineres de livros sobre o assunto, mas não quer gastar rios de dinheiro? É soltar uma criança em uma fábrica de sorvetes. Pois bem: estou solta na sorveteria e depois, se esta compra der certo, confirmo aqui no blog que os livros chegaram direitinho...

De volta ao nosso mundo... mesmo que esporadicamente...

Namastê!

5.0 ponto(s). Avaliado por 1 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Uma triste montanha de lixo

by Patricia Paladino 1. agosto 2009 06:59

 

Caros membros da expedição O Meu Everest

Nosso trabalho aqui se divide em duas frentes: uma, a de mostrar a beleza contida em amar o Everest, em todas as suas nuances – seja a humana, com os feitos de grandes montanhistas, seja a da natureza.

A outra frente deste blog é chamar a atenção para determinadas atitudes que fazem com que a montanha esteja ameaçada.

É incrível como uma força de rocha e gelo de quase 9 mil metros de altitude possa ser ameaçada por nós – que mal chegamos a dois metros de altura. Mas é. Por isso, este post praticamente tornou-se uma reportagem sobre os efeitos do homem sobre o Everest... Eu ia dividi-lo em duas partes, mas me empolguei... Ficou um post enorme. Mas acho que vale a pena.

 

A cada ano, o Everest sofre com a degradação de seu meio ambiente. Seja pelo aquecimento global – que já fez vítimas entre outras montanhas, com o derretimento de geleiras – seja pela quantidade de lixo deixada pela multidão que habita suas encostas de quatro a seis meses por ano. É sobre este último problema que iremos tratar hoje...

São cerca de 60 mil turistas que chegam à base do Everest anualmente. Destes, uma média de 1.300 tentam escalá-lo (cada um, com uma média de 100 quilos de bagagem). O que significa centenas de toneladas de lixo deixadas todos os anos no Monte Everest.

Essa avalanche de gente perturbou seriamente o equilíbrio ambiental de toda a região – principalmente do Vale do Khumbu nepalês. A maior necessidade de lenha para aquecer e alimentar os turistas já causou um desflorestamento significativo. A ponto de Sir Edmund Hillary manifestar-se, até sua morte, contra este desmatamento, e ele mesmo promover o replantio de mudas de árvores nativas. Estima-se que sua fundação (a Edmund Hillary Foundation) já tenha realizado o plantio de mais de um milhão de mudas no Paque Nacional de Sagarmatha (considerado oficialmente Patrimônio da Humanidade, mas passagem obrigatória para o trekking ao Campo Base). E, mesmo hoje sendo ilegal o corte de árvores na região, a sua substituição por óleo diesel aumenta em muito a poluição do ar.

A "enfermaria de mudas" que a Edmund Hillary Foundation mantém no Parque Nacional de Sagarmatha

Vamos dar uma olhada em alguns números:

60 mil – é a média de turistas que chegam aos pés do Everest todos os anos
1.300 – é a média de alpinistas que efetivamente escalam a montanha
400 – é a média de alpinistas que chegam ao cume anualmente
3 quilos – é a média de lixo deixada por cada um destes alpinistas
120 toneladas – é a média de lixo deixada por ano na montanha pelo lado tibetano, já que o governo nepalês não divulga seus números

Outros dados interessantes se referem ao tipo de lixo acumulado, a medida que se sobe os acampamentos no Everest:

A 5.200 m (Campo Base): garrafas plásticas, embalagens de alimentos, excrementos humanos e de animais 
A 6.500 metros (Campo 1 e 2): garrafas térmicas, equipamentos de cozinha, cadeiras de plástico
A 7.800 metros (acima do Campo 3 e do Campo 4): barracas, colchonetes, cordas, garrafas de oxigênio, pilhas e baterias
A 8.850 metros (cume): garrafas de oxigênio 

 

 

Nas fotos acima, o Campo 4, um amontoado de garrafas de oxigênio, trapos de barracas, restos de comida, medicamentos e equipamentos quebrados

  

À esquerda, o lixo na trilha de aproximação do Campo Base; à direita, um dos depósitos do lixo retirado da montanha, em Lhasa 

Mais um triste documento do caminho ao Campo Base, desta vez pelo lado Norte: garrafas de vidro e plástico se amontoam às margens do platô tibetano

“Na minha última expedição ao Everest, em 2005, foi difícil tirar fotografias lá do topo sem que aparecessem as garrafas de oxigênio cor de laranja”, disse o alpinista brasileiro Waldemar Niclevicz à revista Veja no ano passado, em uma matéria sobre o assunto. Isso pode ser constatado por nós, aqui, no nível do mar: não há uma foto do Campo 4 em que não apareça um mar de lixo entre as barracas. Em outra reportagem, Niclevicz compara a degradação da montanha nos 18 anos que separam sua primeira investida e hoje. “Em minha primeira tentativa de escalar o Everest, em 1991, 341 pessoas já haviam conseguido a façanha; em 1995, quando finalmente alcancei o topo pela primeira vez, fui o número 627”, conta Niclevicz. “Hoje, mais de 3.500 pessoas já alcançaram o teto do mundo.”

Outro dado importantíssimo: não há instalações para o tratamento do lixo ou reciclagem na região do Everest. Por conta disso, anualmente 36,5 milhões de toneladas de água de esgoto descem para o rio Lhasa! (Os rios nepaleses, tibetanos e indianos, inclusive o Ganges, têm suas nascentes nas geleiras himalaias).

O resultado da falta de tratamento dos restos de expedições: a contribuição para a poluição dos rios nepaleses, tibetanos e indianos, que têm suas nascentes nas geleiras himalaias

Os governos do Nepal e da China – já que o Monte Everest localiza-se na fronteira entre os dois países – vêm, cada um a seu modo, tentando mobilizar os freqüentadores da montanha no sentido de trazer seu lixo para baixo. Mas esse “cada um a seu modo” é muito, muito relativo. Senão vejamos:

A China cobra de cada grupo de alpinistas uma taxa de lixo no valor de US$ 500. Já no Nepal, essa taxa é de US$ 4 mil. Há, nos postos do governo de fiscalizam a entrada, um funcionário designado a conferir, no retorno das expedições, se o lixo foi retirado da montanha e trazido de volta. Se ele constatar que sim, esse valor é devolvido.

Ações de limpeza também vêm sendo sistematicamente promovidas pelos dois governos – e o chinês mostra-se um pouco mais conscencioso nesta questão. Até o Campo Base, os governos sistematicamente retiram o entulho e o lixo.

Ok, mas vejam o seguinte: em 2007, o governo chinês anunciou a construção de uma estrada de 107 quilômetros visando facilitar o transporte da tocha olímpica ao cume do Everest (o que realmente aconteceu e tumultuou a temporada de escalada no ano passado). Então perguntamos: de que adianta cobrar US$ 400 pelo lixo trazido se uma estrada levará cada vez mais turistas à montanha? E mais grave: esta rodovia pode ser o primeiro passo para o “desenvolvimento” da região, incluindo a exploração de minério. E aí?

Em 2004 e 2005 foram realizadas grandes operações de limpeza na montanha pelo lado tibetano. Em 2008 e neste ano, a Everest Eco Expedition (expedição promovida pela empresa de escalada Asian Trekking, do Nepal, e dirigida pelo sherpa Ang Thsering) também recolheu lixo pelo lado nepalês. Em 2008, liderada pelo Dawa Steven Sherpa, além de recolhimento do lixo fora testados um sistema de eliminação de resíduos humanos e de detritos, um equipamento de purificação da água e a utilização das energias renováveis para cozinhar e gerar eletricidade. "Durante minhas experiências no Everest, tenho desenvolvido o que chamo de Modelo Ecológico Everest", disse Dawa Steven. "O meu objetivo é mostrar que, com o mínimo de despesas extras, qualquer expedição pode ter um impacto positivo", completou, acrescentando que o experimento de 2008 teve êxito e será utilizado em temporadas próximas para diminuir o impacto na montanha.

O time da Everest Eco Expedition 2009, realizando o puja antes da primeira investida

Um dos testes realizados pela Eco Everest 2008 foi, por exemplo, a utilização de um um fogão portátil de energia solar, uma técnica simples e que pode ser utilizada tanto pelas expedições como pelos habitantes locais. Segundo Dawa, uma expedição irá usar para cozinhar, no máximo, vinte cilindros de gás GLP de 30 quilos cada, representando uma economia significativa, sem liberar gases nocivos.

Outro experimento da expedição foi uma nova maneira de esterilizar a água, através de um dispositivo chamado SteriPEN, que utiliza luz ultravioleta para destruir microorganismos aquáticos. Ele leva 90 segundos para purificar um litro de água e pesa menos de 225 gramas. Neste ano, Dawa e sua equipe retiraram 965 quilos de lixo e detritos do Everest (incluindo partes do helicóptero do exército italiano que caiu no acampamento 1, em 1973) e 69 garrafas de oxigênio.

Este ano, Apa Sherpa, integrante da Everest Eco Expedition 2009, e ao conseguir seu 19º cume, levou consigo uma mensagem:

"Parem as alterações climáticas - Deixem o Himalaia viver!”

"Com um trabalho árduo, Dawa mostrou mais uma vez a todos os líderes de expedições presentes no Everest em 2009 que é possível praticar o esporte de maneira ecológica. A cada expedição ele desenvolve práticas inovadoras e melhores para o montanhismo. Ele já criou sistemas de gestão de resíduos, remoção de lixo e eliminação, além de tecnologias solares para produção de água quente", disse Linda McMillan, presidente da Comissão de Proteção UIAA de Montanha, que há 75 anos atua efetivamente, auxiliando a escalada aos maiores cumes do mundo.

Como Sir Edmund Hillary, pessoas físicas preocupadas com a situação também promovem campanhas e expedições de limpeza. Em 2007, o alpinista japonês Ken Noguchi recolheu 10 toneladas de lixo da montanha, entre latas, barracas, restos de comida e medicamentos. A Federação de Montanhismo da Índia recusa-se a prestar auxílio a expedições com mais de 12 membros, diminuindo, assim, o número de pessoas sob sua tutela.

O filho do desbravador do Everest, Peter Hillary, também herdou, além da habilidade de alpinista, a consciência ecológica em relação ao Khumbu – que foi seu parque de diversões durante a infância e a adolescência. Hillary, o pai, após escalar o Everest, nunca mais abandonou a região e seu povo e todos os anos retornava ao Nepal para promover melhorias. E seus três filhos – Peter, o mais velho – iam junto.

  

Sir Edmund Hillary com os catas e flores oferecidos pelos sherpas, um povo que sempre esteve em seu coração

Peter, Sarah e Belinda, os três filhos de Edmund e Louise Hillary: todos os anos, a família inteira ia ao Nepal construir escolas e hospitais, reformar pontes e melhorar a qualidade de vida dos sherpas. O Khumbu passou a ser o quintal dos Hillary. E foi ali que, após um acidente de avião, Louise e Belinda pereceram. Hoje, há dois chortens (memoriais sherpas) em homenagem às duas integrantes da família Hillary que morreram nas montanhas

No ano passado, Peter Hillary mostrava-se pessimista. “O mundo é um lugar cheio de lixo”, ele disse. E referindo-se especialmente ao Everest: “É necessário que algum aparelho pequeno e fácil de carregar seja construído para que os próprios alpinistas sequem e retirem da montanha seus dejetos”. E conclui: “Se o homem inventou computadores e bases aéreas, é certo que poderá constuir algo para carregar seu próprio lixo e preservar o planeta”.

  

Tal pai, tal filho: Sir Edmund Hillary (à esquerda) deixou mais do que o montanhismo como legado a seu filho Peter: como sempre fez em vida, Hillary demonstrou que o amor pelas montanhas e pelos sherpas vale mais do que qualquer cume. E Peter segue à risca o ensinamento do pai

Até a ONU vem se manifestando contra a devastação do meio ambiente no lugar. Em 2007, o Dia Mundial do Meio Ambiente chamou a atenção do mundo para o derretimento das geleiras do Tibet.

Como sempre vemos os dois lados da questão, também paramos para analisar o seguinte: a partir do Campo Base – seja por qual lado da montanha – a escalada efetivamente tem início. E isso inclui todos perigos inerentes a ela: a altitude, a exaustão, as intempéries da natureza. Será humanamente possível pensar em trazer de volta seus dois cilindros de oxigênio vazios após descer do cume – tendo que trazer a si mesmo em estado deplorável para baixo? Os sherpas devem ser responsáveis também por isso? Os guias de expedição deveriam designar sherpas específicos para fazer a “varredura” da equipe, estando descansados e sem ir ao topo – ou seja, seriam uma tropa de limpeza pós-expedição?

Uma outra questão – entre tantas que podemos listar... – é, a meu ver, a mais sutil e, em essência, a mais importante: o impacto da devastação na cultura e na religião de tibetanos e sherpas. No Tibet e no Nepal, o Everest é um símbolo de veneração, um local sagrado habitado por deuses, e é motivo de orgulho ter esta montanha e sua simbologia no quintal de casa.

Como será que os povos tradicionais da região convivem com a violência ao seu lugar?

Como sempre, trazemos o exemplo para o nosso cotidiano:

Imagine o seu jardim. Cultivado por gerações de sua família em sua casa. Nele, os caminhos de pedra foram cuidadosamente traçados... 

 

A trilha que leva ao Campo Base, próxima a Phakding, ainda com clima ameno, vegetação farta e uma ativa e vibrante vida selvagem

... no seu jardim, as árvores nasceram de pequenas mudas plantadas há muito tempo, e agora estão frondosas. As flores foram cultivadas e agora são fortes, perfumadas e belas, graças aos anos dedicados à rega...

O rododendro, a flor-símbolo do Nepal

... o seu jardim, com um equilíbrio perfeito, atrai várias espécies de pássaros e até pequenos micos vêm até ele de manhãzinha.

O iaque, um símbolo de força e proteção para os sherpas, pois carrega o peso que o homem não consegue carregar e fornece a lã que abriga do frio intenso, e a carne, o leite e a manteiga que alimentam

A 'danfe pheasant', o pássaro nacional do Nepal

De repente, alguém resolve que o seu jardim pode ser visitado. E centenas de pessoas o atravessam todos os dias, deixando ali o seu lixo e dejetos pessoais, abatendo as árvores para fazer lenha e aquecer seus corpos ou sua comida. Afugentando os pássaros e tirando a alimentação dos micos. Deixando rastros que não se apagam e levando como "lembrancinha" uma pequena pedra ou uma flor. Vilipendiando o seu templo – a sua casa.

Dá pra entender?

Namastê.

5.0 ponto(s). Avaliado por 4 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Salvando vidas no Everest

by Patricia Paladino 24. julho 2009 07:23

 

 

Caros membros da expedição O Meu Everest

Se no post anterior falamos sobre as inevitáveis mortes na montanha, hoje vamos para o lado oposto da questão: os voluntários que salvam vidas no Everest.

A Himalayan Rescue Association é uma organização não governamental que oferece apoio médico a expedições e trekkings nas trilhas da região. É uma tábua de salvação para os primeiros-socorros de alpinistas, e conta com médicos voluntários especializados em doenças provocadas pela altitude e por traumas.

A HRA é responsável pela clínica localizada em Periche – o último assentamento importante e habitado antes do Campo Base  – que funciona nas duas temporadas ao Everest (em maio e em outubro). O hospital mais alto do mundo está montado em uma cabana simples, mas com todo o equipamento necessário para o auxílio de alpinistas e trekkers em apuros.

Este posto foi construído em 1976 pelo Tokyo Medical College e desde então já recebeu cerca de 280 médicos de todas as partes do mundo. A clínica é muito procurada por especialistas que querem estudar, in loco, os efeitos da altitude no organismo humano. Nesta temporada estavam atendendo na clínica os médicos Neil Edmund Waldman, Noralma Garcia, Tracy Alexandra Cussing, David Weber e  Madeleine Rebecca Martindale  (todos dos Estados Unidos) e o doutor  Lara Azzopardi , de Malta.

A vila de Periche, último assentamento habitado antes do Campo Base, e onde se localiza o posto médico da HRA

          

                Um dos voluntários diante da clínica...                  .... e no trekking rumo ao lugar onde ficarão por dois meses

Mais de 90% das consultas realizadas ali se referem aos males da altitude (edemas pulmonar e cerebral, hipoxia, hipotermia), seguidos por fraturas e congelamentos. O custo elevado para manter a clínica da HRA aberta é compensado pelas vidas que esses médicos salvam a cada temporada – e pelo tratamento que oferecem à população da região que, enquanto o posto funciona, também recebe auxílio dos médicos voluntários.

Além disso, o trabalho realizado e o estudo proveniente do tratamento aplicado estão sendo decisivos para se conhecer um pouco mais sobre o mal de altitude – o que será de grande valia na prevenção e na cura emergencial desta patologia que atinge uma boa parte de quem se aventura nas grandes montanhas himalaias. E que ainda é um tanto desconhecida: já se conhece os muitos sintomas que dão o aviso do mal, como a doença evolui e quais são as primeiras providências a serem tomadas. Mas as causas exatas ainda são ignoradas.

Por exemplo: por que há quem se adapte em muito pouco tempo, enquanto outros nunca se aclimatizam? Por que há reações diferentes na evolução do mal de altitude? Por que há os que nunca se adaptam? E, principalmente: por que alguns alpinistas experientes em altitude se aclimatizam bem em uma temporada e, no ano seguinte, sofrem com a altitude em um acampamento bem mais baixo do que o do ano anterior? Houve um caso, há alguns anos, em que um experiente alpinista que morreu subitamente no Campo Base do mal da montanha, após ter chegado ao cume (e aos 8.848 metros) por diversas vezes. São questões que os voluntários da HRA em Periche estão tentando resolver.

                    

À esquerda, mais um grupo chega a Periche para a temporada. E à direita, a câmara hiperbárica, um dos recuros utilizados para diminuir a sensação de altitude e reverter casos do mal da montanha

O que se está buscando – e já está em curso, por conta dos estudos – é que, em pouco tempo, através de uma simples amostra de saliva, se possa ter noção da adaptação do organismo da pessoa testada à altitude. Cientistas como Paul Richalet, médico especializado nestes casos, estão relacionando essa capacidade de aclimatação aos níveis de um hormônio chamado angiotensina, que é responsável por problemas cardiovasculares como hipertensão e vaso-constricção, que são severamente atingidos pela altitude. Pessoas que têm níveis baixos deste hormônio demonstram melhor funcionamento do organismo em grandes alturas.

Só um pequeno resumo do que é o mal de altitude: o edema (cerebral, pulmonar ou subcutâneo) é a conseqüência mais grave, e fatal, da drástica altura do Everest. A retenção de líquidos e sódio é a causa da disfunção e os primeiros sinais denunciadores é o inchaço do rosto e dos membros superiores e inferiores (por isso a ingestão de muito líquido e de diuréticos é recomendada mesmo para os trekkers).

Não sendo diagnosticada, a doença avança para um grave edema cerebral , processo que é desencadeado quanto mais o ar fica rarefeito, o que obriga o coração a realizar um esforço muito maior para satisfazer a necessidade de oxigênio do cérebro. Isso, claro, é apenas um resumo da história, que é muito ampla e grave. Depois faremos um post sobre como o organismo humano reage à altitude, em todas as suas vertentes...

 

A tomografia de um alpinista que sofreu edema cerebral na temporada de 1997

Uma das maneiras de se evitar a patologia é de conhecimento comum de todos os alpinistas e líderes de expedições, e segue a máxima: “suba alto e durma baixo”. Ou seja: para uma aclimatação satisfatória (fora os imprevistos) o plano de escalada prevê subir a um acampamento mais alto e descer para dormir em outro, imediatamente inferior. Descansa-se ali e retomando a escalada, segue-se ao campo seguinte, e ao próximo, para pernoite no campo intermediário. E assim se vai subindo as encostas do Everest...

Suba alto e durma baixo: esta é a máxima da escalada em grande altitude. No caso do Everest, requer pelo menos oito viagens subindo e descendo a montanha até o dia do cume

O interessante é que este método não foi “descoberto” pelas expedições modernas. Ele remonta ao século XVI (!) e quem o utilizou, por intuição, pela primeira vez, foi o conquistador espanhol Francisco Pizarro, quando liderou uma longa caminhada desde Lima (a 150 metros do nível do mar) até Cuzco, a 3.399m. Ele percebeu que seus homens mais fortes – e que faziam o percurso rapidamente – sofriam com diversas moléstias, enquanto os mais lentos, não. Sua perspicácia fez com que montasse um posto intermediário, a 2.752 metros de altitude, em San Juan de la Frontera, facilitando, assim, a aclimatação (embora eles não chamassem assim...) de sua tropa...

A Everest Base Camp Clinic, montada no Acampamento Base do Everest e desde 2003 salvando vidas na montanha

Voltando aos bons serviços da Himalayan Rescue Association quando o assunto é salvar vidas, além do posto de Periche, em 2003 foi inaugurada a Everest Base Camp Clinic, um posto avançado instalado no Campo Base do Everest. Dali, os médicos prestam os socorros emergenciais em casos mais graves, como o envenenamento do sherpa por uísque falsificado este ano. A atuação dos médicos foi fundamental para que ele sobrevivesse.

O resgate feito pelos voluntários nas encostas frias do Everest

                   

Helicóptero para a retirada dos feridos mais graves da montanha, que são levados imediatamente para o hospital em Kathmandu

                 

                 

E os voluntários em ação, na barraca-médica

Uma última curiosidade sobre o posto da HRA: o lendário guia e alpinista neozelandês Rob Hall (um dos protagonistas da tragédia de 1996) conheceu sua mulher, a alpinista e médica especializada em males da altitude Jan Arnold, na clínica de Periche, onde ela prestava serviços como voluntária. Foi com ela que Hall trocou suas últimas palavras, escolhendo o nome da filha Sara pouco antes de morrer, por hipotermia, em maio de 1996. O gerente de seu Campo Base fez uma ligação via satélite, ligando Hall à Nova Zelândia, para se despedir de Jan... E ela, com conhecimento técnico do estado do marido, sabia mais do que ninguém que ele não retornaria.

                         

Um pequeno voluntário? Quem sabe um futuro médico da Base Camp Clinic – ou um futuro montanhista... E o símbolo da Everest Base Camp Medical Clinic

Este é um trabalho lindo dos muitos médicos que vão, todos os anos, e sem receber nada por isso, para a gelada vila de Periche, a 4.240m, e permanecem por lá cerca de dois ou três meses. E que desde então salvaram muitas vidas. Se, como vimos antes, muitos morrem tentando escalar a montanha mais alta do mundo, certamente outros sobreviveram graças a Himalayan Rescue Association.

Namastê!

5.0 ponto(s). Avaliado por 4 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Um assunto inevitável

by Patricia Paladino 16. julho 2009 09:41

Caros membros da expedição O Meu Everest

Hoje o assunto pode parecer um pouco tenebroso, mas não há como fugir dele. Em uma montanha como o Everest, fatalidades acontecem em número razoável em todas as temporadas. E as conseqüências disso – os corpos que permanecem na montanha e, muitas vezes, na rota de subida para os acampamentos mais altos – tornam inevitável que toquemos neste assunto.

De qualquer forma, não teremos imagens fáceis de se ver neste post. São fotos fortes, mas que fazem parte dessa triste estatística da alta montanha.

Todos sabemos que o montanhismo de grandes altitudes é um esporte de risco. Um risco calculado, pela estrutura de que as grandes expedições dispõem atualmente e pela ajuda da tecnologia – tanto no sistema de comunicação como nos equipamentos de segurança de escalada e vestimenta. Mas não há como fugir dos imprevistos. Sejam naturais, como avalanches, quedas em gretas ou desabamentos de séracs, sejam da própria natureza humana: mesmo quem já subiu vários OitoMil com ótima aclimatação não está livre de, em algum dia, sofrer com Hape e Hace (edemas pulmonares e cerebrais provocados pela altitude) e outros males. São circunstâncias inerentes ao próprio esporte – mas que deixam, pelo caminho, os corpos que não podem ser resgatados. E que acabam se tornando “marcos” para traçar a rota de subida.

O caso clássico pela rota tibetana, do Colo Norte e Aresta Nordeste, é o alpinista conhecido como Green Boots – um indiano que pereceu na descida por hipotermia, aconchegou-se em uma pequena reentrância na neve e morreu. Seu corpo era avistado por quem seguia a rota, na confluência do Colo Norte com o início da Aresta. Era inevitável passar por ele. E ao avistar sua caverna, os alpinistas tinham a noção do tempo de escalada até o cume.

 

Nas três fotos acima, o montanhista indiano conhecido como Green Boots, cujo corpo foi retirado da montanha em 2007

Foi ao lado dele que David Sharp – também sofrendo de hipotermia em 2006 – recolheu-se para, em um estado de quase-inconsciência provocado pelo Mal da Montanha, simplesmente morrer. E, sendo o caminho para o cume, dezenas de alpinistas passaram por ele na ida e finalmente o acudiram na volta. Mas aí já era tarde demais. Sharp morreu ao lado de Green Boots. Seu corpo – como o do indiano – foram resgatados no ano seguinte. A caverna agora está vazia.

A caverna do Green Boots, agora vazia 

A maior historiadora do Himalaya e uma autoridade no assunto, Elizabeth Hawley – uma velhinha inglesa que mudou-se para Kathmandu há décadas e possui o maior banco de dados sobre as montanhas desta parte do mundo – compilou as causas e os locais de maior incidência de mortes desde que as primeiras expedições chegaram ao Everest. O levantamento disponível cobre o período de 1921 a 2006.

A historiadora Elizabeth Hawley tem o maior banco de dados sobre as montanhas himalaias. Além de prestar consultoria para expedições, ao final de cada temporada, através de entrevistas e relatórios, Hawley amplia sua pesquisa com depoimentos de montanhistas e guias

O resultado é um impressionamente levantamento. Coletando dados sobre 85 anos de expedições ao Everest, Hawley compilou (dados até 2006) 14.138 montanhistas ascendendo ao cume (sendo 8.030 ocidentais e 6.108 sherpas) – destes, 212 (dados até 2006) morreram em algum ponto da montanha, na subida ou na descida e de causas variadas. Ela classificou as causas das mortes como ocasionadas por traumas (desabamentos ou quedas), causas não-traumáticas (fadiga profunda, mudanças cognitivas, ataxia, hipotermia e morte súbita) ou desaparecimento (quando o corpo nunca é encontrado).

De 1982 a 2006, 82,3% das mortes ocorreram durante a ascensão ao cume. De 94 montanhistas que pereceram acima de 8 mil metros, 53 (ou 56%) morreram na descida; 16 (17%) após desistirem do cume e voltarem; 9 (10%) durante a descida do topo; 4 (5%) após deixarem o acampamento mais alto; e 12 (13%) de causas não conhecidas. Outro dado significativo do estudo revela que as mortes (também acima dos 8 mil metros) aconteceram por quedas (34%), desparecimento (29%), doenças provocadas pela altitude (11%), morte súbita (5%), hipotermia (2%). Quinze por cento das fatalidades na Zona da Morte não puderam ser classificadas por uma única causa.

As primeiras vítimas do Everest foram sete sherpas – até hoje, o número de fatalidades envolve, em sua maioria, montanhistas sherpas – que faziam parte da expedição britânica, a segunda de George Mallory, em 1922. Uma avalanche de proporções gigantescas se desprendeu da parte mais alta do paredão que leva ao Colo Norte (rota tibetana), sepultando os sherpas que subiam atrás de Mallory. Que escapou ileso mas nunca conseguiu superar o acontecimento.

O fato é que, mesmo sabendo que haverá corpos pelo caminho, avistá-los é sempre um obstáculo psicológico a mais para quem está na mesma empreitada de quem agora jaz na montanha para sempre. Ver um cadáver de um montanhista é como ter a consciência da impotência que pode atingir a qualquer um. Superar isso talvez seja até mais difícil do que chegar ao cume.

Muitos montanhistas, ao partirem para as altas montanhas, deixam sua vontade expressa de permanecer lá, caso algo aconteça. O guia americano e líder da Mountain Madness em 1996, Scott Fischer, ainda está lá, bem próximo ao Campo 4, no Colo Sul nepalês. Rob Hall, líder da Adventure Consultants na mesma temporada, também, em algum lugar próximo ao Cume Sul. Outros, como o corpo de Andy Harris, guia de Hall, que despareceu na tragédia de 1996, e o de Nills Antezana, médico abandonado pelo guia e os sherpas que o conduziam em 2004 na Plataforma Balcony, nunca foram encontrados – assim como tantos outros que permanecem em algum lugar desta montanha.

        

O visionário Maurice Wilson, que em 1934 tentou, sozinho, chegar ao cume do Everest. À direita, os restos de Wilson, que de vez em quando emergem da neve

Há casos que beiram o fantasmagórico. Em 1934, um visionário chamado Maurice Wilson – um soldado britânico, excêntrico e místico, sobre quem iremos falar mais detalhadamente em breve – resolveu, mesmo sem conhecimento de técnicas de escalada, chegar ao cume do Everest. Sozinho. Aventurando-se pelo desértico platô tibetano, Wilson desapareceu na rota seguida pelas expedições atuais do Glaciar de Rongbuk. Seu corpo foi descoberto por Eric Shipton aos pés do Colo Norte, em 1935. E hoje, de acordo com as condições climáticas e a quantidade de neve, os restos mortais de Maurice Wilson eventualmente emergem de sua tumba gelada, para fazer-se presente ao mundo dos vivos.

5.0 ponto(s). Avaliado por 4 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Qual a altitude do Everest?

by Patricia Paladino 10. julho 2009 16:09

Isso é fácil, não? Mais ou menos... Ok, o Monte Everest é a montanha mais alta do planeta. São 8.848 metros de uma grandeza que não é apenas física. Mas será que é isso mesmo?

A medição mais rigorosa foi realizada em 1999 pela National Geographic Society, e dirigida pelo geógrafo e cartógrafo Bradford Washburn. O trabalho levou quatro temporadas de escalada coletando dados – as expedições que faziam parte do estudo instalavam balizas de posicionamento na montanha e realizaram medições prévias.

Mas foi com a Millenium Expedition, da qual fez  parte um dos montanhistas mais gente boa do circuito, Pete Athans ( um veterano do Everest, que ama a montanha, sua região, a cultura e a religiosidade dos sherpas e até fala nepalês) que a mais precisa medição da altitude desta montanha foi realizada. Com a ajuda de cinco sherpas, Athans e outros alpinistas levaram ao cume um complexo equipamento de GPS – e de lá, em 5 de maio de 1999, estabeleceram comunicação com quatro satélites que orbitavam sobre o pico durante 50 minutos.

 

Pete Athans, um dos mais respeitados montanhistas do Everest - inclusive pelos sherpas, pela proximidade que mantém com a cultura e a religião nepalesa

O equipamento de GPS continua instalado em vários pontos da montanha, como as "agulhas" no Colo Sul

Enquanto Athans transmitia os dados do topo, um outro GPS, instalado no Colo Sul, utilizou-se destes mesmos sinais para confirmar os dados.

Pelos cálculos desta medição, constatou-se que o Everest é dois metros mais alto do que se pensava até então: 8.850 metros de altitude.

Mas muitos contestam e outros não aceitam este número. O Governo do Nepal, por exemplo, ainda utiliza os dois metros a menos como a altitude oficial. Os que contestam a medição apontam para a capa de neve que se acumula nas montanhas himalaias, segundo o clima de cada temporada, que pode elevar ou diminuir em alguns metros até determinados pontos das montanhas.

O que é incrível é a precisão dos cálculos realizados de forma bastante rudimentar há mais de dois séculos. Sem a tecnologia de que dispomos hoje e, pior, sem nunca ter chegado próximo da montanha – muitas das medições foram realizadas da Índia, a centenas de quilômetros de distância!

Uma história sobre esse período é emocionante. O bengali Radhanath Shikhar era um mero auxiliar do Great Trogonometrical Survey, o Serviço Topográfico Britânico na Índia. Um belo dia, estava no escritório do Serviço quando cálculos realizados a partir das medições tomadas pelas estações topográficas instaladas pelo Norte da Índia começaram a saltar aos seus olhos. Ele refez os cálculos. E de novo. E mais uma vez. E em todas as vezes os resultados eram idênticos.

 

      

Radnanath Shikhar, auxiliar do Great Trogonometrical Survey, foi quem "descobriu a montanha mais alta do mundo". Ao lado, um dos aparelhos usados na medição das montanhas himalaias no século 19 

Imediatamente correu ao seu chefe, Andrew Waugh, cartógrafo geral em Dehra Dun, Andrew Waugh: “Senhor, acabo de descobrir a montanha mais alta da Terra!”, disse Radhanath. Ele acabara de realizar a maior descoberta da geografia moderna. Isso em 1852. Os estudos dirigidos por Waugh já duravam dois anos – e o comunicado para seus superiores em Calcutá garantiam que “temos os dados finais da montanha designada Pico XV (como era designado o Everest nesta época). (...) podemos outorgá-la uma altura de 29.002 pés, ou um pouco mais de 8.839 metros. Provavelmente a montanha mais alta do mundo.”

Durante um século esta foi a altitude oficial do Pico XV, mais tarde batizada Everest em homenagem ao topógrafo geral da Índia George Everest. Por vezes, outras medições apontavam números próximos, como 8.882m ou 8.888m. Em 1856 o topógrafo Schlaigintweit fez outros cálculos de maneira trigonométrica e chegou a uma altitude de 8.871,50m. Entre 1881 e 1902, o Serviço Cartográfico da Índia elevou um pouco mais: 8.882,20m.

Em 1952 – um ano antes do desbravamento – a altitude oficial era de 8.840m, depois corrigida para 8.848,60m. Em 1975, medições chinesas pelo lado tibetano do Everest apontaram sua altura em 8.848,30.

 

Ardito Desio (no centro, de chapéu) fez medições com GPS quando o aparelho ainda era uma novidade, em 1987. Aqui, ele está presente na inauguração da pirâmide da Estação Italiana de Pesquisas, no Glaciar do Khumbu, já próximo ao Campo Base

Em 1987, o cientista italiano Ardito Desio (que liderou a expedição italiana que desbravou o K2, em 1954) fez medições com base no GPS, que estava sendo lançado na época. Os dados obtidos marcaram 8.872m. EM 1992, novas medições de Desio apontaram para 8.846m.

Até chegar a definitiva – pelo menos até agora – Millenium Expedition, que pode ter marcado a altitude mais precisa, mas gerou muita polêmica.

A parte mais curiosa de toda essa controvérsia sobre os dois metros a mais ou a menos do Everest – o que na verdade não interfere em sua posição no ranking dos gigantes com mais de 8 mil metros de altura, uma vez que o segundo lugar, o K2, tem 8.611m, bem abaixo do Everest – é que:

se medido do centro da Terra – o que foi realizado, em teoria, pelo cientista Lars Sjöberg, em 1977 – o Everest não é a montanha mais alta do mundo. Sjöeberg fez a descoberta cruzando a medida desde o centro da Terra com o cálculo da curvatura da superíficie do planeta...  e chegou à conclusão de que do centro ao cume, o Everest tem 6.382.213 metros (seis milhões, trezentos e oitenta e dois mil e duzentos e treze metros!!!). Mas que o vulcão andino Chimborazo o supera: tem 6.384.422 metros do centro ao cume.

O vulcão Chimborazo, no Equadro, o ponto do planeta mais afastado do centro da Terra, o que lhe confere um título extra-oficial de montanha mais alta do planeta. Mas da superfície terrestre para cima, ele tem "apenas" 6.267m de altitude. Portanto, não é mais alto do que o Everest... 

A razão para isso é que a Terra não é uma esfera perfeita e é mais “achatada” nos pólos. Portanto, por estar mais perto do Equador, o vulcão está mais “fundo” no centro da Terra do que o nosso Everest – e portanto é o ponto do planeta mais afastado de seu centro.

Mas isso é só uma viagem científica que em nada muda a majestade do Everest. Até porque, acima do solo, o Chimborazo tem, apenas 6.267 metros de altitude...

É isso. Após a nevasca, estamos de volta com algumas curiosidades sobre a história da montanha mais alta e mais majestosa do mundo.

Namastê. 

5.0 ponto(s). Avaliado por 3 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Depois da nevasca, o resgate

by Patricia Paladino 10. julho 2009 15:48

Caros membros da expedição O Meu Everest:

Após duas semanas presa no alto da montanha sob uma terrível nevasca, finalmente a equipe de resgate me encontrou e me trouxe pra baixo!

Bem, isso é parte da imaginação. A realidade é que, não sei se todos sabem, mas estou viajando com a caravana que está fazendo o filme Chico Xavier. Meu trabalho é fazer o blog dos bastidores das filmagens. É claro que isso não impediria de continuarmos nossa expedição montanha acima, porém o grande obstáculo – maior do que o Segundo Escalão, podem crer – é a conexão da internet! Parece mesmo que estou lá no Campo Base do Everest, incomunicável. E olha que estou apenas em Tiradentes!!

Mas parece que o problema está sendo solucionado. Até porque, imaginem fazer um blog diário sem conexão boa! E imaginem ficar mais de 10 dias sem contato com o nosso Everest!!! Às vezes conseguia entrar apenas para ver como estava o movimento em nosso “Campo Base” – os comentários – e fiquei feliz em ver que alguns dos membros de nossa expedição continuavam com o debate! E também ficava triste e frustrada por apenas conseguir deixar um ou outro comentário, não participar mais e, principalmente, não conseguir postar novidades.

Mas isso está se resolvendo, graças aos deuses de Chomolungma! E agora, no mínimo uma vez por semana até acabar esta minha expedição pelo cinema nacional, teremos novos posts e assuntos para continuar debatendo.

Adiante e rumo ao cume de nossa montanha!

Namastê!

5.0 ponto(s). Avaliado por 1 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Mulheres nas alturas - Parte 3

by Patricia Paladino 26. junho 2009 16:59

Caros membros da expedição O Meu Everest

Chegamos à terceira parte da série Mulheres nas Alturas, com a italiana Nives Meroi, a mais velha das três montanhistas que estão a alguns passos do Circuito dos OitoMil. O mais bacana é a diferença de estilo entre as três. Nives é uma purista, uma "à moda antiga" da montanha. Vamos a ela:

 

Série Mulheres nas Alturas - Parte 3

NIVES MEROI

Seus OitoMil:

1998 – Nanga Parbat (8.126m)
1999 – Shishapangma (8.027m)
1999 – Cho Oyu (8.201m)
2003 – Gasherbrum II (8.035m)
2003 – Gasherbrum I (8.068m)
2003 – Broad Peak (8.047m)
2004 – Lhotse (8.516m)
2006 – Dhaulagiri (8.167m)
2006 – K2 (8.611m)
2007 – Everest (8.848m)
2008 – Manaslu (8.163m)
Ainda lhe faltam o Kangchenjunga, o Annapurna e o Makalu.

Mais velha entre as três montanhistas, a italiana Nives Meroi nasceu em Bergamo, em 17 de setembro de 1961. Começou pelos Alpes e nas Dolomitas e sua primeira tentativa de um OitoMil foi bem arriscada: uma difícil rota do difícil K2 – chegou a 8.000m, mas não conseguiu o cume.

Seu primeiro OitoMil foi o Nanga Parbat, em 1998. Também a partir do início do novo século, Nives entrou para o rol da elite do montanhismo (sempre escalando com o marido, Romano Benet, com quem divide as cordas e a vida há 21 anos) e para a corrida pelo 14 gigantes. Em 2003 fez o Gasherbrum II, o Gasherbum I e o Broad Beak. E em 2006 também escalou dois himalaios, o Dhaulagiri e, enfim, o K2. Todos sem oxigênio artificial e em estilo ligeiro. Sobre o casal, no meio do montanhismo se costuma dizer que “seu estilo remonta a uma outra era do montanhismo”. Um purismo notável e que também mantém o par unido.

Alguns sites especializados em alta montanha chamam Nives de Himalayan Queen, por seu estilo à antiga de escalar. Apesar do inglês bem precário, Nives é sempre muito solícita e simpática na montanha. Tanto que, durante a escalada ao Everest, em 2007, sem o suporte de uma grande expedição, quatro italianos de sua equipe desapareceram na montanha. Nives e Romano já haviam feito o cume, e estavam no Base Avançado. Dois dias sem notícias dos companheiros. O jeito foi apelar para Russel Brice, líder da Himalayan Experience (HimEx), e conhecido por não negar auxílio a nenhum montanhista em dificuldade. Brice deslocou um de seus melhores sherpas que já estava no alto da montanha (desfalcando sua própria equipe de cume) para vasculhar os acampamentos em busca dos italianos. Dois desceram por conta própria, outro foi encontrado pelo sherpa e um, infelizmente, morreu.

Esta cena pode ser vista na segunda temporada da série Beyond the limits, do Discovery Channel. Chega a ser um pouco cômico (se não fosse trágico) a dificuldade de Nives em se comunicar com Brice – mas sua gratidão pode ser sentida em qualquer idioma...

Em março de 2009, Nives e Romano seguiram para o Kangchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo e localizada na fronteira do Nepal e da Índia. Mas mudaram de idéia por conta do “alvoroço na Kang. Zone”, como escreveu em seu site, e rumaram para o Annapurna. O tempo ruim forçou o casal a retomar seu plano original (Kang). Mas problemas de saúde com Romano fez com que os dois abandonassem a escalada em 17 de maio. Este não foi um bom ano para os italianos...

Uma das maiores experiências nos gigantes himalaios, para Nives, foi a escalada do K2, em 2006. Ela diz: “O lado Norte do K2 é isolado e distante de absolutamente tudo. Comparado ao Campo Base da rota normal, dá uma sensação de solidão e de estar explorando um novo mundo. Só havíamos nós sete lá, mais ninguém. Tínhamos a montanha só para nós... é uma sensação maravilhosa!”.

Mesmo com 11 OitoMil nas costas, e sendo uma excelente guia, Nives Meroi ainda encontra dificuldade para levantar dinheiro para suas expedições. “Muitas vezes deixamos uma montanha de lado por falta de dinheiro. Não é fácil conseguir patrocínio ou apoio para ninguém. Pior se você é italiano, e mora onde nós moramos, em Tarvisio, não muito distante da fronteira com a Áustria e a Eslovênia. Muitas vezes somos totalemente esquecidos em nosso pequeno refúgio!”, brinca Nives. Quem pode esquecer uma rainha do Himalaia? 

DHAULAGIRI 

 

Cume do Dhaulagiri

 

GASHERBRUM I

Chegando ao cume...

... e no cume!

 

K2

 

 

LHOTSE

Com o marido e parceiro Romano Benet, com quem divide a vida e as montanhas, na caminhada de aproximação do Lhotse, montanha vizinha ao Everest e cuja trilha e os acampamentos (do Base ao Campo 4) seguem o mesmo percurso

Na barraca de um dos acampamentos (não identificado)

A temida Cascata de Gelo do Khumbu também é travessia para a escalada do Lhotse...

... assim como o Western Cwm, ou Vale do Silêncio, que abriga os campos 1 e 2

 

EM OUTRAS MONTANHAS

          

                No Gasherbrum II...                                                ... e no Nanga Parbat

E em nossa linda e amada montanha. É claro que é o Everest.. Aqui, atravessando a Cascata de Gelo

 

DIVIDINDO A CORDA: COM ROMANO BENET

 

 

 

 

Caros membros de nossa expedição, chegamos ao fim da primeira parte da série Mulheres nas Alturas. Para os que não viram os perfis de Edurne Pasaban e Gerlinde Kaltenbrunner, é só arrastar o mouse para os posts mais abaixo. Vamos continuar esta série, com o perfil das grandes e lendárias montanhistas que chegaram aos cumes das maiores montanhas da Terra.

Por várias vezes Edurne, Gerlinde e Nives se encontram nos campos bases das altas montanhas. Em 2003, Edurne e Nives encontraram-se no Base de duas montanhas: o Gasherbrum I e II. Em 2007, Edurne e Gerlinde fizeram o cume do Broad Peak no mesmo dia, 12 de julho. O mesmo aconteceu em 1º de maio de 2008, quando as duas chegaram ao cume do Dhaulagiri.

Este ano, Edurne e Nives estavam no Kangchenjunga, enquanto Gerlinde fazia o cume no Lhotse.

Se elas negam que haja competição, o resto do mundo aguarda ansiosamente quem será a primeira a conseguir completar o Circuito dos 14 OitoMil.

      

               Edurne Pasaban                                  Gerlinde Kaltenbrunner                                  Nives Meroi

Essas três senhoras estão, com todo mérito e reconhecimento, entre os melhores montanhistas da atualidade. Sejam eles homens ou mulheres.

Namastê!

5.0 ponto(s). Avaliado por 3 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Mulheres nas Alturas - Parte 2

by Patricia Paladino 22. junho 2009 17:31

Caros membros da expedição O Meu Everest

Continuando a série Mulheres nas Alturas, este capítulo é da austríaca Gerlinde Kaltenbrunner, uma das três montanhistas que rumam para completar o Circuito dos 14 OitoMil. Com um estilo diferente de Edurne Pasaban, a primeira perfilada da série, Gerlinde sempre busca a rota mais difícil - ou pelo menos a menos utilizada - para escalar. Para fechar o circuito, lhe faltam dois grandes desafios: o K2 e o Everest.

Ah, sim: esta série é dedicada a Gerusa Palhares, membro honorário da expedição O Meu Everest e montanhista de primeira.

Série Mulheres nas Alturas - Parte 2

GERLINDE KALTENBRUNNER

Seus Oito Mil: 

1998 – Cho Oyu (8.201m)
2001 – Makalu  (8.463m)
2002 – Manaslu (8.163m)
2003 – Nanga Parbat (8.126m)
2004 – Annapurna (8.091m)
2004 – Gasherbrum I (8.068m)
2005 – Shishapangma (8.027m)
2005 – Gasherbrum II (8.035m)
2006 – Kanchenjunga (8.586m)
2007 – Broad Peak (8.047m)
2008 – Dhaulagiri (8.167m)
2009 – Lhotse  (8.516m)
Ainda lhe faltam o Everest e o K2.

 

Gerlinde Kaltenbrunner nasceu em uma pequena cidade da Áustria, Kirchdorf-an-der-Krems, em 13 de dezembro de 1970. É claro que sua carreira começou nos Alpes austríacos, ainda muito nova. Em 1994 tentou, pela primeira vez, um OitoMil (o Broad Peak), mas não chegou ao cume – o que conseguiria quatro anos depois, com o Cho Oyu.

Três anos de diferança estiveram entre este e o segundo OitoMil. Coincidentemente (ou não), quando outra montanhista, a espanhola Edurne, iniciava sua busca. A partir daí, ela não parou mais: pelo menos uma ascensão por ano – e em 2004 e 2005, duas (Annapurna e Gasherbrum I e Shishapangma e Gasherbrum II, respectivamente).

Gerlinde é low profile. Ela não se refere a si mesma como “a primeira mulher escaladora a fazer isso ou aquilo”. Para ela, não há diferença entre homens e mulheres nas montanhas. Escala sozinha, com outros homens ou com outras mulheres. Escalou todos os cumes sem oxigênio, e buscando sempre as rotas mais difíceis – ou pelo menos as menos utilizadas. E faz isso sem muito alarde: a publicidade em torno de seu nome é espontânea e ela lida de forma bem tranqüila com isso. Sua máxima é: “Se a montanha não quer você, você deve sair dela”.

Em 2005, Gerlinde conseguiu o respeito e a admiração da comunidade da montanha ao completar a travessia da Face Sul do Shisapangma em estilo alpino, uma escalada non stop de 12 horas, sem cordas, acampamentos, sherpas ou oxigênio artificial. Escalou com o marido Ralf Dujmovits (que este ano, com o cume do Lhotse, tornou-se o 16° montanhista a fechar o circuito dos OitoMil) e outro parceiro constante, o japonês Hirotaka Takeuchi – com quem também fez a Face Norte do Kangchenjunga.

Em 2005, Gerlinde, Ralf e Hirotaka seguiram para o Everest – que pretendiam escalar pela Face Norte – na difícil, perigosa e pouquísimo utilizada rota do Japanese Couloir/Hornbein Colouir, e mais uma vez em estilo alpino. Mas, aos 7.650 metros, na Aresta Norte, Hiro subitamente perdeu a capacidade de falar – típico sintoma do Mal da Montanha, que pode evoluir até a fatalidade. Gerlinde e Ralf o puseram em uma barraca, enquanto seu estado se deteriorava. A austríaca tentava aplicar as drogas de emergência para esses casos, mas o corpo de Hiro estava tão rígido pelo frio que ela não conseguia enconrar uma veia para aplicar a Dexamethasona. Pelo telefone via satélite, contactaram um médico na Áustria – enquanto Hiro apenas pedia: “Tire uma foto minha antes de morrer”, um pouco delirante. Pouco depois, Hiro aparentemente conseguia se mover. Sem cordas fixas ou sherpas, o casal tiveram que improvisar: amarraram Hiro a uma corda e o guiaram pela travessia até a rota normal do Colo Norte. Com o japonês recuperando as forças, conseguiram chegar ao Campo Base Avançado Norte, onde uma expedição comercial os abrigou. Gerlinde e Ralf olharam para o cume, sabendo que a escalada havia terminado. “Mas o que é um cume comparado à vida de um amigo?”, ela disse depois. E o Everest ficou para depois.

Nesta temporada de 2009, Gerlinde chegou ao cume do Lhotse, dividindo o Campo Base – e toda a rota até o Colo Sul – com as expedições que seguiam para o Everest. Com este cume, ela e Edurne estão com 12 OitoMil.

Com o parceiro Hirotaka Takeuchi, na caminhada de aproximação (local não identificado)  

Com o marido e parceiro constante Ralf Dujmovits, em um de seus cumes (não identificado)

 

Escalando na difícil rota do Japanese Colouir, pela Face Norte do Everest: um cume adiado em prol da vida de Hiro.Um pouco antes da travessia com Hiro, um outro problema na escalada da Face Norte do Everest: o marido Ralf perde o crampom da bota direita, que o impossibilita de se mover. A superGerlinde entra em ação: desce até onde se encontra o marido, e depois até o último acampamento, trazendo de volta um crampon sobressalente

Na barraca em um dos campos altos do Shishapangma

 E com Ralf fazendo o cume do Shishapangma: escalada em estilo alpino, um non stop de 12 horas sem oxigênio ou apoio 

Acima e abaixo, na parede vertical do Annapurna

 

A ascensão do Gasherbrum I

O Gasherbrum II, pico do maciço de Gasherbum e 13ª mais alta montanha do planeta, situado na região do Karakoram paquistanês 

Acima, no Campo Base do Kangchenjunga; abaixo, a escalada do terceiro gigante com mais de 8 mil metros de altitude

       

Amanhã, a italiana Nives Meroi, a terceira montanhista em busca dos 14 gigantes da Terra.

Namastê!

5.0 ponto(s). Avaliado por 1 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Mulheres nas Alturas - Parte 1

by Patricia Paladino 20. junho 2009 11:37

Caros membros da expedição O Meu Everest,

Todo mundo sabe que nós, mulheres, podemos tudo! Inclusive entrar nessa briga da elite do montanhismo! Portanto, hoje começamos uma nova série – que se junta à série Heróis do Everest – contando um pouco da carreira das mulheres que fizeram história na alta montanha.

Embora este seja um blog dedicado ao Monte Everest, não há como esquecer os outros 13 gigantes com mais de 8 mil metros de altura da Cordilheira do Himalaia. Porque todos os grandes montanhistas que fizeram o Everest também têm muita história para contar nas outras montanhas...

E as mulheres estão lá. A primeira mulher a pisar no cume do Everest foi a japonesa Junko Tabei, em 1975 – e também foi a primeira a fazer dois cumes de 8 mil metros (com o Shishapangma, em 1981). Mas as primeiríssimas a chegar a um OitoMil integraram a equipe japonesa que fez o Manaslu (8.163 metros) em 1974: Naoko Nakaseko, Masako Uchida e Meiko Mori foram as desbravadoras de um gigante himalaio.

Depois delas, muitas mulheres seguiram para o alto. Mas vamos começar esta série pelo final. Focalizando três das maiores montanhistas da atualidade e que estão em uma competição (ainda que velada) pelo título de “a primeira a completar o circuito dos 14 gigantes com mais de 8 mil metros de altitude”. Todas refutam a competição. Dizem que fazem isso sem pensar no recorde e muito menos na disputa por quem vai consegui-lo. Será?

Edurne Pasaban, Gerlinde Kaltenbrunner e Nives Meroi. No ano passado, as três estavam “empatadas”, com 11 cumes. Este ano, as duas primeiras conseguiram mais um. Nives continua com 11. A corrida está acirrada. Nesta temporada, Edurne chegou ao cume do Kanchenjunga, Gerlinde ao do Lhotse e Nives não completou o Kanchenjunga. A briga está boa!! Quem tiver mais força, determinação, sorte com o bom tempo – e dinheiro – entrará para a história do montanhismo mundial. Vamos ao primeiro perfil, de Edurne Pasaban, uma das três maiores escaladoras em atividade.

Série Mulheres nas Alturas - Parte 1 

EDURNE PASABAN

Seus OitoMil:

2001 – Everest (8.848m)
2002 – Makalu (8.463m)
2002 - Cho Oyu (8.201m)
2003 – Lhotse (8.516m)
2003 – Gasherbrum II (8.035m)
2003 – Gasherbrum I (8.068m)
2004 – K2 (8.611m)
2005 – Nanga Parbat (8.126m)
2007 – Broad Peak (8.047m)
2008 – Dhaulagiri (8.167m)
2008 – Manaslu (8.163m)
2009 – Kangchenjunga (8.586m)
Ainda lhe faltam o Annapurna e o Shishapangma.

 

Edurne Pasaban nasceu em 1° de agosto de 1973 em Tolosa, Guipúzcoa, uma província espanhola e território do País Basco. É engenheira técnico industrial, com MBA pela Business School de ESADE, em Barcelona. Hoje, além de escalar altas montanhas, dirige um restaurante-pousada na província basca de Zizurkil e é consultora da ESADE e palestrante motivacional, voltada para planejamento e trabalho de equipe.

Aos 17 anos já escalava, e seu primeiro cume foi o Chimborazo, no Equador. Mas como nosso assunto aqui é alta montanha, vamos enfatizar seus feitos (e os das outras duas) na grande cordilheira.

Edurne começou pelo Dhaulagiri (8.167 metros, a sétima maior montanha do mundo), em 1998, mas não conseguiu chegar ao cume. Sua sucessão de cumes de OitoMil vieram a partir de 2001 – e logo pelo maior de todos eles, o Everest. Seu empenho no projeto a levou a escalar mais de um gigante por ano. Após o cume do Everest (em 23 de maio de 2001), partiu para o Dhaulagiri, mas não chegou ao topo. Em 2002 foram dois cumes: o Makalu, em 16 de maio, e o Cho Oyu, em 5 de outubro. E em 2003 fez o Lhotse, na primavera nepalesa, e partiu para o Paquistão, onde conquistou o Gasherbrum II (em 19 de julho) e o Gasherbrum I (também conhecido como Hidden Peak) apenas uma semana depois. Em 2004, torna-se a única espanhola a cumear o K2, segunda maior montanha do mundo e tecnicamente bastante difícil, e a sexta mulher a fazê-lo. Em apenas cinco anos ela fez sete OitoMil – com o ônus da perda de dois dedos dos pés por congelações no K2, que subiu com outra lenda dos Circuito dos 14 OitoMil, Juanito Oiarzabal.

Edurne Pasaban também tem um marco em sua carreira: foi a primeira montanhista a bater o recorde que pertenceu por muito tempo a Wanda Rutkiewicz, que é considerada a maior montanhista de todos os tempos, e que desapareceu na descida do Kanchenjunga. Até então, Wanda detinha o recorde de cumes em OitoMil (oito), e este recorde se manteve por 15 anos após sua morte. Até a espanhola igualá-lo.

Em 2005, foi considerada a melhor desportista do ano pela Federação Espanhola de Desportos de Montanha e Escalada (FEDME), pela Comissão Mulher & Esporte do Comitê Olímpico espanhol.

Há uma enorme expectativa – e publicidade – em torno de Edurne Pasaban. Em muitas de suas ascensões (como ao Nanga Parbat, ao K2 e este ano, ao Kangchenjunga) ela é acompanhada pela equipe do programa espanhol Al Filo de Lo Impossible, que documenta sua carreira.

A habilidade desta escaladora é notável. Ela tem um estilo agressivo na montanha, fruto de uma enorme determinação e de muita preparação física e psicológica. Edurne vive para (e nas) montanhas.

Campo Base do Everest, lado Norte tibetanto

   

Makalu (à direita, no cume)

 

No Cho Oyu 

Gasherbrum I

Nas fotos acima e abaixo, no K2. Na foto abaixo, chegando ao cume 

 

  

                  No Campo Base do Nanga Parbat                                        Com Juanito Orzabal, no Borad Beak

 

No Kangchenjunga, este ano

 

Amanhã, continuando a série Mulheres nas Alturas, os feitos da austríaca Gerlinde Kaltenbrunner.

Namastê!

4.6 ponto(s). Avaliado por 5 pessoas

  • Currently 4,6/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Uma visão diferente

by Patricia Paladino 17. junho 2009 10:16

 

Caros Membros da expedição O Meu Everest

Durante estes meses de blog, já nos acostumamos a ver várias lindas imagens desta montanha. Em muitas delas podemos apenas imaginar a grandiosidade do Everest - já que, muitas vezes, a perspectiva da própria foto ou a ausência de pontos de referência não nos dá a completa dimensão da enormidade da montanha e a magnitude da região onde ela está localizada.

Vasculhando meu arquivo de fotos, encontrei algumas que, com certeza, ainda não vimos por aqui... e que pode nos fornecer uma visão diferente desta montanha.

Um dos motivos do meu fascínio pelo Everest é justamente este: a força inimaginável da natureza quando resolveu criar a Cordilheira do Himalaia. Uma cadeia de montanhas que se eleva acima de todas as outras e que abriga, por isso mesmo, os picos mais altos do planeta.

O Everest visto do espaço. Com fotos da Nasa.

 

A curvatura da Terra e a Cordilheira do Himalaia 

 

Aproximando um pouquinho mais...

Em amarelo, as vilas que compõem a trilha até o Campo Base:

1. Lukla
2. Namche Bazaar
3. Thame
4. Tengboche
5. Gokyo
6. Lobuche
7. Gorak Shep e Campo Base (lado nepalês)
8. Campo Base pelo lado tibetano
9. Chukung (montanha vizinha ao Colo Norte nepalês)
10. Periche e Dingboche

Em rosa, algumas das montanhas avistadas durante a trilha:

1. Tramserku
2. Kang Taiga
3. Cho Oyu
4. Mera Peak
5. Ama Dablam
6. Chamlang
7. Baruntse
8. Everest, Nuptse e Lhotse
9. Makalu

 

As últimas vilas visíveis na trilha até o Campo Base (em verde), o Glaciar do Khumbu (em vermelho), que se estende até o Base, as montanhas-irmãs (em laranja) e o cume

 

E a visão do avião, mostrando três das montanhas mais altas do planeta 

 

É incrível como somos pequenos diante disso, não?

É isso o que me fascina. E, espero, a vocês também...

Namastê.

5.0 ponto(s). Avaliado por 3 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Site desenvolvido por ELIAS LUIZ   -    Servidor Dedicado BABOO   -   BlogEngine.NET 1.4.5.0

Um 'dispatch' inicial de LUCIANO PIRES

Quando lancei o site O MEU EVEREST tive a intenção de registrar a viagem que transformou minha vida. Durante sete anos o site cumpriu sua função mas sempre me incomodou por ser algo estático. Imutável. Sem movimento, sem atualizações. Em 2008 coloquei no ar um MURAL para comentários dos visitantes mas queria mais. Queria que notícias do Everest estivessem presentes. Queria que o conhecimento sobre o Everest - e não apenas minha experiência – fosse compartilhado com quem tivesse sido picado pelo bichinho do montanhismo. E então comecei uma busca por alguém que pudesse ajudar nessa missão.  

E em janeiro de 2009 fuçando na internet encontrei a Patricia. Convidei-a a assumir o posto de editora do BLOG O MEU EVEREST e o resultado está aqui. Seja bem vindo ao nosso Everest. Luciano Pires

Sobre a autora do blog: PATRICIA PALADINO

Patricia Paladino é jornalista, com experiência de 12 anos no Jornal do Brasil e seis anos com comunicação corporativa.

Em 1997, "desbravou" o Everest pela primeira vez. E a partir daí virou, por paixão, uma estudiosa do assunto. Nunca escalou o Everest, mas se um dia o fizesse, reconheceria todas as gretas, os séracs, os marcos do caminho. Afinal, já esteve lá muitas e muitas vezes... cada vez que lê, vê ou escreve sobre o assunto.

Everest, Luciano Pires, Acampamento Base, Kathmandu, Nepal, Tibet, China

    RecentComments

    Comment RSS